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Existe idade para ser sexy?

Existe idade para ser sexy?

Com o lançamento do álbum “Rebel Heart” e o boicote ao single “Living For Love”, Madonna fez todo mundo entender que rainhas envelhecem, mas nunca perdem a majestade.

Guilherme Popolin

Reinvenção e transgressão são marcas da carreira de Madonna. Com mais de 30 anos, consagrados – com altos e baixos – e consolidados na indústria, mais vários milhões de dólares na conta bancária, muita gente se pergunta: o que ela ainda tem para conquistar? Existe algum território inexplorado pela Rainha do Pop?

Ela chocou a família americana, ao rolar no palco do Video Music Awards, em 1984, vestida de noiva, mostrando a cinta-liga, cantando “Like a Virgin”, munida do seu famoso cinto “Boy Toy”. Aos 34 anos, em 1992, lançou o livro “Sex”, recheado de fotos eróticas. O que na época foi um escândalo, hoje representa um ato corajoso de feminismo e expressão da sexualidade da mulher.

Existe idade para ser sexy?
Divulgação

Os exemplos são inúmeros. Sua discografia e videografia são preenchidas por trabalhos que, quando lançados, causaram estranheza, curiosidade e trouxeram algo novo. Algumas cantoras conseguem ultrapassar os limites da indústria musical por suas contribuições sociais, políticas ou mesmo em outros segmentos da cultura pop. Além de lançar hits clássicos e instantâneos, Madonna se projetou como porta-voz de minorias, lançando tendências e questionando dogmas religiosos.

Outras cantoras também contribuíram ao longo da história para o empoderamento feminino na indústria do entretenimento - veja os boxes -, mas Madonna se destaca por seus números. É a cantora mais bem-sucedida de todos os tempos, pelo Guinness World Records, e a única mulher que está na lista dos artistas que venderam mais de 300 milhões de álbuns. “Living For Love” é a 44ª música dela a chegar ao topo da Billboard Hot Dance Club Songs. Mas, 2015 começou com Madonna cercada de novas polêmicas, como o vazamento de suas músicas e o boicote da BBC Radio 1, do Reino Unido, ao carro-chefe do seu “Rebel Heart”.

Na semana seguinte à 57ª edição do Grammy, premiação em que Madonna causou ao mostrar o bumbum no tapete vermelho e realizar uma performance empolgante do novo single, o Daily Mail publicou uma notícia informando que a BBC Radio 1 não iria executar o single na estação, porque Madonna, com 56 anos, é muito velha para seus jovens ouvintes. A rádio chegou a tocar a canção uma vez, mas fora do horário de grande audiência.

Fãs de Madonna e apreciadores de música de todo o mundo se revoltaram contra a atitude da rádio. O estudante de design de moda Fernando Passos, 29 anos, é fã da cantora. Para ele, a idade dela não interfere em nada na produção musical e artística. “Fui na MDNA Tour e ela estava impecável no palco. Que cantora nos dias de hoje não gostaria de ter uma carreira como a dela, de 30 anos, e ainda estar em evidência no cenário musical mesmo com todo o boicote que ela sofre?,” questiona.

Viciada em música, a relações públicas e DJ Fabiane Galliano, 23 anos, respira o pop no seu dia-a-dia. “Ela conseguiu inserir atitudes no mundo musical que são usadas até hoje. Eu consigo enxergar influências da Madonna em quase todos os artistas, não só da música pop. Ela tem fases em sua carreira, isso inspira outras artistas a reinventarem suas músicas e a identidade de cada álbum”. Fabiane exemplifica com o queridinho dos fãs, “Confessions On A Dance Floor” (2005). “Madonna abraçou o eletrônico, que estava bombando e crescendo durante o processo criativo do álbum, e o tornou mais radiofônico, popular,” completa.

O boicote pela rádio não é um fato banal e isolado, mas revela que Madonna ainda tem muito a contribuir e desbravar quando o assunto é a indústria do entretenimento. Ela é a única artista pop, com mais de 50 anos, que bate de frente com as cantoras mais novas e no auge da carreira, sendo elas vinte ou até trinta anos mais jovens. A sexualidade e sensualidade feminina, hoje exploradas por popstars como Britney Spears, Miley Cyrus, Beyoncé e Lady Gaga, só chegaram ao mainstream e são aceitas atualmente porque Madonna rompeu com os padrões nas décadas de 1980 e 1990.

