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À minha futura filha

Uma conversa franca de uma futura mãe com a sua futura filha.

Mônica Alves
À minha futura filha
ReproduçãoFeminist: a person who believes in the social, political and economic equality of the sexes.

Querida filha,

Não é fácil ser mulher. É como se você tivesse ganhado logo de cara um presente bem complicado, uma dádiva e uma cruz. Você nasceu com uma luz única, uma bagagem só sua e que nem todo mundo vai entender. Para você chegar aqui, muitas outras mulheres tiveram que enfrentar, sozinhas, verdadeiras batalhas que pareciam sem esperança, tudo para que você pudesse chegar a esse mundo maluco com alguma segurança. E sabe, filha, a luta ainda não acabou – e agora ela é um pouquinho sua também.

Você vai aprender, aos poucos, que uma mulher não anda, ela voa. Cada passo dado na sua vida vai ser embalado por muitos empurrões, sejam eles de incentivo ou não. Você vai perceber que as dúvidas vão te cercar pra sempre, simplesmente por ser quem você é. Será que ela é capaz? Será que ela é forte o suficiente? Será que ela chega lá? Você pode ser o seu máximo, mas para algumas pessoas isso nunca vai ser o melhor.

Filha, alguns dias serão muito difíceis, ao ponto de você não querer sair da cama. Você vai lidar com pessoas que te julgam pela cor do seu cabelo, pelo tamanho da sua calça ou pelo batom que você usa ou deixa de usar. Em alguns momentos, a sensação é de que o seu conteúdo é o menos importante, desde que você esteja em dia com o seu peso. Você vai perceber que, para algumas pessoas, o seu corpo não pertence a você: ele é propriedade pública.

Você vai ser incomodada na rua, vai ter medo de andar sozinha e vai viver situações em que é mais fácil ocultar a realidade do que ouvir um “ah, mas você poderia ter usado uma saia mais comprida”. Todo mundo vai ter uma opinião sobre a sua conduta, mas só você estará na sua pele.

Você será colocada em uma situação competitiva com outras mulheres todos os dias da sua vida. Sempre vão te comparar a outra menina na esperança de que você fique mais bonita, mais magra ou mais interessante para algum homem. Como em uma verdadeira guerra, você vai ser vista como inimiga por muitas, mesmo sem saber o motivo – na maioria das vezes ele nem vai existir. E quando você se sentir exausta e precisar de um ombro amigo, vai perceber que poucas pessoas no mundo estão dispostas a te estender a mão sem querer nada em troca: o altruísmo, filha, é uma qualidade cada vez mais rara.

O seu esforço vai ser sempre maior, pode ter certeza disso. Você vai estudar, trabalhar e construir sua vida sob os olhares de muitos que se acham mais capazes do que você simplesmente por serem homens. Você vai lidar com salários menores, olhares maliciosos e piadas de mau gosto por onde passar, sempre carregando o estigma de que há algum motivo externo para você ser bem sucedida, muito maior do que a sua capacidade. E se você falhar, minha filha, as críticas serão arrebatadoras. No final, você foi fraca.

Eu não quero te desanimar, filha, mas a realidade é que todo dia é uma batalha. Por mais que pareça que vivemos em um mundo melhor do que nossas avós e bisavós, ainda temos um caminho muito longo a caminhar. Você vai crescer em uma sociedade que não sabe lidar com mudanças e anda a passos lentos, especialmente no que diz respeito aos direitos das mulheres. Todo mundo vai te julgar antes de perguntar a sua opinião e saber o seu lado da história, e isso muitas vezes cansa. A verdade é que, as vezes, você vai se sentir sozinha nadando contra a corrente.

E é aí que vem a parte boa: você não está sozinha. Nunca estará. Você nasceu com um dom, mas o tempo vai te ensinar que ser mulher é muito mais do que isso. Você vai, aos poucos, se tornar um ser humano capaz de amar e lutar, sonhar e alcançar, chorar e seguir em frente. Você vai ter o coração partido, se enganar, tirar notas baixas, cair na rua e levar uma bronca do seu chefe, mas você vai sempre saber como respirar fundo e colocar tudo no lugar.

Quando te menosprezarem e acharem que você vale menos, você vai sempre se lembrar de quantas outras mulheres já passaram por isso e foram fortes para continuar. Ao deitar na cama depois de um dia ruim, você vai pensar o quão longe você já chegou e o quanto você ainda pode andar.

Ser mulher, minha filha, é um constante aprendizado. Enquanto o resto do mundo te dá as costas, você tem que erguer a mão. Se as pessoas te mostrarem o caminho errado, você faz a curva. E se estiver muito difícil pra passar, é só descer do salto e ir. Você vai ver que a sua atitude é a sua garantia de sucesso em todos os setores da sua vida, e a chave disso tudo é acreditar no seu próprio valor.

Você tem que deixar o medo em casa e seguir lutando dia após dia, ano após ano, para conseguir chegar aonde você quiser. Jamais se prenda ao que os outros vão pensar ou ao quão difícil uma escolha pareça ser.

Dê o seu máximo e lembre-se sempre que você pode abraçar o mundo. Afinal de contas, minha filha, você é mulher. E o abraço de uma mulher vai ser sempre o melhor.

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