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Por onde andou o cinema cativante em 2014?

Por onde andou o cinema cativante em 2014?

Um ano insosso para o cinema blockbuster norte-americano fez com que, mesmo sem faturamento significativo, o cinema brasileiro se destacasse criativamente.

Renato Cabral

Falecida em 2004, Susan Sontag foi uma multifacetada personalidade americana e escritora, ativista, cineasta, teórica. Ela costumava dizer que o cinema era algo excepcional, devido a sua capacidade de sequestrar o público para uma história, e torná-lo parte daquela narrativa e sensibilizá-lo de alguma forma. 2014, dez anos após a morte de Sontag, parece que falta algo neste cinema que a tanto cativava. Se antes existiam realizadores grandiosos que faziam a arte cinematografia evoluir e ainda ser contestatória, tanto politicamente como artisticamente, agora parece que tudo anda insosso.

Sontag certamente não falava apenas daquele chamado cinema alternativo de produções lentas e que alguns poucos entendem. Grande defensora da cultura pop, a escritora estaria chocada com o rumo que as coisas tomaram. Mas sem querer colocar palavras na boca de Susan, o objetivo aqui é entender um pouco melhor o que foi o cinema neste ano, um retrospecto focado no que estreou e, principalmente, o que não estreou nos cinemas brasileiros.

Em um ano problemático para a distribuição e a exibição cinematográfica no país, devido à implementação de um novo sistema de cópias dos filmes, que fará com que de agora em diante o parque exibidor brasileiro seja inteiramente digitalizado e também, teoricamente, facilitador ao acesso de filmes que não chegariam a algumas cidades, assistimos um 2014 de transição.

Com algumas obras nem chegando a outras capitais além de Rio de Janeiro e São Paulo, produções perderam espaço. Mas além desse momento turbulento, foi chocante chegar a conclusão que lançamentos como “Rio 2”, “Jogos Vorazes: A Esperança – Parte I” e “O Hobbit”, tomaram metade dos cinemas nacionais. É um número grande e que não deve ser visto de forma positiva. Para isso, o governo já prepara leis dentro do audiovisual para que seja impositivo aos cinemas e distribuidores dos filmes que haja um limite, que se um cinema possui cinco salas, que não exista 3 delas com o mesmo filme, por exemplo.

Princesas e vilãs

A maior bilheteria de 2014, no Brasil, foi a produção da Disney “Malévola”, com Angelina Jolie. Para o próximo ano, o estúdio já programou a adaptação live-action de “Cinderela”. Será que vai render tanto assim também?

Livros e sequências

Dos dez filmes de maior bilheteria lançados no país em 2014, sete são sequências e os três restantes, adaptações literárias.

Regulamentação

A partir de 2015, o governo através da Ancine, irá regulamentar o número máximo de salas que um filme poderá ser exibido ao mesmo tempo. A ideia é coibir abusos, como lançamentos que tomam mais da metade das salas do país.

Mas nos afastando um pouco dessa polêmica de extrema importância, analisar o ano de 2014 em termos de produções lançadas no país é um caso curioso. Nosso cinema nacional lançou títulos de qualidade como o “O Lobo Atrás da Porta”, de Fernando Coimbra, que talvez merecesse bem mais ser nosso representante em uma tentativa de concorrer ao Oscar. Leandra Leal e Milhem Cortaz atuam em uma trama doentia que instiga o espectador já nos primeiros minutos, quando uma menina misteriosamente desaparece e todos acabam se tornando suspeitos. Houve espaço em nosso cinema também para cinebiografias como “Trinta”, de Paulo Machline, sobre Joãozinho Trinta, “Tim Maia”, de Mauro Lima, e “Boa sorte”, de Carolina Jabor.

Destacaram-se também as produções menores, mas nem por isso menos cativantes, pelo contrário, se sobressaem ainda mais se comparadas aos outros. O documentário sobre Caio Fernando Abreu, “Sobre sete ondas verdes espumantes”, de Bruno Polidoro, é um caso de uma obra belíssima e impactante. O mesmo acontece com “Castanha”, de Davi Pretto, “Ventos de Agosto”, de Gabriel Mascaro, “Casa Grande”, de Fellipe Barbosa, e, fechando todas, animações como “Antes que a Sbórnia nos Separe”, de Otto Guerra, e “O Menino e o Mundo”, de Alê Abreu.

Precisamos também recordar que foi um ano no qual o cinema nacional escancarou todas as portas para mostrar um cinema gay sem pudores, bem longe do armário. “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, de Daniel Ribeiro, e “Praia do Futuro”, de Karim Aïnouz, são exemplos de tratamento belíssimo sobre a temática. Mesmo assim, não alcançamos um grande faturamento. Neste ano, bem diferente dos últimos, não teremos um filme nacional figurando entre as dez produções mais assistidas do ano.

