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O apego difícil de desapegar

O apego difícil de desapegar

Quanto do velho a gente leva para o novo e por que somos tão ligados ao que nos faz sofrer

Mônica Alves
Juca Bartolini

Todos temos momentos difíceis. Um baque, um tombo ou um simples tropeço são o suficiente para colocar toda nossa existência em perspectiva, como se a vida tivesse dado uma pausa. Sabe aquele sentimento de “como isso foi acontecer comigo?”. Então. Acontece com todo mundo – lembra que o R.E.M. disse que todo mundo se machuca às vezes?

Imagine que sua vida é um seriado. Imagine agora que é um seriado bom, com uma primeira temporada espetacular que rendeu várias indicações ao Emmy. O sucesso se firmou, vieram mais duas edições ótimas e o ritmo acelerado continua te trazendo altas emoções. Eis que chega o quarto ano e os roteiristas se perdem – mortes desnecessárias, personagens secundários fazendo besteira e um plot twist que ninguém consegue acompanhar. Você, o protagonista dessa série que é a sua vida, se encontra numa encruzilhada: Cancelo tudo? Mudo os roteiristas? Mato todo mundo?

Estar infeliz é muito diferente de ser infeliz

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Não dá pra voltar pro começo e reviver aqueles primeiros episódios em um looping eterno – se fosse assim, teríamos feito isso com “Dexter”. Não dá também pra continuar apostando num casal de protagonistas que não vai pra frente ou em um caso misterioso cheio de pistas furadas. Sabe, a vida não é “Lost” (ainda bem). Se fosse mesmo tudo parte de um grande seriado, seria nessa quarta temporada cheia de erros que a gente sentaria e pensaria em um caminho novo com personagens bonitos, um cenário todo reformulado e talvez até a mortezinha de algum vilão só pra animar.

A vida é feita de mudanças. Clichê barato de filme de superação ou só mais uma frase de livro de autoajuda, a verdade é que não nascemos imóveis, e estamos nesse mundo justamente para fazer alguma coisa, mas sabe-se lá o quê. Sair do lugar não é nada simples, mas aquele primeiro passo que deixa um monte de bagagem pra trás é justamente o mais difícil.

Eu já tive minha boa parcela de mudanças na vida: casas, escolas, cidades, amigos, namorados. Mesmo sabendo – e querendo – que muito ainda mude, sei que aquela velha história de que “somos o resultado das nossas ações” é a mais pura verdade. Se eu ainda morasse naquela casa ou se continuasse saindo com aquelas mesmas pessoas, com certeza hoje não estaria aqui escrevendo esse texto pra vocês.

Trilha sonora dessa série bagunçada que é a nossa vida
Porque com música, a vida pode ser muito mais divertida!
Abertura
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Eu teria vontade de viver em um mundo onde Liv Tyler e Alicia Silverstone são minhas melhores amigas e saem comigo por aí

Party time
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Porque na nossa vida de festas intermináveis não existe nada melhor do que acordar se sentindo como P. Diddy

Primeiro amor fail
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Super normal a protagonista virar a paixão platônica de um babacão. Mas ela não quer seu telefone e nem vai te passar o dela, desista.

Vilão
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Sempre vai ter alguém pra azedar a história. E ele vai ser um liar. And pathetic. And alone in life.

Romance
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Já tá na hora de dar uns beijinhos né? Ouvindo o John Mayer então...

Final
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Porque é sempre bom encerrar com um clássico.

Imagine então se tivesse continuado com aquele namorado chato, quanta coisa boa eu não teria perdido nesses anos todos? Somos feitos de fases e momentos, e de pouquinho em pouquinho, por mais complicado que seja, vamos chegando perto do que devemos ser.

O apego difícil de desapegar
Juca Bartolini

É muito difícil se adaptar ao novo e deixar certas situações pra trás. Acho que a verdade é que nós, seres humanos munidos de sentimentos e um coração que trabalha demais, somos muito apegados ao apego. O gostar demais nos tira do sério, nos transforma e nos faz agir de formas inimagináveis, mesmo que por motivos nobres, e não conseguimos sair disso. Seja em relação a um emprego dos sonhos ou a um grande amor, atraímos, de certa forma, essa necessidade de sofrer pelo que acabou, e é muito mais fácil se deixar levar por isso do que simplesmente seguir em frente.

Eu realmente acredito que todos temos nossos momentos de transformação, aquela hora em que paramos pra pensar e vem aquele grande “que porra é essa que eu tô fazendo?”. Assusta pra caramba, mas sabe... isso é bom. É bom porque só assim tiramos nosso lindo bumbum kardashiano da cadeira e resolvemos tomar alguma atitude.

A gente pode até chorar abraçado no travesseiro, ouvir muita Christina Aguilera na fase fossa ou até mesmo se entupir do mais delicioso brigadeiro que existe, desde que não seja nossa única forma de mostrar descontentamento.

Estar infeliz é muito diferente de ser infeliz, e é isso que a gente demora muito tempo pra perceber. Enquanto gastamos horas pensando naquele grande momento em que tudo vai magicamente se acertar, perdemos chances enormes de mudar grão por grão por nós mesmos.

Não vai cair no seu colo, sabe? Também não vai existir um aparelho que apaga sua memória e te deixa só com as lembranças boas – e mesmo se existisse, Joel e Clementine estão aí pra provar que não seria uma boa arriscar. Chega uma hora que aceitar realmente dói menos, e é só assim que conseguimos dar aquele bendito primeiro passo e lembrar que a música do R.E.M. também fala pra gente aguentar firme.

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