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As séries de tv são o escudo ou a criptonita dos super-heróis?

Em 2013, os heróis da nova era dos grandes estúdios chegaram à televisão e, no ano passado, colheram os bons frutos dessa descoberta. Onde essas produções estão em seus respectivos universos em um 2015 que marca o começo de grandes estreias?

Duds Saldanha
Duds Saldanha

Algumas discussões no mundo são universais e sempre existirão: capitalismo x comunismo, Backstreet Boys x ‘N Sync ou biscoito x bolacha, mas nenhuma será tão polêmica quanto filmes x quadrinhos.

As séries de tv são o escudo ou a criptonita dos super-heróis?
Duds Saldanha

Personagens como Peter Parker, Bruce Wayne e até Charles Xavier não vêm sozinhos, eles encaixam-se em universos, previamente concebidos e significantemente maiores do que a profundidade da personagem – sua personalidade, onde estuda, o que faz –, ainda que ela seja a razão da existência daquele universo ou mesmo uma peça importante de uma história maior. A existência de universos que conversam tão perfeitamente é o que torna a adaptação dos quadrinhos, normalmente divididos em arcos de diversos tamanhos, como os diversos contos do mesmo personagem, tão difícil.

Filmes para esses super-heróis normalmente são o caminho mais fácil, e normalmente são pensados para “solucionar problemas” relativos à resposta rápida de lucro, como quando ao apresentarmos um arco relativamente pequeno que introduz um personagem e seu arqui-inimigo, gerando empatia instantânea com o público, que conhece o herói, identifica-se com ele e, finalmente, está mais suscetível ao interesse em outras mídias, tanto as de divulgação como mochilas, brinquedos e livros ilustrados como até mesmo o próprio quadrinho.

Quando o propósito é realmente dedicar-se a contar histórias sobre esse personagem, a solução encontrada, ainda na indústria cinematográfica, foi a franquia, onde mais do herói poderia ser apresentado. Nela, sua jornada é contada em partes e mais completa e abertamente. Mas ainda não era suficiente.

O caminho para a televisão era algo natural, mas não foi gradativo. As duas maiores produtoras, Marvel Entertainment (comprada pela Disney) e DC Comics (subsidiária da Warner Bros.), abordaram o assunto de maneiras diferentes, cada uma com suas particularidades e pontos fortes e fracos. Enquanto a primeira apoiou-se em personagens e arcos que existiam em seus filmes, a segunda foi mais longe e apresentou universos inteiros diretamente na televisão, sem qualquer introdução cinematográfica (não que precisasse).

Marvel

O Universo Marvel mais amarrado que a teia do Peter Parker, no cinema e na televisão.

O trabalho da Marvel com relação ao que chamamos de UMC, Universo Marvel Cinematográfico (ou Terra 199999) começou em 2008, um ano após o fechamento da “primeira era Marvel”, com “Homem-Aranha 3”.

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Duds SaldanhaDesde de 2008 e com um calendário que vai até 2019 (e que ainda tem Guardiões da Galáxia e Homem Formiga no meio), a Marvel estende uma teia entre cinema e televisão mais forte que a do Peter Parker.

Foi aí que, cinco anos depois, a Marvel surpreendeu quando chamou Joss Whedon para desenvolver “Agents of S.H.I.E.L.D.” para a televisão. Em setembro do mesmo ano, vimos o primeiro episódio daquilo que seria o começo de algo maravilhoso para o UMC, iniciado no cinema.

Passando depois d’Os Vingadores, a série apresentou a S.H.I.E.L.D. com mais profundidade, bem como os personagens de Nick Fury e Phil Coulson, que havia sido presumido morto depois dos acontecimentos do filme. A mágica da série está em sua conexão direta com o universo do cinema, já que não se passa apenas depois de “Os Vingadores” como também retoma “Thor: O Mundo Sombrio” no meio da primeira temporada de onde o filme parou, e “Capitão América: O Soldado Invernal”, que a fecha.

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Ainda nesse universo, a Marvel lançou, no começo desse ano, a série “Agent Carter”, que traz Hayley Atwell reprisando seu personagem em “Capitão América” como Peggy Carter. Apesar de se passar em 1940, Agent Carter também está inserida no MCU, e tem a intenção de guiar a história para o momento em que ela se torna uma agente da S.H.I.E.L.D. É um passo importantíssimo para o estúdio, que tem em Peggy, uma mulher decidida, forte, corajosa e empoderada, sua primeira protagonista feminina, mostrando que todos os personagens são importantes, e que cada um trabalha para a melhor construção da narrativa.

Com essas duas séries em andamento, e outras que ainda não saíram do papel – como “A.K.A. Jessica Jones”, mostrando que a Marvel está disposta a investir em suas protagonistas femininas, e “Demolidor”, ambas para o Netflix –, a Marvel dá um presente para os fãs de seus heróis. Os recentes acontecimentos que colocaram Peter Parker de volta em suas mãos, fazendo com que o personagem possa ser usado em um futuro filme d’Os Vingadores, legitimando a parceria que já acontece nos quadrinhos, também é visto com bastante excitação.

