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O amor nos tempos de Chico

O amor nos tempos de Chico

Ainda que envolvido em controvérsias, o papa Francisco tem sido sinal de um avanço importante na questão da acolhida das pessoas LGBT na Igreja, através de uma série de posições e de gestos nunca antes vistos.

Murilo Araújo

A nuvem de fumaça branca que saiu da chaminé da Capela Sistina em março de 2013 talvez tenha sido uma das mais simbólicas na história recente da Igreja Católica. Não só pela comoção generalizada – e quase sempre exagerada – que costuma envolver a eleição de um novo papa, mas pelas figuras que estiveram envolvidas nesta eleição em particular: de um lado, saía Bento XVI, cuja renúncia denunciava a falência adiada e inevitável de um modelo de igreja moralista, legalista e hierárquico, que se arrastava mal desde João Paulo II; do outro, chegava Francisco, o primeiro papa latino-americano, identificado com a causa dos pobres, e com um pé na teologia da libertação – uma linha da teologia duramente criticada por segmentos mais conservadores da igreja. Tudo indicava uma iniciativa de transformação. E fumaça, mais que sinal da mudança de um papa, parecia ser sinal de mudança nos tempos.

De lá para cá, Francisco tem sido inegavelmente uma das figuras públicas mais relevantes da contemporaneidade. Em pouco tempo de pontificado, conseguiu negar a disparidade entre o Comunismo e o Cristianismo, contrariando conservadores; afirmou que teorias como o Big Bang e a Evolução não teriam conflito com a crença em Deus; e chegou até a soltar a pérola de que os cristãos não devem se “reproduzir feito coelhos”, quase deixando de lado a dificuldade da Igreja em lidar com a questão do planejamento familiar, com seus discursos contrários ao uso de contraceptivos. Mais ainda, tem sido um importante mediador de conflitos, favorecendo diálogos entre Israel e Palestina, pelo fim dos conflitos religiosos no Oriente Médio, e influenciando a histórica quebra do embargo econômico dos Estados Unidos a Cuba.

A posição da Igreja sequer deveria ser escutada quando se trata da vida pública

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Em relação à própria Igreja, Chico também tem sido sinal de um avanço importante na questão da acolhida das pessoas LGBT, através de uma série de posições e de gestos nunca antes vistos em relação a esta população, que está acostumada a só receber pauladas por parte da hierarquia. O primeiro gesto, recebido com receio por alguns e empolgação por outros, foi já clássica frase dita numa coletiva de imprensa que ocorreu ao fim da Jornada Mundial da Juventude, em 2013: “quem sou eu pra julgar?”, disse Francisco. Pouco tempo depois, o papa convocou uma reunião extraordinária entre os bispos, para discutir desafios contemporâneos ligados à questão da família, incluindo, pela primeira vez na história da Igreja, debates abertos em relação às famílias homoafetivas. Ao fim do encontro, sem muitos resultados a apresentar, ao menos reconheceu a dificuldade em debater o tema numa igreja bastante dividida em relação às questões morais. Porém, sem silenciar o problema (o que já é um grande avanço), garantiu a continuidade da discussão, a fim de encaminhar o desenvolvimento de direcionamentos pastorais que tornem o espaço religioso mais confortável e acolhedor.

A última novidade que tivemos em relação a estes avanços foi a notícia de que Francisco teria recebido em sua casa o espanhol Diego Neria Lejárraga, que é um homem trans. A visita teria sido motivada pelas constantes hostilizações que Diego vinha recebendo da sua comunidade religiosa, depois de fazer seu processo de redesignação sexual, tendo sido chamado por um padre de “filha do diabo”. Com a ajuda de um arcebispo, Diego fez chegar a Francisco uma carta, relatando sua história. E dias depois, recebeu um telefonema do papa, convidando-o para que fosse ao Vaticano acompanhado de sua namorada. Um gesto de escuta, também histórico numa Igreja que sequer encara a questão das identidades de gênero em sua teologia e em sua doutrina, tratando o tema ainda no silêncio e na invisibilização.

