Vestiário

O melhor site de cultura pop e lifestyle gay do Brasil.

Meghan Trainor chegou e veio pra ficar

Ela trouxe o bumbum e o doo-wop de volta e, com eles, composições que tratam de autoaceitação e rompimento com os padrões estéticos impostos pela indústria do entretenimento.

Guilherme Popolin
Duds Saldanha
Meghan Trainor chegou e veio pra ficar
Duds Saldanha

Em menos de um ano, Meghan Trainor transformou-se de compositora desconhecida em indicada ao Grammy. Seu primeiro single “All About That Bass” chegou tímido na internet e ao mercado, no final do primeiro semestre do ano passado. Com o lançamento do videoclipe, a canção virou fenômeno, projetou a cantora como uma das principais revelações de 2014 e ficou oito semanas em primeiro lugar na Billboard 100.

O sucesso fez com que Meghan produzisse um EP, o “Title”, com apenas quatro músicas, numa espécie de “esquenta” para o seu álbum de estreia, que também recebeu o mesmo nome, lançado no mês passado. Com uma sonoridade diferente de tudo que comanda os charts atualmente, a miss booty back encontrou o cenário certo para conquistar o seu espaço na indústria. Pelo menos até agora.

No ano considerado o “ano do bumbum”, Meghan cantou em “All About That Bass”: “I’m bringing booty back/Go ahead and tell them skinny bitches”. A expressão “vadias magras” causou polêmica entre aqueles que interpretaram o trecho como um insulto às mulheres magras. A discussão sobre não ser possível valorizar um biotipo sem desvalorizar o outro veio à tona.

A imagem de Meghan como símbolo de exaltação ao corpo como ele é foi questionada, e a música, proclamada como hino de autoaceitação, foi considerada contraditória pelos mais críticos, já que ao mesmo tempo em que ela aceita o próprio corpo, ela diz que continua atraente para os homens, ou seja, se inclui em um padrão.

As polêmicas, as músicas e a estratégia de marketing fizeram a cantora ganhar o estrelato mundial. Segundo os otimistas, Meghan Trainor não é mais uma one hit wonder. Já aqueles mais pessimistas, preferem acreditar que a moça será sempre lembrada como mais uma de muitas cantoras que fizeram uma música de sucesso e sumiram da noite para o dia.

Este vídeo está no YouTube e pode deixar de ser exibido a qualquer momento

O segundo e atual single “Lips Are Movin’” pegou carona no sucesso de “All About That Bass”, indicada ao 57º Grammy como canção e gravação do ano, fazendo com que o álbum “Title” tivesse duas músicas ao mesmo tempo no Top 10 da Billboard 100, antes mesmo de ser lançado oficialmente.

Para espantar de vez o fantasma de one hit wonder, a produção se empenhou para que “Lips Are Movin’” cumprisse o seu papel. O clipe da canção quebrou os recordes da própria Meghan e obteve a singela marca de 794 mil visualizações nas primeiras 24 horas de lançamento. A gravadora anunciou o clipe como sendo o primeiro da história a ser produzido inteiramente por formadores de opinião da internet. Coreografia, atuação, figurino, cabelo e maquiagem, tudo foi produzido por alguma celebridade do Vine, YouTube ou Instagram.

A blogueira brasileira Camila Coutinho, do Garotas Estúpidas, participou do styling e, ao lado de outros influenciadores, fez com que as redes sociais de Meghan Trainor dessem um salto. O Twitter teve um aumento de 11% em seus seguidores, enquanto o Facebook da moça viu o número de fãs crescer em 15,8%. No Instagram, o aumento foi de 41,3% de pessoas a seguindo e no Vine, duas vezes mais.

Tudo isso foi resultado do investimento da HP, que utilizou o clipe como parte de uma campanha de 20 milhões de dólares para divulgar o novo Pavilion PC. A parceria deu tão certo que, em 2015, a marca deve continuar como a grande patrocinadora corporativa da cantora.

Lutar contra o machismo e a imposição de padrões estéticos também é coisa para as divas do pop

A letra de “All About That Bass” e o sucesso alcançado pela música provocaram discussões sobre o feminismo, a indústria cultural e a imposição de padrões estéticos. A própria Meghan Trainor já declarou que não se considera feminista, porém, as faixas do álbum “Title” evocam a imagem de uma mulher fruto das conquistas do feminismo ao longo da história.

As letras ajudam a reforçar o empoderamento feminino, ao mostrar uma mulher mais forte, não-submissa e, principalmente, que aceita o seu corpo como ele é. A indústria do entretenimento e a da moda ainda ditam padrões estéticos fora da realidade, e movimentam o mercado impulsionando os consumidores a comprarem produtos e até um estilo de vida. Para a maioria das mulheres, se sentir representada pela grande mídia ainda parece algo distante.

A relações públicas Ana Bertoluci, 22 anos, conta que ainda é muito difícil passar um dia sem ver algo que passe a mensagem ‘’você não está no padrão’’. Ela utiliza como exemplo as mulheres acima do peso retratadas em telenovelas, geralmente por personagens caricatas e ridicularizadas.

“Por mais que eu, e creio não ser a única, tente me desligar disso, aceitar meu próprio corpo e ser imune a essa imposição midiática, é impossível não se sentir mal. A mulher é ensinada que seu corpo é a primeira – e talvez a única – característica que é relevante para que ela seja notada”, diz.