Este vídeo está no YouTube e pode deixar de ser exibido a qualquer momento

Se o nosso cinema parece estar fervendo com produções curiosas que desembarcam de festivais e até mesmo de grandes produtoras, o cinema americano, que tanto invade nossas salas, entregou um ano que espelha o que está acontecendo exatamente por lá. Nos Estados Unidos, produções sem muito efeito e sem graça pipocam. Como alguns diriam, “baunilha”. Se em 2013 fomos apresentados a filmes como “Gravidade” e “Frances Ha”, agora ficamos com “Interestelar”, de Christopher Nolan, e “Mesmo Se Nada Der Certo”, de John Carney, duas produções esquecíveis.

Achava difícil admitir, mas o ano dos blockbusters foi salvo por dois excelentes filmes da Marvel

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Se o filme de Nolan parece arrastado e exagerado, além de presunçoso, o de Carney acaba se valendo apenas pela trilha sonora belíssima. Por outro lado, uma sétima arte norte-americana ainda parece existir pelas mãos de Jim Jarmusch e seu “Amantes Eternos”, com Tilda Swinton, ou ainda Wes Anderson e o seu “O Grande Hotel Budapeste”, reunindo um dos melhores elencos do ano. Já “Garota exemplar”, de David Fincher, trouxe uma das melhores adaptações literárias do ano com uma trilha de Atticus Ross e Trent Reznor. Dirigido por Richard Linklater, “Boyhood”, foi filmado ao longo de 12 anos, é um dos queridinhos do público e crítica por onde passa.

Achava difícil admitir, mas o ano dos blockbusters foi salvo por dois excelentes filmes da Marvel. A segunda parte das aventuras do Capitão América em “Capitão América – O Soldado Invernal”, de Anthony & Joe Russo, e a trupe de os “Guardiões da Galáxia”, de James Gunn, com o carismático Chris Pratt. Ainda foi possível se surpreender com “No Limite do Amanhã”, de Doug Liman, que coloca Tom Cruise e Emily Blunt imersos em uma viagem ao tempo que se repete.

“Jogos Vorazes: A Esperança – Parte I”, de Francis Lawrence, foi bom, mas não conseguiu superar a segunda parte da trilogia, “Em Chamas”, lançada ano passado. Mesmo assim, foi um marco do ano ao trazer de volta a única heroína, Katniss, capaz de ter substituído à altura as produções de Harry Potter, algo que nem as novas empreitadas dos mutantes em “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” conseguiram.

Filmes imperdíveis
Ainda dá tempo de ver todos eles antes do ano acabar!
Sob a pele

Houve mais escândalo pela Scarlett Johansson e sua cena de nudez do que pela história do filme, mas “Sob a pele” é um dos melhores do ano. Com referências a “2001: Uma odisseia no espaço”, de Stanley Kubrick, e a melhor performance da carreira de ScarJo, o filme de Jonathan Glazer é chocante.

Universo Marvel
“Guardiões da galáxia” & “Capitão América – O soldado invernal”

Como se não bastasse a simpatia de Chris Pratt, “Guardiões da galáxia” traz referências mil ao universo nerd e oitentista, tudo com uma trilha sonora e atuações imperdíveis. Já “Capitão América 2”, coloca Chris Evans e Scarlett Johansson juntos reprisando a parceria de “O diário de uma babá”, como uma das mais carismáticas duplas de super-heróis.

Garota exemplar

David Fincher, de “Clube da luta“, nos leva a uma macabra trama sobre um marido frente à mídia e a possibilidade de ele ter assassinado a própria esposa.

Amantes eternos

Dois vampiros que não brilham à luz do sol e que vagam há séculos pela terra se reencontram para relembrar suas colaborações para os maiores artistas e pensadores da humanidade. Tilda Swinton arranca suspiros e Tom Hiddleston certamente entrou para a listinha de vampiros mais sexies do cinema.

Cinema Gay

“Castanha”, “Sobre sete ondas verdes espumantes”, “Hoje eu quero voltar sozinho” e “Praia do futuro” trazem retratos diversos dos gays para as telas. Com construções mais poéticas “Castanha” e “Sobre sete ondas verdes espumantes” são para aqueles que querem ficar imersos no universo que trazem.

Lembrando do que Sontag repassou quando falava sobre cinema, ainda existem produções capazes de nos cativar por um período de tempo, em que entramos na sala escura, são poucas, mas fazem valer a pena. Caso do surpreendente e enigmático “Sob a Pele”, de Jonathan Glazer, e com Scarlett Johansson interpretando uma alienígena que seduz homens para matá-los.

O que fica de balanço deste ano é a importância que o nosso cinema brasileiro vem tomando, mesmo que sem um faturamento destacável em 2014. É bom colocar a qualidade de alguns dos filmes, inclusive citados anteriormente. Existe apenas a necessidade de apreciarmos nossos próprios longas. Produções que traçam retratos de diferentes regiões do país e nos trazem novidades para os olhos e para a mente, conhecendo mais de onde nos inserimos e o quanto o cinema pode ser cativante.

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Edição #20
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