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O universo compartilhado é bem amarrado e funciona quando o público-alvo consome tanto os filmes quanto as séries produzidas, fazendo com que seja importante para quem assiste à série, saber o que acontece nos filmes. Entretanto, isso pode ser considerado apenas meio-pronto fraco, já que que a recíproca não é verdadeira. Ou seja, aqueles que assistem aos filmes conseguem ligar os pontos sem as séries, que funcionam como expansões quase não-obrigatórias.

DC

Reboot no cinema e foco em grandes histórias na televisão – separadamente.

Ameaçada pela ascensão da Marvel em seu universo particular, a DC decepciona em partes como a construção de universo.

A apresentação da história de seus personagens da forma mais satisfatória possível, sem a preocupação específica com um universo unificado, trouxe bons resultados para o cinema quando falamos da trilogia que Christopher Nolan construiu para Batman com “Batman Begins”, “Cavaleiro das Trevas” – que trouxe o primeiro Oscar não-técnico para um filme de super-herói: o póstumo de Heath Ledger como Coringa – e “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” e resultados incrivelmente ruins quando falamos de filmes como “Demolidor” (o ponto mais baixo na carreira do agora premiado Ben Affleck), seu spin-off falido “Elektra” e “Lanterna Verde”.

As séries de tv são o escudo ou a criptonita dos super-heróis?
Duds SaldanhaMesmo após uma trilogia do Batman bem sucedida, o reboot que começou em 2013 tem Henry Cavill, Ben Affleck, e história levando até a Liga da Justiça, uma tentativa de construir um universo que (infelizmente) ainda não inclui a televisão.

Na tevê, no entanto, a DC enche os olhos dos fãs e, até agora, todas as adaptações feitas tiveram resultados muito satisfatórios, tanto em história, quanto em recepção de público.

O primeiro herói a ganhar adaptação para a televisão foi o Arqueiro Verde, Oliver Queen, interpretado por Stephen Amell. Já em sua terceira temporada, “Arrow” tem mais a comemorar do que a repensar, já que seus fãs têm muito mais a aplaudir do que a criticar. O formato de série fez com que a história fosse amplamente melhor explorada e os personagens, os mais fiéis possíveis – com ressalvas, claro.

Em 2014, no entanto, o universo de Arrow deu um salto significativo quando apresentou, em um episódio duplo de ”Arrow”, Barry Allen, cujo final mostrou o acontecimento de Central City que originaria a descarga elétrica que o atingiu e o transformou em Flash. A recepção positiva do personagem interpretado por Grant Gustin originou “The Flash”, uma série própria, que colhe os bons frutos de “Arrow” e conta com um universo unificado entre as duas séries, que acontece de forma fluida e muito bem feita.

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O alcance da DC na televisão é maior que o da Marvel, e “Gotham” é mais uma boa surpresa. A série, inicialmente pensada para seguir os primeiros casos de James Gordon acabou evoluindo para algo maior, que inclui o pequeno Bruce Wayne e a construção de personagens como Mulher-Gato, Pinguim, Charada, Coringa e todos os personagens que nós gostamos bastante.

Embora não seja obrigação estabelecer uma linha de continuidade ou um universo compartilhado em todos os filmes, o estúdio ainda peca na hora de decidir coisas simples como quem será o ator que dará vida a Barry Allen no cinema. O escolhido? Ezra Miller. E fica a pergunta: por que não aproveitar o bom desempenho que Grant tem tido, já que ambos - filme e série - pertencerão à mesma “era” de reconstrução dos personagens?

É importante ressaltar que ainda que os dois estúdios possuam suas particularidades, tanto em relação a visão que ambos têm de “universo”, quanto em relação ao número de reboots e quando ele é necessário, Marvel e DC trabalham para o mesmo fim: fazer com que os fãs desfrutem de seus heróis favoritos nas diversas mídias que eles merecem, aproveitando as facilidades tecnológicas que o audiovisual proporciona a esse tipo de superprodução, seja no cinema ou na televisão.

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Parece que 2013 foi o ano que os grandes estúdios descobriram a televisão e as portas que ela poderia abrir para suas histórias, cujos bons frutos foram colhidos no ano passado – o que se tende a crescer ainda mais neste 2015, com produções que aumentam os universos de cada um dos estúdios, e que, no caso de “Agent Carter” e Jessica Jones não apelam para o blockbuster e se mantém com personagens femininas marcantes e bem colocadas, ou “Gotham”, com seu formato atemporal e atípico para esse tipo de personagem.

O mercado está cada vez mais de portas abertas para os heróis e os fãs cada vez mais receptivos a esse tipo de formato que definitivamente valoriza a história de uma forma que um filme talvez não pudesse. Nem em uma trilogia.

Saberá a Marvel, em um 2015 de grandes estreias, segurar o nível de suas séries para a televisão? E a DC vai continuar o bom trabalho que tem com “Arrow” e “The Flash” e apontar caminhos brilhantes para seu universo novamente reiniciado?

Ficaremos de olho!

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