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Sobre sextas-feiras 13, anos que não acabaram, margarinas e piscinas

Você ainda quer saber de mim? E de Costa e Silva, e do AI-5, baby?

Ana Paula Penkala
Renan Riso

No colégio eu sabia sobre mitologia grega, o que era o movimento hippie, a Guerra do Vietnã e o verão de 67. No colégio tinha aula de Organização Social e Política do Brasil e de Educação Moral e Cívica. E a gente cantava o hino toda hora, coisa que eu achava muito bacana porque o hino é bonito à beça. E eu sabia sobre Cabral e sobre o cenozóico e os platelmintos e Lascaux. E sabia também da piscina que a gente não tinha, da margarina e da gasolina que era cara e meus pais tiveram que ter um carro a álcool porque era difícil pra caramba sobreviver no Brasil.

Sobre sextas-feiras 13, anos que não acabaram, margarinas e piscinas
Renan Riso

Não tinha Google. E se tivesse, eu ia saber bem mais da margarina e da piscina e da gasolina, e ia copiar a letra do hino e de Carolina. Eu sabia que existia ordem e existia progresso. Meus professores de História nunca nos falaram (honestamente) de Costa e Silva, do AI-5, dos 100 mil marchando no Rio de Janeiro. Mas não tinha Google e eu achava que o que eu obtinha nos livros, disponíveis nos anos 80, era suficiente para entender o que tinha acontecido com a juventude dos meus pais.

Eu nasci no ano em que o AI-5 foi derrubado, 1978. Fui alfabetizada e entrei no balé, junto com algumas Carolinas, no ano em que a Ditadura Militar acabou. Comia pão com margarina e meus pais tinham uma Brasília amarela. Mas vamos não falar sobre isso, porque já passou. Então ninguém nunca mais falou sobre a Ditadura. E meu avô vivia calado e recriminando meu tio, de esquerda, por querer fazer a revolução.

Muitos anos mais tarde, fui entender que meu avô não era um imigrante reacionário, mas uma célula revolucionária de além-mar que tinha medo de duas Ditaduras sob as quais cresceu e criou seus três filhos. Ele pichava muros em Portugal. Aqui, vendia comida e via futebol. E criticava meu tio por ajudar a fundar um partido de esquerda na cidade quando ainda vivíamos sob “o regime”. Quando dei por mim, encarnei na ideia de que era preciso falar sobre Ditadura. E ninguém nunca me explicava nada. Não tinha Google. E se tivesse, ia ter bastante margarina, Carolina, gasolina e um monte de gente na piscina, mas não ia ter Edson Luís. E quando eu soube quem tinha sido Edson Luís e a Marcha dos 100 Mil contra a ditadura em 1968, eu resolvi que ia falar sobre isso o tempo todo.

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A juventude brasileira (e não só ela) foi às ruas em 2013 no que ficou conhecido como Jornadas de Junho, e bradava que “não era só pelos 20 centavos”. Um protesto que começou por causa de um aumento na passagem de ônibus transformou a história do país para sempre. Uma busca no Google era capaz de indexar muitos vídeos sobre todo e qualquer assunto relacionado, enquanto no Facebook o discurso sobre as manifestações fervilhava em múltiplos focos de protesto. Muitos anos depois da abertura política, vivíamos o terceiro mandato de esquerda na Presidência da República, os pulmões gritando a pleno na internet, todo mundo falando sobre tudo e todo um universo de respostas ao alcance de um clique... E aí começaram a gritar “Intervenção Militar Já!”.

Foi quando eu confirmei mesmo que nossa geração falou tanto do que precisava, falou tando da margarina e da piscina, cresceu nutrida à propaganda, mas ninguém nunca tinha falado de verdade sobre a Ditadura. Nas Jornadas de Junho, vimos tiro, porrada e bomba e helicópteros e a PM correndo atrás dos estudantes, dos trabalhadores, dos mascarados, e esse horror quase abafou por uns meses o grito imberbe de uma geração imaculada e pré-púbere de pedidos sem argumento de Impeachment da presidenta Dilma e de retorno dos militares. Foi a primeira vez em muito tempo que eu tive medo, e junto com o cheiro de gás lacrimogênio, senti o perfume do fascismo alienado dos que não discutiram sobre o que tinha nos acontecido nos Anos de Chumbo. A segunda vez em que tive medo foi quando eu escutei, da jovem fazendo campanha contra o PT de Dilma, dizendo que o governo lhe tirava a liberdade de expressão.

Na noite de 13 de dezembro de 1968, tudo o que os “generais” brasileiros usaram para dormir foram algumas gotas de Ato Institucional número 5. Diz o famoso título do livro do jornalista brasileiro Zuenir Ventura que aquele ano não terminou. Já a história oficial conta que o AI-5 caiu em 13 de outubro de 1978. Por um lado, acho que 1968 nunca terminou mesmo, e que ainda vivemos na era dos alienadores militares – não por acaso ainda temos uma polícia militarizada amplamente utilizada na repressão e na manutenção da moral e dos bons costumes, matando e torturando quase como se no Regime estivéssemos. Por outro lado, acho que naquela sexta-feira 13 de dezembro de 1968 o AI-5 acabou com o Brasil e enterrou em si mesma a história da Ditadura.

Com um Ato Institucional que deu início ao período mais perverso, duro e assustador do Regime Militar no país, cessavam-se todos os direitos que ainda cabiam aos cidadãos brasileiros desde o Golpe, em 1964. O AI-5 suspendeu direitos políticos e se sobrepôs à Constituição Federal de 1967 e às Estaduais e, um ano depois, fechou o Congresso Nacional, garantindo assim plenos e extraordinários poderes ao Presidente da República.

