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A arte de reagir

A arte de reagir

O livro da multifacetada Amanda Palmer chega às livrarias brasileiras impulsionado pelo carisma da artista na web.

Renato Cabral

Uma estátua viva vestida de noiva entrega flores aos que contribuem com qualquer quantia de dinheiro, quando passam pela calçada. Lendo assim, em uma resumida frase pode parecer algo completamente banal, mas está bem longe disso. Ainda mais quando possui o toque da multifacetada Amanda (fucking) Palmer.

A arte de reagir
Divulgação“A Arte de Pedir” é lançado no Brasil pela Editora Intrínseca

Partindo de suas performances, como essa da noiva, a artista americana lançou ano passado seu livro autobiográfico: “A Arte de Pedir” (The Art of Asking, Editora Intrínseca). Na publicação, ela desenvolve a partir dos seus trabalhos e arte um entendimento sobre a necessidade de perguntar e pedir. Como nossas avós costumam dizer, “Quem tem boca vai à Roma.” e para Amanda não é muito diferente, mas certamente foi um aprendizado.

Entre as tantas bandeiras que levanta (como o movimento feminista, por exemplo), ela também mantém um conceito muito bem definido e forte a respeito da indústria e dos artistas. Em seu livro, fica clara a conclusão de que a arte é produto e profissão, logo deve acontecer um reconhecimento, um pagamento. Afinal, se demandou tempo e dinheiro para chegar a um produto a ser apresentado para um público. E existe demanda. A moeda que se dá para a estátua viva não é uma esmola, mas uma forma de pagamento simbólico pela sua performance artística. Por aquele momento de intervenção que ocasiona um acontecimento entre você e a estátua. Uma cumplicidade. Um entendimento de todo aquele trabalho e conceito criados.

Tudo isso foi um pouco do que Amanda concluiu em sua fala para o TED, plataforma que convida personalidades de visão a darem uma palestra rápida. O que a levou até lá foi sua campanha no Kickstarter, plataforma de crowfounding. Sendo considerada uma das pioneiras nesse tipo de negócio, Amanda decidiu certo dia pedir a seus fãs que financiassem sua mais nova empreitada. E deu muito certo. O arrecadamento foi bem superior ao que era esperado e colocado como meta. E em sua fala, no TED, Palmer acabou externando o que boa parte da classe artística pensa, de forma dinâmica e bem-humorada. É um pouco da relação artista e fã. E a conexão que é criada ao pedir.

Este vídeo está no YouTube e pode deixar de ser exibido a qualquer momento

A palavra multifacetada não é usada à toa para Palmer. Seus projetos musicais são diversos. Iniciando com o The Dresden Dolls, passando pelo duo Evelyn, Evelyn e até mesmo sua carreira solo, que já contou com a participação da The Grand Theft Orchestra, sempre mesclando muito bem o punk rock com o punk cabaret.

Um outro ponto que Amanda explora muito bem é a expansão desse contato com seus fãs. Considerada acessível, ela utiliza as redes sociais muito além de somente anunciar singles e datas de turnê. Mais que postar, é comum vê-la respondendo comentários e tornando sua relação com seus admiradores completamente aberta e íntima. Sem medo de parecer vulnerável, Palmer diz quando está triste, o que lhe incomoda e surpreende. Essa conexão a torna mais real e humana. O que todo artista é, mas longe de alguns quererem parecer acessíveis, não é? Amanda é um caso raro.

Longe de ser um relato autobiográfico profundo da vida da artista, “A Arte de Pedir” é uma documentação de seu processo artístico e pessoal. Trazendo um entendimento de mundo que por vezes parece tão básico, mas tão pouco colocado em prática.

Aprender a se autovalorizar, valorizar aqueles ao redor, indagar o que parece tão banal e buscar a sinceridade são quase como missões nessa jornada em que Amanda nos puxa pelo braço buscando alguma reação, ao som de uma vida que exala liberdade e imperfeições. Afinal, são essas palavras que tornam tudo mais valioso.

Boicote

O lançamento de “A Arte de Pedir” nos Estados Unidos foi marcado por um episódio bem frustrante com a Amazon. A loja eletrônica estava boicotando os livros da editora Hachette Book Group, da qual o livro de Amanda faz parte.

Com isso, houve toda uma campanha para que as pessoas não adquirissem os livros por lá.

Neil (fucking) Gaiman

Amanda e o escritor Neil Gaiman são casados desde 2010. Eles se conheceram através de um amigo em comum que Palmer usou para entrar em contato com ele para que colaborasse com alguns contos para o livro que acompanhava seu primeiro álbum solo “Who Killed Amanda Palmer?”.

Em “A Arte de Pedir”, Amanda passa por um momento em que vê sua relação com Gaiman ser fortalecida ainda mais com questões que envolvem a arte de pedir apoio financeiro.

Fãs

A relação de Palmer com seus fãs chega a ser íntima. A artista já ficou hospedada na casa de seus admiradores e mantém contato direto com eles, sem barreiras, através das redes sociais, em especial Facebook e Twitter.

Katy Perry

Em 2008, em uma performance contrária a Preposição 8, Palmer e a comediante Margaret Cho encenaram um esquete em que uma sósia da cantora Katy Perry começava a cantar “I Kissed a Girl”, sendo interrompida pela dupla com beijos e carícias. O esquete era finalizado com Palmer casando Perry forçadamente junto de um banner contra a Proposição 8.

Amanda resumiu, dias depois, em seu blog que o evento foi um protesto pelo descontentamento de membros da comunidade LGBT pela exploração de suas identidades na canção “I Kissed a Girl” e pela Proposição 8.

Sensacionalismo britânico

Em 2013, ao se apresentar no festival Glastonbury, Amanda ganhou uma matéria no tabloide britânico Daily Mail inteiramente dedicada ao problema com o figurino de sua performance. Em determinado momento da apresentação um dos seios de Palmer escapou do sutiã. A reportagem se dedicou a explorar apenas isso, sem comentar sobre a incrível apresentação da artista.

Em um show seguinte, a cantora apresentou uma música dedicada à matéria sensacionalista e ao jornal. Dessa vez o figurino foi um kimono, o qual ela retirava durante a performance, ficando inteiramente nua.

Twin Peaks

O primeiro álbum da carreira solo de Amanda foi lançado em 2008 com o título “Who Killed Amanda Palmer” (Quem Matou Amanda Palmer), referenciando a série televisiva criada por David Lynch “Twin Peaks” no qual a personagem principal Laura Palmer é assassinada.

Em 2009, um livro de fotos de Palmer posando como se estivesse assassinada foi lançado contendo ainda histórias escritas pelo marido da performer, Neil Gaiman, assim como as letras das canções do álbum.

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Edição #22
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