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Como o hip-hop saiu das ruas e chegou de vez às passarelas

Como o hip-hop
saiu das ruas e
chegou de vez às passarelas

Das calças no chão aos ternos de grife, o movimento é hoje um dos grandes influenciadores da moda. Até que ponto esse alcance é positivo e o que mudou desde que o gênero deixou os guetos?

Mônica Alves

O hip-hop sempre foi um movimento controverso. Nascido nos subúrbios americanos, o estilo sempre foi um espaço para a difusão da cultura negra, especialmente em tempos de censura extrema e preconceito escancarado. Iniciado na década de 70, o gênero trilhou um longo caminho até chegar ao que conhecemos hoje, em um misto de quebra de estereótipos e perda de identidade.

Considerado o conjunto de quatro elementos, o hip-hop se mantém como uma cultura heterogênea. A junção do DJ (disc jokey), do MC (mestre de cerimônias), do grafite e do break criam uma mistura que afeta a sociedade não apenas musicalmente, mas também em termos de comportamento. E é aí que entra a discussão sobre o estilo e como o seu impacto atinge a moda: até que ponto essa adaptação é benéfica a um movimento culturalmente tão expressivo e quanto dessa cultura podemos inserir na sociedade sem banaliza-la?

Segundo a jornalista Vanessa Germanovix, especialista em Moda e que estuda justamente a apropriação de conceitos do hip-hop pela indústria contemporânea, o movimento utiliza a forma de se vestir como um atributo de expressão e identificação, além de ser uma crítica a certos padrões sociais. A diferença entre as suas raízes e a atitude de hoje é grande, já que no início não havia uma intenção clara de se propagar um estilo de vestimenta específica.

“Nos anos 1990, prevalecia o Gangsta Rap, com o estilo de se vestir inspirado nos gângsteres de 1930 e 1940 e com influências da máfia, especialmente inspiradas na versão de 1983 do filme ‘Scarface.’ As letras variavam desde reflexões profundas, acerca de problemas sociais como a pobreza e os perigos do tráfico de drogas, a histórias fictícias. Hoje, mais comercial, o estilo dos rappers aborda elementos de todas as fases da história do hip-hop, incluindo peças do vestuário esportivo como jaquetas, tênis e bonés, roupas muito largas, e até os ternos de grife”, aponta a jornalista.

Muito diferente dos dias de Afrika Bambaataa e Zulu Nation, o hip-hop atual é um negócio extremamente lucrativo. Totalmente integrado à indústria musical do século XXI, o gênero quebrou várias barreiras e atingiu um público muito diferente daquele dos guetos de Nova York. Do estilo ostentação até os paradigmas da apropriação cultural, a representação do hip-hop comercial se dilui em frente à intensa competição e às inúmeras faces que surgem todos os dias, o que leva à crença de que o movimento perdeu sua base principal: dar uma voz aos excluídos. De mãos dadas com o rap, a ideia de uma cultura marginalizada não pode mais ser aplicada ao hip-hop milionário que desfila mundo afora, inclusive nas semanas de moda.

O hip-hop na moda
Aqui estão algumas das tendências que mais amamos
Bling power

Correntes pesadas, muito ouro e atenção a todo custo.

Grillz

Não é pra qualquer um, mas chegou na Katy Perry.

Baggy pants

Ainda é um mistério como MC Hammer mantinha as calças sem cair

Aba reta

Não toque na aba no boné. Aba torta não faz parte deste mundo

Tênis customizado

Já tem o seu Yeezy? North West já garantiu o dela.

Mesmo que o movimento sempre tenha tido uma linguagem visual muito forte, foi nos últimos 20 anos que a sua imagem passou a ser vista como um estilo concreto dentro do universo da moda. As parcerias e os contratos exclusivos de hoje se diferem muito dos primeiros flertes entre os dois mundos, ainda nos anos 80. LL Cool J e seus chapéus Kangol, as joias pesadas de Salt’n’Pepa e as temidas calças baggy do MC Hammer deram lugar a um estilo muito mais sofisticado, muitas vezes atrelado a grifes de renome.

Seja como fonte de inspiração de coleções ou mais um trabalho para nomes aclamados da música, as passarelas se abriram para a incorporação de elementos da rua enquanto alguns músicos fazem o caminho inverso e se vestem de forma mais clássica, agregando status à sua marca pessoal.

São estes elementos, antes exclusivos da rua, que hoje movimentam uma cadeia gigantesca de produção. Ainda de acordo com Vanessa, o movimento hip-hop manda sua mensagem por meio das músicas, da dança e do grafite, e tudo isso se refletiu permanentemente no modo de se vestir.

Temos os tênis, por exemplo, que deixaram de ser restritos às quadras para fazer parte do vestuário casual. O caráter rebelde das ruas não foi suficiente para evitar que o estilo fosse apropriado pelas maisons de alta-costura e a inspiração desta estética agora ocupa passarelas de grifes de luxo. Por exemplo, a letra da música “Elegância”, de Rincon Sapiência, que descreve a moda do hip-hop e diz que a “filha do burguês” e “grifes do shopping center” admiram e reproduzem o estilo. Virou um complemento de atitude”.

Algumas figuras carimbadas como JAY Z e Kanye West são bons exemplos disso. Enquanto o senhor Beyoncé está sempre impecável com seus ternos Armani e adquire marcas de champagne por aí, Kanye encontra tempo entre uma polêmica e outra para ser o frontman da Adidas na NYFW, lançando uma linha completa de roupas ao lado do seu já famoso Yeezy. Os dois gigantes do rap e do hip-hop são rostos certeiros em guias de estilo e, fora dos palcos, não mantém a imagem do gangster americano que costumamos atrelar ao gênero.

Devemos muito ao hip-hop em inúmeras esferas culturais, especialmente no que diz respeito à valorização da arte de rua e da crítica social em todo o movimento. Em relação à moda, com certeza não teríamos muitas das tendências que amamos e a atitude relaxada que o gênero trouxe à maneira que nos vestimos, mesmo que não estejamos imersos neste universo.

E ainda que hoje em dia o hip-hop seja muito mais abrangente e lide com temas amplos, sempre carregará sua bagagem de mudança e de contestação, estejam os seus porta-vozes com correntes de ouro e cuecas à mostra ou não. A arte prevalece e o movimento agradece.

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Edição #22
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