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É hora de conversar sobre o The Voice Brasil

Ao contrário da versão norte-americana, o nosso “The Voice” se limita a ser uma vitrine para que seus técnicos não caiam no ostracismo.

Yhury Nukui
É hora de conversar sobre o The Voice Brasil
DivulgaçãoOs técnicos Daniel, Carlinhos Brown, Claudia Leitte e Lulu Santos com o apresentador Tiago Leifert

Mais uma final do “The Voice Brasil” chega, e com ela a depressão. Com apenas uma pequena adaptação na famosa canção de Kelly Key, “Anjo”, este foi o sentimento quando os créditos começaram a subir, logo após os vencedores da terceira temporada serem anunciados por Tiago Leifert.

O prêmio – um contrato com a Universal Music Brasil, gerenciamento de carreira, além de R$508 mil reais em dinheiro – foi dado aos sertanejos Danilo Reis e Rafael. Coincidência ou não, o vencedor da última temporada da versão americana também foi um cantor country.

E, por falar na terra do Tio Sam, a televisão brasileira, principalmente a aberta, ainda tem muito o que aprender com a produção dos realities norte-americanos. Embora o “The Voice” seja um formato holandês foi, graças aos Estados Unidos, que ele ganhou o mundo.

Este terceiro ano de exibição no Brasil só veio para afirmar tudo que é visto desde 2012: o programa é um erro desde a sua concepção. A produção é pavorosa, só não consegue ser pior que os da Rede Record, e não há o mínimo de interesse em fazer com que o telespectador crie algum vínculo com a atração. E para um reality show, isso é critério básico. Você deve querer assistir ao programa porque tem um cara que você realmente curtiu e quer ver chegar à final.

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Houve um aumento de 17% no faturamento do “The Voice” nesta temporada. Foram 84,3 milhões de reais. Acha pouco? Isso é o que o SBT fatura mensalmente com toda a sua programação. Dinheiro pra investir não faltou.

Na verdade, o grande problema do reality atende pelo nome de J.B. de Oliveira, ou Boninho se assim preferir. O filho do magnata Boni de Oliveira é um faz-tudo na Globo. E acaba não fazendo nada, já que todos os produtos que passam por sua assinatura perdem completamente a identidade e caem no marasmo de sempre. Me impressiona que ele não tenha colocado Ana Furtado para fazer algo na atração.

Embora soe forçada, copie os trejeitos de técnicos de outras versões do reality, Claudia Leitte foi, junto com Carlinhos Brown, os únicos que se preocuparam de certa forma com seus pupilos este ano. Tirando uma ou outra, as apresentações musicais da moça tiveram uma leve melhora em relação aos dois anos anteriores, o que não se pode dizer de Lulu Santos que, ontem, apresentou uma canção de nome “SDV (Segue de Volta?)”. Sim, ele cantou sobre retweets, trocar likes e toda essa vergonha alheia.

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Daniel, embora esteja mais solto, continua tendo menos utilidade que uma planta. Em um dado episódio, o cantor sertanejo eliminou a talentosa Carla Casarim, que havia interpretado uma belíssima canção de Elis Regina, optando pela genérica dupla Vitor & Vanuti. Vaiado pelo público e acuado, Daniel saiu da situação dizendo: “Por que será que o pessoal de casa não se decidiu por ela? É engraçado isso”, referindo-se ao fato de Kim Lírio, seu representante na final, ter sido salvo e não Casarim.

A fala do cantor seria cômica, já que ele tem trinta anos de carreira e milhões de discos vendidos, se ele não estivesse ganhando (e muito!) para servir de técnico. Quem deve fazer uma escolha coerente é ele. Colocar a culpa no público, que neste caso soube escolher melhor que o sertanejo, só mostra que ele nunca esteve preparado para o cargo que ocupa.

Como, em uma final, a emissora convida os dois primeiros vencedores do programa sem permitir que eles apresentassem músicas próprias? Ellen Oléria e Sam Alves limitaram-se a cantar, respectivamente, “Zumbi” e “Troublemaker”, músicas que entoaram no programa na época que participaram. Enquanto a primeira conseguiu lançar um material de qualidade, embora quase sem nenhuma divulgação em larga escala, Sam entregou um disco que não causou barulho algum no mercado.

Pouco se viu de novidade no último episódio da atração já que elementos de apresentações passadas foram reaproveitados, os mesmos convidados cantaram novamente e os ex-participantes, sequer, foram chamados para uma apresentação em grupo.

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Uma das apresentações desta final representa bem o que é o “The Voice” no Brasil. Di Ferrero, que também atuou como conselheiro nesta temporada, subiu ao palco com Danilo Reis e Rafael apresentando “Como Uma Onda”, clássico de Lulu Santos. Num determinado ponto, o técnico se levantou da cadeira, repetia “acho que eu vou lá, hein?” e entrou, como quem não queria nada, no meio da música. Programado ou não, foi completamente indelicado da parte dele.

O que os técnicos precisam aprender é que eles não estão ali para se mostrar mais que os participantes – embora saibamos bem que participar de um programa de repercussão como este seja muito melhor para eles.

Enquanto no “The Voice” norte-americano há uma séria preocupação em lançar os seus pupilos no mercado – desde 2013, Ryan Tedder é o produtor e compositor oficial do programa – a versão brasileira se limita a ser apenas uma vitrine para que seus mentores não caiam no ostracismo. Por que, exceto Claudia Leitte, qual dos outros três mentores não vivem de seus hits do passado?

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Para quem nunca assistiu alguma versão fora daqui, talvez acredite que este só foi um ano “mediano”. Mas está longe disso. Estamos tão “acostumados” a aceitar toda e qualquer produção da emissora, já que nenhuma outra consegue algo à altura por falta de orçamento, que a maioria não se preocupa com critérios básicos.

Aliás, a maioria dos grandes sucessos da Globo são formatos comprados do exterior: “Big Brother”, “The Voice”, “Superstar”, “Dança dos Famosos”, “Lar Doce Lar” e até o extinto “FAMA”. Este último revelou nomes com Roberta Sá, Thiaguinho, cotado para substituir uma das cadeiras da próxima temporada do “The Voice”, Marina Elali e Mariana Rios, mas não conseguiu emplacar nenhum deles na época.

Realities musicais não funcionam no Brasil porque não há um grande investimento depois que eles se encerram, como acontece com o “The X Factor”, responsável pelo One Direction, Leona Lewis, Olly Murs e Little Mix. Mas isso não quer dizer que eles não abram portas.

A maioria dos artistas revelados por esse tipo de programa acaba encontrando chances para o sucesso depois de muito tempo trabalhando. Um caso recente? Chay Suede, que vem colhendo bons frutos depois de ter trocado a Record, onde foi descoberto pelo “Ídolos” e depois integrado o elenco de “Rebeldes”, pela Globo.

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A admiração pelo trabalho dos brasileiros é enxergada lá fora, com recentes produções como “Caminho das Índias”, “O Astro”, “Lado a Lado” e “Joia Rara” premiadas no Emmy Awards e a enorme repercussão de “Avenida Brasil” mundo afora, mas quando se trata de programas de entretenimento, nós comemos – e muita – poeira.

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