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O tesouro vulnerável da Rainha

A passos lentos, a indústria fonográfica já está aprendendo como se proteger de vazamentos, mas Madonna ainda não.

Jean Carlos Gemeli
Eduardo Myr
O tesouro vulnerável da Rainha
Eduardo Myr

Entramos na era digital com o título de “sociedade do consumo”. Queremos tudo para ontem. E isso inclui o novo material de Madonna. Afinal, quem não gostaria de ouvir o tesouro guardado a sete chaves pela Rainha do Pop antes de todos? Mas parece que ele não estava tão seguro assim.

Nos últimos meses, a violação de propriedade privada e a divulgação de dados, causadas por hackers, virou assunto mundial. O motivo foi a Sony Entertainment, que teve centenas de seus arquivos divulgados, revelando ao mundo informações pessoais dos empregados da empresa, salários de empresários e intrigas de Hollywood.

A causa da invasão atende pelo nome de “A Entrevista”, uma comédia com o enredo em que assassinaria Kim Jong-un, líder da Coréia do Norte. Os autodenominados “Guardiões da Paz” exigiram o cancelamento imediato do filme em qualquer plataforma, deixando um prejuízo de 90 milhões de dólares para a Sony.

Utilizar a agilidade da internet a favor do artista não é opção

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A indústria da música, assim como a cinematográfica, tenta com muitos esforços combater os hackers. No entanto, ainda com cronogramas de lançamentos parecidos com os anos 70, os vazamentos continuarão frequentes se nada for feito de diferente para tentar contê-los. Não basta combater o pós-vazamentos.

É preciso pensar em estratégias para que eles não aconteçam e não sejam perdidos milhões de dólares. E quando o assunto é cibersegurança, o problema é ainda maior, já que empresas especializadas no assunto apontam 2015 como o ano dos hackers.

E Madonna se cuidou. Ou pelo menos tentou. Nos estúdios onde gravava, não havia wifi, ou até mesmo internet. Os discos rígidos (HD) ficavam sob responsabilidade de pessoas confiáveis, e obviamente, celulares ficavam de fora em qualquer sessão. Mas não foi suficiente. Foram mais de 30 faixas demos vazadas, que caíram na rede em dezembro, praticamente quatro meses antes do lançamento oficial.

A estratégia do empresário da cantora, Guy Oseary, foi liberar seis músicas finalizadas no iTunes. Fazendo do limão, uma limonada, Madonna transformou o vazamento em um hit mundial, já que as canções foram direto para o topo da plataforma digital em mais de 40 países. Mas não foi bem assim que eles planejaram.

Este vídeo está no YouTube e pode deixar de ser exibido a qualquer momento

“O álbum sairia em abril, e ‘Living For Love’ estaria pronta para o feriado do Dia dos Namorados, como carro-chefe”, afirma Oseary. O que Madonna fez foi apenas dar um presente de Natal adiantado aos seus fãs, sedentos por um material oficial. A ansiedade aumentava a cada suposta dica que Madonna lançava, gerava uma expectativa imensa entre os fãs postando fotos e mais fotos do novo projeto.

A Rainha do Pop descontou toda a sua raiva no Instagram. Classificando a série de vazamentos como uma forma de terrorismo. “Isso é um estupro artístico! Essas [músicas] são demos vazadas, metades delas nem irão entrar para o meu álbum”, comentou.

A cantora confessou que se sentia traída, após descobrir que o computador e telefone estavam sendo hackeados por mais de uma década. Junto ao FBI, a cantora abriu uma investigação para tentar encontrar o responsável. E algumas semanas depois, o hacker foi detido em 21 de janeiro.

Madonna errou em confiar que tudo estava seguro demais. Já presenciamos grandes vazamentos digitais, principalmente com cantores de grande porte. Os artistas não têm que se conformar porque um material foi disponibilizado mais cedo na web, já que é possível que eles tenham total controle de quando iremos ouvir seus materiais, basta pensar em novas formas de segurança.

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Ainda em 2011, o álbum colaborativo de JAY Z e Kanye West, “Watch the Throne”, recebeu a mais bem sucedida estratégia anti-vazamento até aquele momento, como definiu Jeremy Banks, diretor anti-pirataria da IFPI, um dos principais institutos da indústria musical para as gravadoras.

As gravações do disco foram feitas em hoteis pelo mundo (Sidney, Paris, Nova York), e as colaborações não foram decididas por e-mail, como usual, mas presenciais nos estúdios temporários. Os HDs eram protegidos por impressões digitais e guardados em maletas também com senha.

Com o objetivo principal de não-vazamento, o álbum foi entregue, quando finalizado, para a Apple na sexta-feira, 5 de agosto, com o lançamento digital marcado para a segunda-feira seguinte (08). Apesar de toda a segurança, a imprensa pôde ouvir o trabalho durante e antes de todos. “O lançamento foi parecido com o modelo dos anos 90 no marketing televisivo, antes do físico”, comenta o presidente da Island Def Jam, Steve Bartels.

Madonna é uma artista que não pode deslizar por sequer um momento

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Em julho de 2014, JAY Z lançou o álbum “Magna Carta Holy Grail” com uma estratégia diferente. Em acordo com a Samsung, o disco podia ser baixado de graça em alguns celulares e tablets da marca. A parceria garantiu um acordo de 5 milhões de dólares com a companhia, o que é bem maior do que os royalties recebidos em lançamentos normais.

Já Beyoncé aprendeu do pior jeito. Também em 2011, enquanto o marido se protegia, Beyoncé foi pega em um vazamento que virou notícia pelo mundo. O primeiro álbum produzido após o desligamento do pai da cantora, Matthew Knowles, como seu empresário, estava agendado para dia 28 de junho, mas chegou a público praticamente três semanas antes.

