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Até aqui, tudo bem…

Vocês conhecem aquela piada do cara que se atira do topo de um prédio de 50 andares e se arrepende imediatamente?

Ana Paula Penkala
Renan Riso

Esta é a história de uma sociedade em queda. E enquanto cai, fica repetindo para si mesma: até aqui tudo bem, até aqui tudo bem, até aqui tudo bem. O que importa não é a queda, é a aterrissagem. É mais ou menos assim que termina O ódio (La Haine), filme francês escrito e dirigido por Mathieu Kassovitz. O filme, que ganhou melhor direção em Cannes em 1995 e o César de melhor filme em 96, é uma radiografia da tensão entre polícia/governo e os milhares de imigrantes e filhos de imigrantes africanos e árabes marginalizados em Paris.

Na história, vemos um dia na vida de três amigos da periferia de Paris: o africano Hubert, o árabe Saïd e o judeu Vinz. Este último é o que mais quer vingança nesse dia depois de um enfrentamento com a polícia que mandou um de seus amigos para o hospital em estado grave. Vinz anuncia o tempo todo: se o amigo morrer, ele vai matar um policial para equilibrar a balança. O filme ficcionaliza eventos reais e corriqueiros para os imigrantes na França. Dez anos depois, vemos histórias parecidas nos noticiários.

Ignorância é o que alimenta o ódio

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Paris está em chamas por conta de uma política xenofóbica que coloca esses imigrantes – preponderantemente africanos e árabes – como párias, os relegando aos cinturões de pobreza e violência das periferias, tal qual nas grandes capitais brasileiras e suas favelas (recomendo lerem Loïc Wacquant). Conforme partidos de direita vão ocupando o parlamento de vários países europeus (em especial, a França) e sendo favoritos para a presidência, a sombra do recrudescimento das políticas contra imigrantes vai fechando o cerco especialmente sobre os cinco milhões de muçulmanos (árabes e africanos) que vivem no país. A onda de islamofobia nunca foi tão grande na Europa e vem na esteira da força que partidos de extrema-direita e movimentos fascistas vem ganhando por lá.

Michael Haneke, em 2005, não escolhe Paris à toa para sua metáfora máxima sobre o fascismo latente da burguesia europeia (tema que lhe é muito caro) quando faz Caché. Leia ou veja os noticiários sobre eventos desse tipo na Europa atual, de 10 ou até 20 anos atrás: as últimas frases de O ódio não poderiam ser melhores legendas. “Até aqui, tudo bem.” Não só por recurso estilístico recorrente nos filmes de Haneke, em Caché vemos ou ouvimos sempre a TV falando de conflitos ao redor do mundo, quase todos trágicos, em geral atravessados pelo componente étnico. Esse componente étnico tem sido a tônica das guerras pós-modernas e revelam o espírito do tempo dessa era de mal-estar civilizatório. E o que seria, afinal, esse mal-estar da civilização?

Sigmund Freud já tratou disso no início do século XX, e o sociólogo Zygmunt Bauman vai retomar essa perspectiva ao falar da “pós-modernidade”. Ler o texto de Bauman (combine com a obra de Homi Bhabha e de Stuart Hall, para um melhor entendimento), ver esses filmes e acompanhar os noticiários cotidianos da “civilizada” Europa são uma ótima base para quem quer compreender de forma mais humana o que aconteceu em janeiro de 2015 no centro da civilização moderna envolvendo terroristas do Estado Islâmico e cartunistas e jornalistas da revista Charlie Hebdo.

Até aqui, tudo bem…
Renan Riso

Você talvez tenha dito no Facebook um je suis Charlie, je ne suis pas Charlie, je suis Amarildo, je ne suis pas alguma coisa... E não duvido que tenha até voltado atrás, lendo um ou outro texto. Vamos refletir juntos aqui: você está perdido, não está? (Volte cinco casas e leia tudo o que puder sobre esses autores que eu indiquei aí em cima, a história recente da Europa e veja os filmes de Kassovitz e Haneke.) Você está perdido porque não há jeito de defender terroristas islâmicos. Extremistas fundamentalistas do Islã são indefensáveis, e você não tem nem dúvida disso.

