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O que estamos vestindo?

O que estamos vestindo?

Por que ainda perguntamos o que as atrizes vestem ao invés de questioná-las sobre seus trabalhos?

Mônica Alves
Juca Bartolini

A temporada de premiações começou e é hora de atualizar a nossa lista de filmes pra ver, séries novas para acompanhar e descobrir qual ator vai ser o herói da estação. Aquele momento de consagração por um trabalho bem feito e encontros imprevisíveis de nossas estrelas favoritas. Aquela hora de saber, sabe-se lá por quê, qual a marca do vestido da Angelina Jolie e quantas horas a Emma Stone levou para se arrumar. Pois é.

Hollywood é um mundinho a parte que reflete muito da nossa sociedade como um todo, e por isso não poderia deixar de ter seu lado machista. Nossos valores, costumes e desejos são muitas vezes usados como plano de fundo em filmes de grande sucesso, permitindo que todos analisem como vivemos de certa forma. Nessa versão glamourizada da vida, os personagens já acordam lindos e perfumados, e se forem mulheres terão um corpo invejável em 90% das vezes. E na hora de voltar às suas realidades também glamourizadas, são essas as mulheres que vão lidar com um universo que não considera o trabalho feito por elas como uma coisa séria, a não ser que siga algumas regras.

Quer fazer sucesso? Transforme-se – e de preferência fique feia. Charlize Theron, Hilary Swank e Jennifer Aniston são apenas alguns exemplos de mulheres lindíssimas que mudaram drasticamente para interpretar papeis incríveis no cinema e só então conseguiram ser vistas como atrizes sérias. Ganhar peso, passar horas numa sala de maquiagem ou raspar a cabeça parecem ser fatores decisivos na hora de ser rotulada uma boa atriz, como se os poderes mágicos da interpretação morassem em um cabelo sedoso ou num abdômen definido.

Com o vazamento de documentos oficiais da Sony no final do ano passado, encontramos mais algumas provas da disparidade de gêneros que ronda a indústria. Amy Adams e Jennifer Lawrence, estrelas do filme “Trapaça”, receberam menos que Christian Bale e Bradley Cooper por seus papeis – problema já apontado anteriormente por veteranas como Cate Blanchett. Segundo a Forbes, Robert Downey Jr. encabeça a lista de atores mais bem pagos da atualidade com US$75 milhões, valor consideravelmente acima do recebido por Sandra Bullock, a atriz mais bem paga: US$51 milhões.

O ranking ainda aponta alguns dados interessantes, como o fato de que entre os dez intérpretes de maior rendimento no último ano, 8 são homens. Ao mesmo tempo, porém, a relação entre custo-benefício favorece as mulheres: dos cinco atores mais rentáveis, quatro são mulheres.

Na temporada de premiações vivenciamos essa diferença de tratamento de forma escancarada. Enquanto assistimos nossos atores preferidos serem questionados sobre a preparação para algum papel, atrizes são bombardeadas pelo clássico “who are you wearing?” (“Quem você está vestindo?”), independente de seus trabalhos ou quem sejam. A participação das famosas em red carpets e premiações em geral é resumida à qual grife se dispôs a vesti-la, qual o valor das suas joias ou como ela entrou em forma tão rápido após ter um bebê. É a objetificação feminina aplicada em seu público mais visado.

Feminismo em Hollywood
Vai ter empoderamento sim. Se reclamar, vai ter mais ainda!
Tina Fey e Amy Poehler no Globo de Ouro
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Piadas a respeito de Bill Cosby, cutucadas nas escolhas de protagonistas femininas e a menção de George Clooney como marido-trofeu.

Jennifer Lawrence e o melhor discurso
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“Como foi o processo de se arrumar?”

“Eu acordei, tomei banho e me troquei.”

Lena Dunham e as cenas de nudez em “Girls”
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“Eu não fiz nada corajoso, eu me sinto muito confortável nua”

Mindy Kailing e a dificuldade em considerar mulheres para papeis cômicos
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“Mulheres são engraçadas. Aceitem.”

“Scandal” e o verdadeiro poder feminino
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Se ainda não se rendeu à série, esse discurso de Lisa Kudrow vai te convencer.

Já tivemos um belo exemplo este ano de como esse ideal hollywoodiano de tratamento feminino é ridículo para quem o vê de fora. Amal Alamuddin, advogada inglesa que se casou com George Clooney, foi o assunto do último Globo de Ouro ao surgir de luvas brancas e ignorar toda e qualquer tentativa de atenção. Ao ser questionada sobre a procedência de seu vestido, limitou-se a apontar um pequeno broche com os dizeres “Je suis Charlie” que trazia consigo.

Entrevistada pelo E!, foi convidada pela apresentadora Giuliana Rancic a tomar um shot de tequila ao lado do marido, proposta ignorada apenas com um olhar. Amal chamou a atenção de todos justamente por não querer atenção – para a especialista em Direitos Humanos que trabalha para a ONU e é conselheira pessoal de Kofi Annan, aquele era mais um evento chato do trabalho do marido. Aplausos.

As estrelas tentam fugir desse estereótipo ao indagarem cada vez mais assuntos mais relevantes do que um simples “estou usando Dior”. Discursos feministas e apoio a causas humanitárias vem ganhando espaço enquanto a mani-cam começa a passar batida (sim, existe uma câmera só para mostrar as unhas das moças). Em apoio ao movimento, a campanha #AskHerMore, lançada pelo The Representation Project, chama a atenção ao assunto ao pedir que as atrizes sejam questionadas sobre seus trabalhos e consigam manter uma conversa mais profunda do que um simples discurso de moda ou como Scarlet Johansson conseguia usar calcinha com o figurino de “Os Vingadores”.

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Reflexo da nossa realidade, Hollywood é um campo minado para as mulheres. Os novos blockbusters se baseiam em heróis de ação ou grandes sagas históricas, deixando pouco espaço para grandes figuras femininas. Temos o Oscar mais elitista em anos, com nenhuma mulher indicada nas categorias de direção, fotografia e roteiro.

E, para completar, ainda encaramos a censura sexual em relação ao desejo feminino como algo normal – a série Girls, da HBO, foi recentemente alvo de críticas ao mostrar uma de suas protagonistas em uma cena de sexo oral com seu parceiro, como se fosse algo muito absurdo para uma mulher receber.

É um mundo de sonhos restritos, com um espaço ainda menor para as mulheres e que deve ser visto também como uma plataforma para discutir questões tão enraizadas na nossa sociedade. Fica aqui a nossa esperança para que no próximo red carpet possamos ver aquelas mulheres que alcançaram seu lugar ao sol receberem o mérito que merecem, independente de estar vestindo Versace ou não.

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