Contentando-se com o que havia acontecido, dois dias depois a cantora se pronunciou agradecendo a resposta positiva dos fãs através de sua fan page oficial no Facebook. A história foi encerrada com a Sony Music processando o hacker responsável, que precisou pagar uma indenização de 233 mil dólares.

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A fim de que seu próximo material não vazasse, a cantora seguiu o modelo do marido e também partiu para o lançamento exclusivo com a Apple. E assim, de surpresa, um álbum visual com 14 músicas e 17 vídeos foi lançado em dezembro de 2013. Talvez esse tenha sido o diferencial da cantora que, tal como JAY Z, Justin Timberlake e David Bowie, guardaram seus retornos a sete chaves. Nem mesmo a mídia sabia.

Para Lee Anne Callahan-Longo, diretora-geral da Parkwood Entertaiment, empresa criada pela própria Beyoncé para agenciar a carreira, a ideia foi arriscada e parecia loucura.

Rob Stringer, presidente da Columbia Records, explica que o método tradicional não seria suficiente para Beyoncé, pois a cantora merecia um cuidado melhor com o material. O intuito era que ela lançasse um single três meses antes do disco, ganhasse tempo em rádio (airplays), lançasse um vídeo, e participasse de algum grande programa de TV.

“Nós aprovamos o orçamento antes de produzir o álbum. Em algum ponto, Beyoncé iria nos apresentar o álbum que queria lançar e iríamos trabalhar no marketing e distribuição”, assegurou ele. “Nós gostamos mesmo da ideia de segredo porque, afinal, não tínhamos tempo suficiente para fazer o tradicional”.

O sistema de distribuição de cópias físicas é arcaico, facilitando os vazamentos.

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Quem confirma o cronograma corrido é Jim Sabey, cabeça do marketing mundial da Parkwood. “Eu pensei que o álbum sairia antes do Super Bowl, mas fomos adiando. Quando vimos, estávamos próximos do feriado de final de ano. Essa era a última data”.

O acordo com a Apple era que, assim que as músicas e os vídeos fossem recebidos, a loja os colocassem direto no sistema online, sem esperar. Não contente, a cantora fazia uma espécie de dominação, com imagens do álbum por toda a loja online. “Um lançamento mundial desse porte, só iTunes poderia fazer. Nós levamos Beyoncé para milhões de fãs em 119 países ao mesmo tempo”, afirma Robert Kondrk, vice-presidente da plataforma.

O Facebook e o Instagram também estavam por dentro da jogada. “A maior plataforma de mídia social nos assegurou que todos os fãs de música iriam receber o anúncio do álbum”, afirma Lee Anne. A estreia do AutoPlay Video no Facebook foi essencial.

A cantora foi a primeira a usar o recurso em que reproduz automaticamente os vídeos na timeline do usuário. Já a fase dois foi #AskBeyonce no Instagram, em que a plataforma ajudou a cantora a reunir perguntas, respondidas depois em uma exibição dos vídeos, apresentada pela própria Beyoncé. A dominação das redes foi certeira.

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Engana-se quem acha que esse álbum não teve divulgação: Beyoncé apareceu para mais de 104 milhões de telespectadores no Super Bowl; produziu o documentário “Life is But a Dream”, da HBO; lançou “Grown Woman” no comercial da Pepsi, e “Standing On The Sun”, para a H&M; além da turnê mundial, com 132 shows em 69 cidades e 27 países ao redor do mundo.

Há dois anos, a novata Angel Haze, se revoltou com a gravadora, que não queria lançar o disco já finalizado, e ela mesma vazou “Dirty Gold” no mercado. Algo similar ao que fez com M.I.A no mesmo período. No mesmo ano, Justin Timberlake e David Bowie também fizeram lançamentos parecidos com exclusividade em plataformas online.

Em 2014, com medo de que seu carro-chefe vazasse, Taylor Swift gravou o videoclipe de “Shake It Off” abafando a música com heavy metal na parte externa dos sets.

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Madonna é uma artista que não pode se dar ao luxo de deslizar por sequer um momento. É exatamente em pequenos descuidos que “espertinhos” se veem no direito de pegar qualquer pedaço que seja de algum material inédito. “Rebel Heart” merece mais atenção, não basta confiscar o celular e tirar o cabo da internet.

Por isso, é necessário, tal como Beyoncé e JAY Z, inovar na estratégia. Das quase 40 músicas vazadas, todas estão as 25 faixas presentes na versão “Super Deluxe” estão no disco – contrariando o que a cantora havia anunciado.

Um mês antes do lançamento, o álbum, agora em qualidade de estúdio, vazou completamente e está disponível para streaming(não-oficial) na internet. Com todo o acontecido, Madonna infelizmente não aprendeu a proteger o material. E sequer adotou alguma estratégia para reverter (mais uma vez) a situação.

Talvez uma saída fosse mesmo o streaming, só que dessa vez de forma oficial. Ou adiantar, pelo menos, o lançamento digital – estratégia adotada por Björk, que viu seu disco chegar a internet três meses antes da data oficial.

Além de ajudar a diminuir a pirataria, o streaming também colabora para entregar o quanto antes o material para o público. Na sociedade de consumo que vivemos o imediatismo é fundamental. O sistema de distribuição de cópias físicas é arcaico, facilitando (e muito) os vazamentos. Utilizar a agilidade da internet a favor do artista não é questão de escolha, mas de obrigação.

A indústria fonográfica precisa urgentemente trabalhar nisso tudo – e bem, não será nada fácil.

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