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Escorpiões e carimbos, bareback, HIV e preconceito

Escorpiões e carimbos, bareback, HIV e preconceito

Nem gays, nem barebackers, nem os próprios soropositivos podem ser responsabilizados pela contaminação proposital – uma prática criminosa que nada tem a ver com seus diagnósticos ou práticas sexuais.

Murilo Araújo
Renan Riso

Certa vez, vi circulando pela internet uma campanha de prevenção a Aids que me assustou no primeiro olhar. O cartaz era ilustrado com a imagem de um homem fazendo sexo com um grande escorpião. O bicho, por baixo do rapaz, o envolvia nas patas enormes, e mantinha o ferrão a postos, pronto para atacá-lo pelas costas. Na legenda, a frase de impacto: “sem camisinha você está dormindo com a Aids”. Pra mim, por melhores que fossem as intenções da campanha, gritava ali uma estigmatização muito problemática dos portadores do vírus.

Fiquei pensando no impacto daquilo entre os meus amigos soropositivos, imaginando como deve ser terrível ser visto desta forma, como um animal disposto a atacar e envenenar na primeira oportunidade. É comum que estas pessoas enfrentem sérios problemas de rejeição relacionados à sua sorologia, porque quase sempre são identificados como bombas-relógio prestes a matar todos em volta. A campanha reforçava isso: deixava a entender que o inimigo é o portador, sendo que o real inimigo é o vírus.

Nas últimas semanas, temos acompanhado uma polêmica que imediatamente me remeteu a esta campanha e ao estigma social que ela representa. Trata-se do caso do chamado “clube do carimbo”, organizado na internet em blogs de rapazes gays que estariam divulgando métodos para infectar pessoas com o HIV, intencionalmente. A denúncia, que começou a circular em redes sociais, virou escândalo, e começou a ser divulgada precipitadamente em notícias e reportagens que, no fim das contas, só contribuíam para o pânico e a desinformação.

Na maior parte dos comentários que vi sobre o assunto, cabia perfeitamente a metáfora do escorpião: quase tudo reproduzia o terror moralista de que o sexo – e particularmente o “sexo gay” – deveria ser temido, sob o risco de encontrar em qualquer esquina um soropositivo manipulador, disposto a “carimbar”, a envenenar.

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De forma espontânea, a camisinha vem saindo de cena pra uma fatia significativa de gays. Porém, mais que uma polêmica, o bareback traz reflexões profundas sobre sexualidade, homofobia e controle.

De início, é preciso deixar claro que não estou defendendo o tal clube. Por maiores que possam ser as controvérsias em torno dessa questão, serei sempre contrário a qualquer prática que viole a liberdade e a individualidade alheia, e este caso envolve exatamente esse tipo de manipulação desonesta. A questão é que esse lado repulsivo e até criminoso das práticas destas pessoas me parece mais do que evidente, e não é exatamente isso que me incomoda na polêmica toda. O que tenho observado com maior preocupação, neste caso, é o fato de que muitas outras pessoas e grupos foram jogados no mesmo pacote, acabando culpabilizadas irresponsavelmente pela atuação isolada do tal clube.

Boa parte da polêmica, a princípio, girou em torno da prática do sexo sem camisinha, o chamado “bareback”, que foi imediatamente associado à transmissão voluntária do vírus, o que não é verdade. Muito antes dessa polêmica vir à tona, nós do Vestiário já tratávamos desse assunto, numa reportagem que dizia, sem moralismos, aquilo que deveria parecer óbvio: nem todo barebacker é soropositivo, e eles são nada mais do que homens gays adultos que preferem fazer sexo sem camisinha, quase sempre conscientes a respeito da própria sorologia e dos riscos de contágio que a prática envolve. Você, como eu, pode até achar que estas pessoas são um pouco malucas. Mas eu não estou na pele delas, não entendo dos seus prazeres, e não estou em condição de dizer o que quer que seja a respeito das suas decisões e práticas.

A lógica de um barebacker me parece semelhante à lógica de um fumante: ele até sabe que o cigarro pode fazer mal, mas se sente bem com aquilo e não vai deixar de fumar por isso. A diferença maior é o grande nível de moralismo que cerca o sexo sem camisinha praticado por homens gays. Não só por causa do HIV, mas por preconceito mesmo. E digo isso não por achar que o HIV deva deixar de ser enfrentado, mas porque vejo que essa mesma preocupação sequer aparece em muitas relações heterossexuais, onde a falta da camisinha quase nunca é encarada como um problema, a não ser em casos de risco de gravidez. Mal se fala em DSTs, e muitas vezes estas pessoas seguem portando o vírus, espalhando-o inconsequentemente, sem sequer conhecerem sua condição sorológica. Neste jogo, por que só os gays são fiscalizados em função do risco de contágio? Por que a sombra do “câncer gay” ainda insistisse tanto em nos atormentar?

Neste mesmo caminho, também foi preocupante ver o modo como alguns setores conservadores fizeram uso político dessa polêmica para culpar gays, reproduzir homofobia, e dar voz a discursos moralistas que cercam as pessoas soropositivas de estigma. Marco Feliciano, por exemplo, subiu no plenário da Câmara dos Deputados para tratar do assunto, construindo todo um discurso contrário ao “homossexualismo” e à “promiscuidade”, classificando as práticas destes tais homossexuais promíscuos como “tentativa de homicídio”.

No pacote, lembrou de cobrar às autoridades que criassem campanhas de conscientização a respeito da questão da Aids, o que até seria válido, não fosse o fato de que o próprio Feliciano protagonizou, junto à bancada fundamentalista, uma série de pressões ao Ministério da Saúde, que culminaram justamente no veto a uma campanha de prevenção que incentivava o uso de camisinha durante o carnaval de 2012. O público da tal campanha, curiosamente, era de homens gays, travestis e profissionais do sexo.

Tais discursos precisam ser sistematicamente discutidos, e criticados, porque podem ter efeitos muito preocupantes. Como afirmou uma pertinente nota da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) a respeito da polêmica, argumentos morais e criminalizantes são sempre perigosos para as políticas de combate ao vírus, porque afastam as pessoas que queremos aproximar, impedindo tanto a prevenção quanto o tratamento. Ao contrário do que afirmam os comentários irresponsáveis dos jornais e dos Felicianos, nem gays, nem barebackers, nem os próprios soropositivos podem ser responsabilizados pela contaminação proposital – uma prática criminosa que nada tem a ver com seus diagnósticos ou práticas sexuais.

Enquanto continuarmos enxergando as pessoas como escorpiões, mortíferas em potencial, elas continuarão se afastando e se escondendo, com o medo legítimo de serem exterminadas, feito pragas. E o efeito desse estigma, no fim das contas, pode ser ainda mais devastador do que o próprio vírus.

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Edição #22
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