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Apropriação cultural, Iggy Azalea, eu e você

Apropriação cultural, Iggy Azalea, eu e você

O hip-hop veio dos guetos nova-iorquinos e ganhou o mundo. Hoje, a música cantada pelos negros é popularizada por intérpretes brancos que ignoram o contexto social em que o gênero nasceu.

Artur de Francischi
Renan Riso

Quando o hip-hop surgiu, ainda na década de 70, o gênero musical era o meio em que os negros e latinos pobres de Nova York conseguiam transformar as opressões vivenciadas em rimas. O hip-hop era a forma encontrada por esses grupos minoritários americanos de denunciarem o racismo e a desigualdade entre as classes sociais, além de evidenciar a pobreza e a violência de seu cotidiano. Ou seja, o estilo era a forma de manifestação cultural de quem era esquecido pela sociedade.

Mais de 40 anos depois, o hip-hop saiu dos guetos nova-iorquinos e ganhou o mundo. O gênero permanece vivo e reinventou-se ao longo dos anos, sendo representado por grandes nomes, como Public Enemy, LL Cool J, Cypess Hill, e outros mais conhecidos, como JAY Z, Nicki Minaj, Kanye West, Eminem e Kendrick Lamar. No Brasil, Emicida, Criolo, Flora Matos e Karol Conka são alguns dos expoentes do estilo.

Com a massificação do hip-hop, uma leva de intérpretes brancos surgiu, fazendo com que a música perdesse sua conotação política para tornar-se um produto para consumo, ao mesmo tempo que se distanciou da cultura do povo que a criou. É a apropriação cultural.

Iggy Azalea é só mais um modo da indústria cultural de legitimar a hegemonia branca

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“É um problema, porque esvazia de sentido uma cultura com o propósito de mercantilização ao mesmo tempo em que exclui e invisibiliza quem produz”, explica a pesquisadora e mestranda em filosofia pela Unifesp, e militante do movimento feminista negro, Djamila Ribeiro. “Essa apropriação cultural cínica não se transforma em respeito e em direitos na prática do dia-a-dia”, continua.

O assunto voltou à mídia após a rixa entre as rappers Iggy Azalea, australiana e branca, e Azealia Banks, americana e negra, quando a segunda acusou a primeira de apropriar-se da cultura negra para fazer dinheiro. O desafeto entre as duas começou em 2012, quando Iggy foi capa da revista XXL, especializada em hip-hop, naquele ano. “Iggy Azalea na lista da XXL de novatos é muito errado. Como você endossa uma mulher branca que se considera uma “escrava fugitiva-master?”, comentou Banks no Twitter.

A referência utilizada por ela vem da letra da música “D.R.U.G.S.”, lançada por Iggy Azalea naquele mesmo ano. A australiana se desculpou publicamente após diversas pessoas terem se sentido ofendidas. “Com toda justiça, foi algo brega e negligente de se dizer, e se você se ofendeu, me desculpe”, escreveu ela em uma carta aberta. Contudo, esse foi só o início de várias trocas de farpas entre as duas rappers na rede social.

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Contra a australiana pesa o fato de ressignificação de uma cultura, cujo contexto histórico lhe é desconhecido. “O rap está ligado à história de raça e classe, da denúncia das mazelas sofridas pela população negra”, explica Djamila Ribeiro. “Iggy empobrece o hip-hop porque não faz parte desse contexto, sendo só mais um modo da indústria cultural de legitimar a hegemonia branca”, completa.

A afirmação de Ribeiro comprova uma série de tuítes de Azealia Banks direcionados a Iggy Azalea, que não se manifestou após decisão da justiça de Nova York de não indiciar o policial branco que matou Eric Garner, homem negro desarmado, suspeito de vender cigarros ilegalmente. “É engraçado ver pessoas como a Iglu Azalea quietas quando essas coisas acontecem. A cultura negra é legal, mas os nossos problemas não são, né? Se você quer entrar nessa, você tem que ir ATÉ O FIM”, disse.

Indo além, a americana concedeu uma entrevista à rádio Hot 97, em dezembro do ano passado, onde falou mais uma vez sobre apropriação cultural, e dessa vez trouxe Macklemore para a discussão. “Sinto que, nesse país, quando se trata de nossas coisas, como problemas dos negros, ou políticas para negros ou música negra, ou algo do tipo, sempre há uma corrente do tipo, ‘Dane-se. Sempre há um ‘danem-se todos vocês’; ‘Vocês não possuem nada’; ‘Vocês não têm nada’”, diz.

“Aquele álbum do Macklemore não era melhor do que o do Drake. Iggy Azalea não é melhor do que qualquer rapper negra de hoje. [...] E quando eles entregam esses Grammys, é como se dissessem às crianças brancas: ‘Vocês são ótimas, são incríveis. Vocês podem fazer o que quiserem’. Enquanto dizem às crianças negras, ‘Vocês não têm nada’. ‘Não possuem nada, nem mesmo o que vocês mesmas criaram’”, explicou Azealia que, em determinado momento, foi às lágrimas.

