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O ano das bundas

Sexo vende, ou não? A sensualidade e a hipersexualização feminina nos vídeos marcou 2014.

Jean Carlos Gemeli
Renan Riso
O ano das bundas
Renan Riso

Definitivamente não faltaram bundas em 2014. Parece que foi redescoberto o poder dessa parte do corpo tão malemolente. Até passamos por uma época quase puritana, quando Adele fez sucesso com um vestido preto para baixo do joelho, cantando paradinha no palco. Mas depois veio o estouro do twerk de Miley Cyrus, a dança que todos queriam poder fazer – mas nem todos conseguiam. A MTV norte-americana reconheceu, 2014 foi da bunda.

Este ano foi reconhecido o destaque feminino nos charts, como falamos nesta edição. Mas também foi de muito remelexo. Já até lembramos aqui no Vestiário a habilidade na dança com os quadris em 2014.

Ariana Grande até tentou se encaixar, mas acabou gerando polêmica em torno de uma sexualidade taxada de forçada. A multi-premiada Bette Midler (três Grammys, quatro Globo de Ouro, três Emmys e um Tony) falou que a jovem Ariana estava abusando da sua sensualidade para vender. “Ela parece ridícula. Eu não sou a mãe dela, ou o agente. Talvez eles possam dizer o que ela tem que fazer,” disse ela em entrevista ao jornal britânico Telegraph.

No entanto, tem gente que brinca de ser sexy, e acaba divertindo todos, mas principalmente consegue muitos acessos.

Mas estamos vendo somente hoje. E o ontem? Você lembra quem exagerava nos movimentos sexies para trazer mais público? Os vídeos começaram realmente a ter sucesso quando a MTV foi criada, lá em 1981. Nada como um clássico de Madonna, “Express Yourself”, para relembrar o poder do corpo feminino. Ou o que dizer da revolução sexual passada pós-fase Disney de Birtney Spears e Christina Aguilera, respectivamente em “I’m Slave 4 U” e “Dirrty”? Uma leva de “girls gone wild” surgiu com as misteriosas e seguras de si e femme fatales. Não é por menos que ambas as expressões estão em trabalhos de Madonna e Britney.

As maiores requebradas
Dos vídeos lançados nos últimos meses, alguns se destacaram quanto à sensualidade das suas protagonistas.
Partition
Beyoncé
Este vídeo está no YouTube e pode deixar de ser exibido a qualquer momento

Ainda no final de 2013, ela veio mais sexy do que nunca. Sensualidade foi soberania em praticamente todos os vídeos da nova era.

Can’t Remember to Forget You
Shakira & Rihanna
Este vídeo está no YouTube e pode deixar de ser exibido a qualquer momento

Colômbia e Barbados se uniram em um dos vídeos mais acessados no lançamento. As cenas eróticas geraram polêmica, e isso foi revertido em acessos.

Sexercize
Kylie Minogue
Este vídeo está no YouTube e pode deixar de ser exibido a qualquer momento

A sensualidade já vem na letra. O vídeo só veio para colocar um ápice as curvas de Kylie em cima de uma bola de plástico.

Anaconda
Nicki Minaj
Este vídeo está no YouTube e pode deixar de ser exibido a qualquer momento

Desde capa do single até o vídeo, que recebeu o recorde de visualizações em 24 horas no Youtube, Nicki elevou todas as expectativas do twerk.

Booty
Jennifer Lopez & Iggy Azalea
Este vídeo está no YouTube e pode deixar de ser exibido a qualquer momento

Letra simples, vídeo focado. B-U-N-D-A, se ainda tinha alguma dúvida.

Okay, então entendemos que sexo vende, mas mais importante, ele sempre vendeu. Explorar a sensualidade feminina é uma das armas na publicidade. O sexo, ou a promessa dele, é o que seduz o capitalismo. É uma das iscas para atrair e segurar o tempo em que os homens assistam o comercial de cerveja e não mudem de canal, por exemplo, no intervalo de um jogo de futebol. Mas estamos falando em música, e não comerciais, certo?

Um estudo feito pelas organizações EVAW Coalition, Imkaan e Object analisou vídeos como “Blurred Linew”, do Robin Thicke; “Turn Down For What”, do DJ Snake; e “Summer”, de Calvin Harris. Eles chegaram a seguinte conclusão. Enquanto os homens são retratados como detentores do poder e do domínio, as mulheres surgem como meras “receptoras passivas do olhar masculino”. Um clássico exemplo é o estilo de vida representado no vídeo de “Big Pimpin’”, de Jay Z e UGK, lá de 2001.

Voltando às divas do pop. Mas se o público alvo dessas cantoras não são os homens heterossexuais, como que este sexo vende? A resposta: por osmose – como costumamos brincar. Não é diretamente, mas um vídeo mais sensual, muitas vezes considerado “soft porn”, ganha muitos acessos simplesmente por esse fato, bundas e peitos a fácil alcance. Até viram piadas em remakes no YouTube.

Aos pouco, a cantora acaba ganhando mais espaço na mídia, de novo, pelo simples fato de balançar a bunda. Vai ter por consequência mais apresentações, mais comentários nas redes sociais, mais editoriais de moda. Enfim, mais publicidade. E como foi falado, sexo vende, e muito. Com isso vem outro “problema”. A pressão para sempre estar bela.

E quando digo bela, é sempre enquadrado em um padrão determinado de beleza. Coloca-se o corpo da mulher como objeto e adiciona-se libido e desejo. Pronto, o resultado final é uma chuva de comentários sobre a vulgaridade em que aquela mulher foi colocada. Então por que sexualizar a imagem feminina como vulgar, mas a masculina não? Por um único motivo. A objetificação do homem não vende, ou pelo menos vende pouco. Infelizmente, ainda se considera um prejuízo ao invés de lucro. Então, o sexo feminino vende, sendo de certa forma sexismo.

Ser contra qualquer forma de sensualidade é moralismo. É como diz a jornalista da The New Yorker, Ariel Levy: “sexualidade feminina é sobre performance, e não sobre prazer. Porque isso é só para os homens,” no livro “Female Chauvinist Pigs: Women and the Rise of Raunch Culture”.

Sim, há uma hiperexposição dos corpos femininos – e não exatamente como sonharíamos – entre as popstars. O famoso sex appeal necessário. Mas censurar não é a saída. Julgar a pessoa por trás daquela personagem através do comportamento, vestimenta ou pela dança, também não. Como disse a Pitty recentemente no programa Altas Horas, da Rede Globo, em debate sobre a liberdade sexual feminina: “O homem está errado. Ele não tem que achar, ou achar nada. Quem tem que fazer o que quiser é você.”

Teve muita bunda dançando em 2014? Sim, e qual é o problema se não for algo forçado apenas para agradar o homem?

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Edição #20
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