Como mulher, feminista, militante dos direitos humanos, eu jamais seria capaz de menos que abominar a leitura radical dos textos do islamismo. Mas muita gente está confusa e me parece razoável que esteja. A maioria do que a maioria de nós ocidentais sabe sobre o Islã, os muçulmanos, as relações entre Ocidente e Oriente e dos conflitos do e no Oriente Médio ou a guerra Palestina vs. Israel nos foi ensinada de forma tendenciosa, tosca, equivocada e/ou simplista. E é por isso que precisamos refletir. Nem todo árabe é muçulmano. Nem todo muçulmano é fundamentalista, e nem todo fundamentalista é extremista. Ignorância é o que alimenta o ódio. E “equilibrar a balança” é impossível.

O Estado Islâmico é uma facção terrorista que não representa a imensa maioria dos muçulmanos e é chamada extremista, além de fundamentalista, porque além de interpretar de forma estrita o Alcorão, acha que deve obrigar os outros a viver sob seus preceitos, leis e modos de vida. Todas as religiões produzem fundamentalistas (em outras épocas, os cristãos protagonizaram as Cruzadas) e, potencialmente, extremistas. Nem todos os extremistas, é verdade, invadem lugares para matar pessoas. Alguns extremistas se candidatam a deputados e, numa leitura estreita, literal e radical “das escrituras”, quando eleitos começam a tentar criar ou aplicar leis que obriguem os não crentes a seguir seus mesmos códigos morais e de conduta. E não estou falando apenas da “bancada evangélica”.

Não é porque é “liberdade” que tudo pode ser lindo e deve ser irrestrito

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Nossas leis e nossa política, que discrimina mulheres e gays, que não pune severamente o racismo, que coloca a desigualdade sob panos quentes foi baseada fortemente em preceitos morais católicos (vide a lei atrasada a respeito do casamento gay e do aborto). Não foram erigidas por “evangélicos da Igreja Universal”, muito menos por muçulmanos. “Valores católicos” foram decisivos no crescimento brutal da AIDS na África empobrecida, por genocídios, por assimilação cultural de etnias consideradas primitivas e etc.

A política entra nisso de forma direta. E não é possível compreender geopolítica sem compreender cultura e história. Só assim não caímos no simplismo de polarizar terroristas e seus AK-47 e o Charlie Hebdo e “apenas tinta, papel e humor”. Será que os valores ocidentais (dentre eles “a democracia” e “a liberdade de expressão”) são os melhores? Será democracia o que se faz no Ocidente? Será decente e humano o que se chama de liberdade de expressão? Será mesmo que os valores de civilidade que pregamos no mundo eurocentrista não são bárbaros como os que rejeitamos por serem “fundamentalistas extremistas”?

O presidente francês, François Hollande, declarou que aqueles que em outros países se manifestam contra Charlie Hebdo não entendem o apego à liberdade de expressão por parte da França. Para ele e sua declaração acovardada, duas perguntas: 1) qual o limite da liberdade de expressão? e 2) os franceses não são capazes de entender o respeito que os muçulmanos tem por Maomé? A ironia, já que Charlie Hebdo é uma revista de esquerda, é que a maior beneficiada com a resposta anti-Islã, irrefletida e acrítica, em muitos casos, foi a extrema-direita europeia. Ela e o próprio fascismo vem ganhando a simpatia de uma parcela cada vez maior da Europa e especialmente da França depois da crise econômica deflagrada por lá a partir de 2008.

Será decente e humano o que se chama de liberdade de expressão?

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A burguesia do Velho Mundo, acuada (do mesmo jeito que os bons e velhos capitalistas do american way), é o solo perfeito para o cultivo de um ódio aos periféricos. Nunca se teve tantos motivos para se odiar imigrantes, especialmente se eles forem árabes e africanos (muitos dos quais, muçulmanos). Quem sai ganhando, inclusive com apoio logístico, financeiro e de empoderamento simbólico, é Israel em sua ofensiva covarde contra a Palestina. Não apenas uma ofensiva criminosa (e baseada em leituras tortas das escrituras – as sagradas e as mundanas), mas desigual.