Em plena Ditadura, em junho de 1968, milhares foram às ruas em protesto pelo seu fim

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Também estavam proibidas quaisquer atividades ou manifestações de natureza política. Algumas medidas poderiam ser aplicadas pelo Ministério da Justiça sem apreciação do Judiciário, e estavam relacionadas, igualmente, à perda de liberdades e outras restrições ou proibições, de direitos públicos ou privados, que o Executivo achasse por bem estabelecer. Por isso os anos 70 foram os anos da censura, da perseguição, da perda em cascata de direitos (inclusive humanos) e da total e irrestrita falta de qualquer liberdade de expressão, sob pena de prisão, tortura e morte. Dos que “não morreram”, estima-se que centenas estejam desaparecidos.

Mas mesmo o AI-5 foi-nos ensinado como uma sigla alegórica. Em plena Ditadura, em junho de 1968, milhares foram às ruas, no Rio de Janeiro, organizados pelo movimento estudantil, em protesto pelo seu fim. A Passeata dos 100 mil foi uma resposta às arbitrariedades da polícia repressiva do Regime, que culminaram em uma invasão, no final de março daquele ano, ao restaurante universitário Calabouço. A invasão policial pretendia reprimir as manifestações estudantis contra o aumento do preço das refeições. Do incidente, restou morto com um tiro à queima-roupa no peito Edson Luís de Lima Souto, estudante de 18 anos.

Sobre sextas-feiras 13, anos que não acabaram, margarinas e piscinas
Renan Riso

O que se seguiu foram protestos, marchas e manifestações, as quais foram reprimidas ainda e cada vez mais severamente. O Brasil inteiro fervilhava em protestos quando, em dezembro, aquele Ato Institucional fatídico inaugurava com vinho tinto de sangue os Anos de Chumbo do Regime Militar brasileiro. O “Milagre Econômico” e o crescimento da publicidade e do estímulo ao consumo encobriram uma era de corrupção, pobreza e, acima de tudo, horror, perseguição, tortura, repressão e morte. Mas ninguém falava (não podia) nem nunca mais falou direito sobre isso. A margarina e a piscina e a gasolina dos carros que simbolizavam nosso progresso eram tudo a respeito do que você precisava saber, baby. E continuaram sendo, mesmo depois da Ditadura.

Mais de um ano passado das Jornadas de Junho de 2013, teve início o processo eleitoral que dividiu o Brasil entre uma esquerda – ela mesma dividida, confusa, aturdida e atordoada – e uma direita autoritária, péssima perdedora, antidemocrática e pueril. Não falo da direita como a das pessoas pró-candidato de oposição, representante de um partido de direita. Falo da figura política, que sempre existiu e esteve à espreita, de uma direita decrépita formada por senhores e senhoras da elite conservadora nostálgica do Regime, fundamentalistas religiosos e militaristas, lunáticos ex-”revolucionários” que só querem holofote e principalmente uma massa de jovens adultos imaturos que nunca estudaram sobre a história brasileira.

Desses últimos, uma facção formada por sobreviventes dos últimos anos da Ditadura alegórica e abstrata (meus colegas de geração) e outra facção, bem mais gritona, imponderada e impertinente, formada pelos jovens empoderados por litros de Toddy, quilos de comida altamente processada, açúcares e margarina e horas a fio nas hoje banais e cotidianas redes sociais.

Ouvi pedidos de retorno da Ditadura, de intervenção militar, gritos nostálgicos pelos “anos em que tudo era melhor” e “não existia corrupção”. Que juventude é essa?!, me perguntei, horrorizada. Para depois constatar, não sem o mesmo horror, que essa era a juventude conceitual e ilustrativa do descaso que se teve ao enterrar a história da Ditadura. O cinema argentino e uruguaio falam de suas ditaduras à exaustão, enquanto no Brasil se fala bem mais da gasolina, da Carolina e de todas as outras moças pop romantizadas, e do nosso sonho de uma vida com piscina de comercial de margarina. Mas não se entende nada do que acontece, nem o motivo pelo qual a gasolina sobe, a não ser quando “é culpa do PT”.

Entre as “caras pintadas” de hoje estão aquela moça da falta de liberdade de expressão, representante icônica maior dessa juventude em seus vídeos reproduzidos nas redes sociais de um país de liberdades quase irrestritas, pelas quais lutou aquela que hoje é reeleita presidenta. Essa moça protagoniza discursos onde reclama da falta de liberdade de expressão através de uma rede acessível de informações ou numa manifestação sem repressão pelo impeachment da presidenta (por mais incongruente que tudo isso possa parecer).

“Eu tenho 18 anos e não tenho liberdade de expressão porque o PT tira todos os direitos!”, grita essa moça levando no peito um adesivo do candidato de oposição. “Quem criou a pobreza, […] a miséria e […] a guerra de classes foi o próprio PT”, finaliza ela, deixando claro que não só não sabe o que significa perda de liberdades como é daquelas pessoas que acreditam que assassinatos e assaltos só existem porque o jornal os está noticiando.

Baby, você precisa sair da piscina, parar de assistir tanta propaganda de margarina, conhecer outras meninas, conversar sobre a história do seu país. E, baby, se você ainda sabe de mim, e sabe da Carolina, e tem Google para todo o resto, apesar de nos livros ter muita informação também, é porque você não tem ideia do que é acordar no sábado, 14 de dezembro, e não poder nem falar por força da lei.

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Edição #20
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