Ana destaca a importância de cantoras como Christina Aguilera, Beyoncé, Nicki Minaj, Adele e Demi Lovato fortalecerem uma ruptura na indústria musical contra o machismo e a imposição por padrões estéticos. “Não podemos ignorar posicionamentos como o da Demi Lovato que, em uma fase ‘acima do peso’, afirmou em um show que apesar de querer ser como uma Barbie quando era criança, hoje ela aceita seu corpo e é feliz dessa forma”, relembra.

O posicionamento público de famosas fortalece a libertação feminina dos padrões impostos. “Meghan Trainor está no caminho para se livrar da imposição machista sobre seu corpo”, diz Ana. Entretanto, ela faz uma ressalva sobre a letra de “All About That Bass”.

“A cantora peca ao relacionar sua satisfação com seu corpo porque ‘os homens gostam de ter o que pegar’. A autoaceitação da mulher precisa ser desvinculada da opinião masculina, ou ela não será real. Eu admiro Meghan Trainor pelo posicionamento, e torço para que ela, assim como eu e todas as outras mulheres, continue se fortalecendo e resistindo aos padrões de beleza e comportamento que nos são impostos”, finaliza.

Predominantemente pop, “Title” tem um clima de nostalgia, mas sem parecer retrógado. Tal como fez Bruno Mars em seus dois discos, Meghan abusa do doo-wop, ritmo que marcou as décadas de 50 e 60, misturando-o ao soul com uma pitada de hip-hop. As quinze faixas da edição deluxe do disco trazem letras que demonstram uma mulher determinada e com atitude. Letras mais libertárias, cantadas por mulheres confiantes, estão em alta. A tendência domina os charts e com canções de novatas como Charli XCX e Cher Lloyd.

Em “Dear Future Husband”, a cantora dita as regras que o seu futuro marido precisa seguir para que o relacionamento dê certo, enquanto traz um hino de autoaceitação em “Close Your Eyes” quando canta que o que importa é você saber que é bonito e mostrar sua beleza interior. A canção “Like I'm Gonna Lose You”, onde ela divide os vocais com o grande John Legend, traz um pouco de drama ao material, mas mostra que a cantora continua no comando da relação, ao cantar sobre como vai agir para curtir os momentos com quem ama.

Enquanto o doo-wop dos anos dourados era acompanhado de letras melodramáticas, vide os sucessos de Lesley Gore, cantora que fez sucesso na década de 1960 e dona do hit “It’s My Party”, o doo-wop de Meghan Trainor traz letras que projetam a mulher do século XXI, aquela que desempenha novos papeis sociais e é dona da própria opinião, e flertam com o feminismo.

Na metade do álbum, uma canção surpreende e se sobressai. “Bang Dem Sticks” se utiliza de elementos do hip-hop e mostra que Meghan pode cantar músicas de diferentes estilos. Se for utilizada como música de trabalho, é a chance da cantora mostrar o quanto é versátil e preparar o público para um futuro trabalho, já que um próximo álbum com a vibe retrô pode não vingar. O som que hoje atrai os fãs, pode se tornar maçante e ser sufocado pelas novas tendências que aparecem a todo momento.

Este vídeo está no YouTube e pode deixar de ser exibido a qualquer momento

Meghan Trainor é a cantora da Epic Records a passar mais tempo em primeiro lugar na Hot 100, algo que não se via há décadas. A última vez em que a gravadora emplacou um artista no topo da principal parada norte-americana foi quando Michael Jackson, há mais de vinte anos, chegou à posição mais privilegiada dos charts com “Billie Jean” (1983) e “Black or White” (1991), ficando em primeiro lugar por sete semanas.

Com o sucesso do disco, que já estreou em #1, com quase 200 mil cópias vendidas, a gravadora segue acreditando no potencial da cantora, que agora cai na estrada com a “That Bass Tour”, com mais de vinte datas marcadas, entre fevereiro e abril, nos Estados Unidos, Canadá e Austrália.

Entre um show e outro, Meghan será mentora na oitava edição do “The Voice” americano. Ao lado de Blake Shelton, ela vai ajudar os candidatos durante a fase das batalhas. É sua oportunidade de mostrar que merece o espaço e a atenção que vem recebendo, já que sua caminhada pela estrada da música é longa e começou cedo.

Este vídeo está no YouTube e pode deixar de ser exibido a qualquer momento

Compositora desde os 12 anos de idade e com dois álbuns não oficiais no currículo, Meghan, que agora tem 21 anos, também é coautora de “Sledgehammer“, do grupo Fifth Harmony, e está presente na edição deluxe do álbum de estreia da girlband na faixa "Brave, Honest, Beautiful".

Se depender da Epic Records, dos fãs e dos patrocinadores, Meghan Trainor vai longe, mas só o público poderá dizer se ela terá um futuro bem-sucedido na indústria ou não. Dizem que se um artista conseguir emplacar um segundo álbum, após um primeiro álbum de sucesso, o êxito da carreira está garantido por muito tempo. É esperar para ver.

Comentários
Edição #21
O amor nos tempos de Chico
Editorial

O amor nos tempos de Chico

Murilo Araújo

Ainda que envolvido em controvérsias, o papa Francisco tem sido sinal de um avanço importante na questão da acolhida das pessoas LGBT na Igreja, através de uma série de posições e de gestos nunca antes vistos.

Leia a Matéria
Newsletter

Assine e receba por email as nossas principais atualizações, além de conteúdo exclusivo!