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Seria uma boa oportunidade para Iggy entender que a questão não é pessoal, mas racial. No entanto, a cantora foi ao Twitter para, mais uma vez, criticar Banks. Contudo, em meio às suas críticas, é possível ver que a mensagem ainda não foi captada. “Mensagem especial para Banks: Há várias artistas negras se dando bem em vários estilos diferentes. A razão pela qual você ainda não conseguiu é por conta da sua atitude baixa. Por sua incapacidade de ser responsável por seus próprios fracassos, por fazer bullying com os outros, sua incapacidade de ser humilde ou autocontrole. É VOCÊ!”, diz.

“Você criou sua própria infelicidade ao ser intolerante e não ter a capacidade mental de reconhecer isso. Provavelmente nunca irá. Agora, discurse! Torne isso político e racial! Torne isso o que quiser, mas te garanto que isso não fará as pessoas gostarem mais de você e é por isso que você chora no rádio”.

Macklemore, citado por Banks durante a entrevista, também foi convidado pela Hot 97 para participar do programa e foi perguntado sobre o que pensava em relação ao assunto. “Você precisa saber seu lugar nessa cultura. Você está contribuindo ou roubando-a? Está usando-a para tirar vantagem ou contribuindo? Não dá para desprezar a origem desta cultura e o nosso lugar como pessoas brancas. Pra começar, essa não é minha cultura... Eu realmente acredito que preciso conhecer meu lugar”, começa.

“Se vamos mesmo progredir, temos que superar esse “estágio esquisito” de conversar sobre raça e conversar sobre isso. E como pessoa branca, temos que ouvir. Racismo é desconfortável de conversar. Para nós, brancos, é só desligar a TV quando nos cansamos de falar sobre raça”, finalizou o rapper, que participou de um protesto em Seattle, em apoio à manifestação que ocorreu em Ferguson após a morte de um jovem negro por um policial branco.

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Para falar de apropriação cultural é preciso compreender e discutir o racismo. “Quando falamos de apropriação cultural, não podemos deixar de notar o caráter silenciador que ela tem. Quando a cultura negra é apropriada, ela passa por um processo de embranquecimento para ser aceita”, defende Stephanie Ribeiro, estudante de arquitetura na PUC-Campinas, colaboradora do ‘Blogueiras Negras’ e também militante do movimento feminista negro.

“O rock, quando negro, é ruim por isso precisaram de um “Rei branco”; se é para mostrar uma mulher numa capa de revista com um turbante e estampas que remetem a África, que seja uma mulher branca. A cultura pode até ser a negra, mas o protagonista não”, explica ela se referindo a Elvis Presley, que recebe a alcunha de Rei do Rock até hoje.

O rapper Q-Tip foi mais um a entrar na discussão, mas ao invés de criticar Iggy Azalea, preferiu dar uma aula de história negra a ela, a fim de que a australiana pudesse entender as críticas que recebe e, talvez assim, engajar-se na luta de quem construiu a cultura que ela agora canta.

“Como eu disse antes, o hip-hop é divertido, é infame, é dançante, é tradicional, é alegre, mas uma coisa que ele nunca pode se separar é do movimento sociopolítico”, diz. “Você pode se perguntar o porquê... Bem, uma vez que você nasce negro, sua existência, eu acredito, é ligada com o epitáfio sociopolítico e baseada na emaranhada e traiçoeira história de escravidão. Este é o caso. Isso nunca sai das nossas conversas. Nunca”.

Apropriação cultural no universo pop
Não faltam exemplos de artistas que se apropriaram de outras culturas como forma de entretenimento
Miley Cyrus
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Miley Cyrus é uma das muitas acusadas de apropriar-se da cultura negra.

No clipe de "We Can’t Stop", bem como sua apresentação da música no VMA 2013, mulheres negras ficam ao fundo, como se fossem apenas acessórios, enquanto ela realize o twerk.

O twerk, que virou marca registrada da cantora, foi introduzido ao hip-hop na década de 90, em Nova Orleans. Além disso, a ex-Hannah Montana disse que queria alcançar um ‘som negro’ em seu album “Bangerz”.

Com diversas referências ao uso de drogas no disco, é possível questionar a forma como Miley enxerga os negros.

Eminem
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Eminem, assim como Iggy Azalea e Macklemore é rapper e um dos mais respeitados do mundo. O cantor já chegou a zombar sobre seu papel no hip-hop na música "Without Me".

Em um dos trechos, a letra diz: “Eu sou a pior coisa desde Elvis Presley/Pra fazer música de negros de uma maneira tão egoísta/E usar isso pra ficar mais rico”.

Gwen Stefani
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Em 2004, Gwen Stefani estourava no mundo com seu primeiro álbum solo, “Love. Angel. Music. Baby.”, e com o single “Rich Girl”.

No entanto, à época, a cantora era acompanhada por quatro moças Harajuku, que só podiam falar em japonês em público, e eram como fantoches em suas apresentações. Harajuku é uma área japonesa, onde jovens vestem-se de cosplays de animes famosos.

Acusada de apropriar-se da cultura oriental apenas para ganho pessoal, Gwen respondeu que não se arrepende do que fez.