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Para Fernando Passos, o álbum “Erotica” foi fundamental nesse processo, por ser uma resposta a toda opressão que a mulher sofria por ser ousada. O documentário "Na Cama Com Madonna" (1991) mostra os bastidores da "Blond Ambition World Tour", quando em um dos shows ela foi coagida pela polícia local a retirar a apresentação de "Like a Virgin" da setlist, porque a performance, em uma cama, insinuava a masturbação. Na turnê seguinte, a “The Girlie Show World Tour", o show começa com uma dançarina descendo em um gigantesco pole dance, de topless, e Madonna surgindo no palco vestida como dominatrix.

A fase do álbum “Erotica” aparece como uma das mais importantes. Fabiane Galliano relembra quando Britney Spears posou para a capa da Rolling Stone, em 1999, de calcinha e sutiã, e credita isso à Madonna que “já tinha transformado calcinha e sutiã em figurino na época do ‘Erotica’. Ela é a força que dá liberdade para que as mulheres usem mais do que a voz, mas o corpo e a dança em forma de arte,” diz.

Little Monster e dançarino apaixonado Fernando Matias, 20 anos, acredita que todas as cantoras pop devem muito à Madonna. “Todas as cantoras pop se mostram mulheres fortes e poderosas, usam roupas sexies e algumas até lutam por direitos alheios, como é o caso de Lady Gaga, que sempre se mostrou muito ativista. Se Madonna nunca tivesse usado um corset de cone, fotografado um sexbook e falado todas as polêmicas em entrevistas antigas, nem Lady Gaga, nem outra cantora teria toda a liberdade que tem hoje,” afirma.

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Madonna pareceu prever a polêmica com sua idade em entrevista ao apresentador Jonathan Ross, em 1992, durante a promoção do álbum “Erotica” e do livro “Sex”. Na época, com 34 anos, lançando um material que explorava a sexualidade, ela foi bombardeada pela crítica e opinião pública, declarando: “Não sofremos somente com racismo e sexismo, mas também com o preconceito de idade. Depois de chegar a uma certa idade, você não tem permissão para se aventurar. Você não tem permissão para ser sexual. Várias pessoas dizem: ‘Oh, é tão patético, eu espero que ela ainda não esteja fazendo isso daqui dez anos’. Quero dizer, quem se importa? E se eu sou? Existe uma regra? Você deveria apenas morrer quando tiver quarenta?”.

E a polêmica com sua idade veio 23 anos depois. O boicote da BBC Radio 1 teve fundamentos comerciais e estratégicos, como o veículo declarou em sua defesa. Também alegaram que Paul McCartney, de 72 anos, está na playlist da rádio com “FourFiveSeconds” e “Only One”, colaborações com Rihanna e Kanye West, respectivamente. Entretanto, este último fato fomenta ainda mais a polêmica, já que ele é homem, e as duas músicas não são apenas suas, mas parcerias com cantores mais novos e grandes hitmakers contemporâneos.

Sem ceder às pressões, ela fala sobre o episódio do bumbum no Grammy em entrevista à revista Rolling Stone, de março de 2015. “Então, se eu tiver que ser a pessoa que vai abrir as portas para as mulheres acreditarem e compreenderem a ideia de que elas podem ser sensuais, relevantes e gostarem de sua boa aparência nos seus 50, 60 ou seja lá que idade for, como se elas estivessem em seus 20, então eu serei esta pessoa”.

Madonna merece respeito e seu posicionamento vai ajudar a garantir a sobrevida de muitas cantoras na indústria. Em fevereiro, em entrevista ao site da Billboard, ela foi enfática ao afirmar que ela continua abrindo as portas para as mulheres. “Eu não conheço muitas mulheres que tiveram uma carreira de sucesso na música pop pelo mesmo tempo que eu tive. Eu esperei até que ficasse mais velha para ter filhos. Eu criei as crianças e não era casada. E eu continuo a expressar - a minha sexualidade - com meus 50 anos, que também é considerado um tabu, e eu aguento um monte de m*rda por isso. Mas em 20 anos, Miley Cyrus, provavelmente, não vai ter que aguentar. Então, vai ser como, ‘Oh, sim, isso não é nada novo’.”