Muitos tendem a ter resistências em relação a esse tipo de postura, acusando o papa de só estar querendo fazer propaganda para atrair fieis, interessado numa espécie de dízimo cor-de-rosa. A crítica e o receio se reforçam quando vemos ainda uma série de atrasos em outras dimensões, mais ligadas, por exemplo, à questão legal e de direitos. Para mencionar uma destas controvérsias, Francisco autorizou recentemente que vinculassem sua imagem a uma campanha católica contra o casamento igualitário na Eslováquia, o que gerou uma série de decepções em relação aos seus posicionamentos anteriores.

É fundamental que o espaço religioso católico continue sendo ocupado por pessoas LGBT

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Em primeiro lugar, é importante esclarecer que há muito tempo a Igreja Católica Romana já não sobrevive de dízimos, considerando as tantas riquezas acumuladas que ela tem. Se a questão fosse apenas essa, penso que as estratégias do papa seriam significativamente diferentes: acredito que o seu discurso e as suas posturas seriam muito mais parecidas com o projeto conservador e fundamentalista das igrejas evangélicas, por exemplo, que têm sido tão bem sucedidas no Brasil, na América Latina, na África e nos Estados Unidos, inclusive à custa de boa parte do domínio católico em alguns países. Assim sendo, mais do que pensar nos LGBT que Francisco supostamente estaria tentando atrair, eu penso na realidade daqueles que já estão na Igreja, que se reconhecem como pessoas de fé e que não abrem mão da sua pertença religiosa, mas que poucas vezes encontram espaço para viverem as suas experiências de modo legítimo e livre de perseguições. Em relação a elas, acho que os avanços são fundamentais.

Em relação às questões legais, porém, a crítica é válida, considerando que atualmente, não se pode contar com nenhum apoio da hierarquia da Igreja para avanços neste sentido. A questão é que, pra mim, nós não deveríamos mesmo esperar pelos apoios, assim como não deveríamos esperar pelas discordâncias, simplesmente porque a posição da Igreja sequer deveria ser escutada quando se trata da vida pública e dos direitos humanos, porque o debate, aqui, esbarra na necessidade de que as políticas sejam laicas.

Além disso, é necessário pensar que o papa, antes de ser líder da Igreja, é um “filho” dela, e lhe deve “obediência”. Nessa organização bizarramente engessada, ainda que Francisco quisesse, não teria espaço para mudanças muito enérgicas em seus discursos ou em suas posturas em relação às questões legais como o casamento ou a adoção. Se ele insistisse nas revoluções e nas polêmicas ligeiras demais, geraria mais estragos que avanços, dando margem para a resistência conservadora de alguns grupos na cúpula da Igreja.

“Quem sou eu pra julgar os gays”, disse Francisco

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Neste contexto, sei que posso estar sendo ingênuo, mas vejo ainda vejo Francisco como um aliado, porque ainda que ele dê peso vez ou outra à doutrina engessada – como filho da Igreja que é –, consegue abrir espaço para posturas e gestos que flexibilizam essa doutrina na vida prática dos fiéis. Ao defender uma Igreja menos legalista, ele não trata especificamente das pessoas LGBT, mas ajuda a construir, no fundo, uma Igreja que se vê obrigada a deixar de lado o que ele mesmo chamou de “obsessão” por temas como a homossexualidade, a contracepção ou o aborto. O resultado direto disso é criar um ambiente confortável, onde as pessoas LGBT que assim desejarem poderão viver sua fé de modo legítimo, sem armários ou perseguições.

Essa mudança, gradual e às vezes silenciosa, é fundamental e indispensável: a história da Igreja está aí para mostrar que as transformações que nela ocorrem não começam na hierarquia nem na vontade dos papas, mas nas bases, na sociedade. Assim sendo, é fundamental que o espaço religioso católico continue sendo ocupado por pessoas LGBT, que possam mostrar o rosto e falar por si, fazendo com que suas histórias e afetos possam efervescer uma reflexão teológica nova, e conquistar, aos poucos, uma instituição homofóbica a menos numa sociedade já tão cheia de ódio.

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Edição #21
O amor nos tempos de Chico
Editorial

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Murilo Araújo

Ainda que envolvido em controvérsias, o papa Francisco tem sido sinal de um avanço importante na questão da acolhida das pessoas LGBT na Igreja, através de uma série de posições e de gestos nunca antes vistos.

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