Avril Lavigne
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Avril Lavigne foi mais uma a estar envolvida em apropriação cultural.

No clipe da música “Hello Kitty”, presente em seu último álbum autointitulado, a canadense aparece cercada por japoneses que mais parecem robôs e não fazem nada além de acompanhá-la em seu passeio por Tóquio.

A cantora negou que houvesse racismo em seu vídeo, afirmando em seu Twitter que ama a cultura japonesa e passa metade de seu tempo no Japão.

Katy Perry
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Vestida como uma gueixa, Katy Perry subiu ao palco do American Music Awards, em 2013, para divulgar “Unconditionally”.

No entanto, a california gurl foi acusada de estereotipar e sexualizar uma imagem que não tem nada a ver com a cultura asiática.

Lana Del Rey
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A rainha do indie não escapou das críticas após usar um cocar de uma tribo indígena americana no clipe da música “Ride”.

A atitude foi criticada, uma vez que o acessório virou apenas figurino, quando possui importância religiosa na tribo em que está inserido.

É pertinente falar sobre apropriação cultural, pois a questão envolve um apagamento de quem sempre foi inferiorizado e vê sua cultura ganhando proporções maiores, mas com outro protagonista. “Imagine ter uma cultura, que é tratada como ‘ruim’ e ‘marginal’ por anos e anos; que continua viva, graças à resistência de alguns e do nada ela se torna ‘moda’? E com isso não vem junto o respeito, com negros e nem mesmo com nossa cultura”, diz Stephanie Ribeiro.

“Quando apontamos todo o racismo, por trás dessas atitudes, [pessoas brancas] se chocam e se manifestam contra nós. É como se o desrespeito fosse uma bola de neve que só aumenta”, finaliza. Uma frase do poeta americano B. Easy, compartilhada no Twitter, e relembrada pela pesquisadora Djamila Ribeiro faz todo o sentido nessa discussão, “A cultura negra é popular, mas as pessoas negras não”.

Esse discurso de que a cultura é humana só é válida quando querem apropriá-la

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A discussão sobre apropriação cultural também pode ser trazida para o nosso contexto brasileiro. Enquanto o intercâmbio cultural seria algo positivo, no nosso país, assim como nos Estados Unidos, a cultura negra ainda não possui o mesmo espaço.

“Uma coisa é a troca, o intercâmbio de culturas, o que é muito positivo. Outra coisa é a apropriação. No nosso país, as culturas foram hierarquizadas, sendo a negra colocada como inferior, exótica. Dentro desse contexto é possível falar em troca? A troca só é possível quando não existem hierarquias”, explica Djamila.

“Enquanto terreiros são invadidos, há marcas que acham cult colocar modelos brancas representando Iemanjá. Esse discurso de que a cultura é humana só é válida quando querem apropriá-la. No momento de considerar a humanidade daqueles que produzem essa cultura, a história é bem diferente”, finaliza a mestranda em filosofia.

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Este ponto também é reforçado por Stephanie Ribeiro, que vê no uso dos turbantes por mulheres brancas, por exemplo, uma forma de apagamento da cultura negra. “Quando nós saímos de turbantes nas ruas, nos perguntam se somos “macumbeiras”. Primeiro: é umbanda ou candomblé; segundo: se a sociedade não compreendeu que aquilo para mim é empoderamento e não um acessório, é porque o mercado se apropriou do meu símbolo, o vendeu e só”, diz ela.

“Só quem é negra pode entender isso, a mutilação das nossas autoestimas, e o empoderamento que o um turbante representa, além de ser uma ligação com as nossas matrizes africanas. Por mais que uma mulher branca respeite nossa cultura, ela não entende e não sente o que nós sentimos”, completa.

Estaria Iggy Azalea errada, então, ao cantar rap, e Azealia Banks certa por condená-la ao fazê-lo? Honestamente, é difícil chegar a uma conclusão. Mas todos hão de convir que Iggy Azalea, Macklemore ou Eminem, por melhores que sejam no que fazem, roubam o protagonismo de quem faz o hip-hop: a população negra. É como se, ao ser cantado por um branco, o hip-hop fosse dissociado dos problemas que os negros sofreram – e ainda sofrem – e, portanto, seria audível.

Numa sociedade machista e racista, Azealia Banks precisa gritar para ser ouvida

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Quando Azealia Banks reclama publicamente da atenção que Iggy recebe da mídia, é sempre num tom raivoso, o que leva muita gente a não levá-la a sério. Porém, penso que, por ser mulher e negra, numa sociedade estruturalmente machista e racista, é necessário gritar para ter sua voz ouvida.

Iggy, Macklemore e Eminem devem ser impedidos de cantar rap? Talvez não. Mas já que estão nesse meio, é necessário que se engajem, que usem sua música e o espaço midiático que possuem para promover a luta contra o racismo (o que vejo Macklemore fazendo melhor do que os outros dois). E não calem àqueles que nasceram neste movimento.

O hip-hop nasceu como uma forma de protesto ao sistema. E não para manter a hierarquização do branco sobre o negro.

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