Donas do pop
Elas provaram que a idade não significa nada quando se tem talento e amor ao trabalho. Cada uma com seu estilo, ajudou a construir e a enriquecer nossa cultura. Proprietárias da música, deusas e rainhas, elas terão seus nomes sempre lembrados pela história.
Cher
A Deusa do Pop
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Com 50 anos de carreira, Cher, 68 anos, já lançou álbuns, participou de filmes, apresentou programas de TV e realizou turnês mundiais. É dona de um Oscar, um Grammy, um Emmy, três Globos de Ouro e o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, em 1985, pelo filme “Marcas do Destino”.

Com quase 200 milhões de álbuns vendidos, é conhecida por sua autoreinvenção na indústria do entretenimento. A carreira bem sucedida em várias áreas rendeu o apelido de Deusa do Pop.

Tina Turner
A Rainha do Rock
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Imagina se apresentar para um público de mais de 180 mil pessoas. Foi essa a quantidade de pessoas que lotou o Maracanã para ver Tina Turner, aos 48 anos, em 1988, apresentar a turnê “Break Every Rule”. O show foi transmitido ao vivo para todo o mundo. Está registrado no "Guinnes Book" como o maior show já feito por uma cantora solo.

Os quase 60 anos de carreira renderam nove álbuns, sete filmes e 11 turnês. Foi a pessoa mais velha a posar para a capa da Vogue, em 2013, aos 73 anos.

Donna Summer
A Rainha da Disco Music
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Na década de 1970, junto com Giorgio Moroder, Donna Summer revolucionou a música ao criar a disco music. Foi ela quem lançou o conceito de extended mix e incluiu o sintetizador em suas canções, como pode ser ouvido no clássico “I Feel Love”.

Com mais de vinte álbuns lançados, entre inéditos e compilações, dominou os charts durante os mais de 40 anos de carreira, até a sua morte, aos 63 anos, em 2012. Indicada ao Grammy 17 vezes, levou cinco gramofones para a casa.

Aretha Franklin
A Rainha do Soul
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Quem nunca se pegou cantando “I Say A Little Prayer”? Uma das mais belas vozes da música negra e a primeira mulher a entrar para o Rock & Roll Hall of Fame, Aretha Franklin é dona de 21 Grammys, sendo três honorários.

Ela é a prova de que a idade não significa nada. Já colocou 77 canções na Billboard 100. Em 2014, aos 72 anos, tornou-se a primeira mulher a ter 100 músicas no Hot R&B/Hip-Hop Songs, da Billboard.

Um novo episódio trouxe à tona o senso comum e os julgamentos que permeiam nossa sociedade. No início da apresentação de “Living For Love” no BRIT Awards, onde ela não pisava há mais de 20 anos, Madonna caiu. O nó que prendia sua capa não se soltou, e quando os dançarinos puxaram, como haviam ensaiado, a cantora foi arremessada ao chão. Ela, então, se levantou e continuou a apresentação, cantando ao vivo, e finalizou honrando seu título de Rainha do Pop. Piadas se multiplicaram logo após o incidente, resultando em muitos culpando sua idade pela queda, como se uma mulher com mais de 50 anos não pudesse mais dançar ou realizar um bom trabalho.

“A idade da Madonna é apenas um clichê conveniente para querer derrotá-la”. A frase enfática da DJ Fabiane Galliano explicita uma realidade que hoje acomete a Rainha do Pop. “Ela continua criando e fazendo música. Não vejo ela fazendo isso por dinheiro, e sim por amor à carreira e pelo valor que ela sabe que tem na indústria. Ano passado, ela fez um topless para a revista Interview, aos 56 anos. Ela está sempre muito confortável com o próprio corpo e a idade é apenas um número,” diz.

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Fernando Matias completa, destacando o vigor que a cantora apresenta no palco. “É obvio que ela vai continuar fazendo o que ama até sentir que é a hora de parar, o que pelo visto ainda vai demorar um pouquinho. Está mais do que certa, bater de frente contra o preconceito e a mídia que tanto ama infernizar a vida dos famosos,” finaliza.

Parafraseando Nicki Minaj, “there’s one queen, and that’s Madonna, bitch!”

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Edição #22
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