Vem aí, nas eleições de 2017, na França, um partido fortalecido, quase com um pé na presidência (já ocupa cadeiras importantes do Parlamento). Seus valores? Rigidez contra os imigrantes, luta anti-aborto (o aborto é um direito, na França, há 40 anos, assim como nos EUA), retorno à pena de morte, redução radical (para 13 anos) da maioridade penal e combate ao casamento gay algum paralelo com nosso país, será?

Se tem uma coisa que mostra que nosso país está definitivamente globalizado é que quando Europa e EUA fazem bobagem, o Brasil está na mesma linha de raciocínio, quase ao mesmo tempo. Nos EUA, até o direito ao aborto tem sido alvo dos fundamentalistas políticos. Quer mais ironia (macabra)? Os partidos de extrema-direita e outros fascistas que se beneficiaram da comoção mundial pelas mortes dos cartunistas eram alvos frequentes das duras críticas nas páginas do Charlie Hebdo. A França reclamando dos fundamentalistas islâmicos e esquecendo de notar que a história da ascensão de Hitler na Alemanha se deu num terreno bem parecido com o que está se preparando agora.

Até aqui, tudo bem…
Renan Riso

No Brasil, o parlamento eleito não era tão conservador desde a Ditadura. Sem tempo para desenvolver uma democracia madura, hoje o país é assolado por uma representativa bancada fundamentalista, que destroça cada dia mais a já cambaleante laicidade do estado. Na França, o fundamentalismo “religioso” é a própria laicidade, enfaticamente islamofóbica. No meio disso, por aqui (e por lá, pelo jeito), a liberdade de expressão é uma eterna incompreendida. Não é porque é “liberdade” que tudo pode ser lindo e deve ser irrestrito. Quer uma boa metáfora?

Coloca o maníaco do parque em liberdade e experimenta o que isso pode significar. Na esteira da liberdade de expressão, há bem pouco tempo a Grécia - cuja crise foi às alturas - nos horrorizou com o partido neonazista ocupando o parlamento. Aqui no Brasil, Jair Bolsonaro só não se diz nazista porque ainda existe um prurido anti Hitler que nos assusta. Mas na prática (e na teoria), o parlamentar chega a ser pior e mais delirante que Hitler.

Se o horror ocidental aos ataques terroristas do Estado Islâmico fosse um rechaço ao fundamentalismo extremista, quando o Boko Haram atacou a Nigéria e deixou centenas de mortos o Ocidente teria saído às ruas crivado de cartazes em respeito às vítimas.

Por qual motivo a dor de uns e a violência contra uns incomoda mais que aquela dirigida a outros? Uma das respostas está no argumento central aqui: é uma guerra simbólica e o que incomoda os ocidentais no Islã é sua intransigência em não aceitar a imposição dos valores ocidentais sobre seus modos de vida e crenças. Incomoda o burguês ocidental médio que o ataque ao Charlie Hebdo tenha sido uma ofensiva contra os valores iluministas revolucionários franceses que nos tocam a todos como um modelo de pensar, viver e julgar. Relativiza-se a dor do outro, assim.

Somos fundamentalistas extremistas de uma cultura opressora

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Não por acaso o 11 de setembro foi uma ode à queda de um dos símbolos máximos do capitalismo norte-americano. O “homem universal” que inspira a "Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão", documento que nasce no final do século XVIII, no início da Revolução Francesa, e acaba “sacramentando” a maioria dos valores ocidentais modernos, é o mesmo “homem” (guardadas as devidas proporções) onde Bolsonaro e seus seguidores se miram quando declaram "direitos humanos para humanos direitos": ocidental, branco, homem, heterossexual, cristão e capitalista.

Guardadas as devidas proporções porque sim, ainda é um documento válido. Mas, como o Alcorão, lido e interpretado de forma tosca, torta, ignorante e muito conveniente pelo ocidental médio. Somos fundamentalistas extremistas de uma cultura opressora, colonizadora, conquistadora, genocida e gradualmente fascista, como o Georges de Caché.

Je ne suis pas Charlie, je ne suis pas Georges, je ne suis pas la haine. Je suis outré. E até aqui, nada está bem.

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