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Lena Dunham não é uma garota qualquer

Lena Dunham não é uma garota qualquer

No livro autobiográfico “Não sou uma dessas”, Lena Dunham desbrava o seu próprio (e estranho) cômico caminho através de lições tiradas de relacionamentos.

Renato Cabral
Eduardo Myr

Não vou mentir, não sou nada fã de Lena Dunham. Acho suas atuações exageradas, em alguns momentos beirando ao histerismo e há algo ali que ainda não me passa muita confiança. Pronto, você que lê e é fã da multifacetada artista deve estar pensando em largar este texto agora e jogar alguns palavrões sobre em alguma rede social. Bom, não pare. As coisas sempre mudam.

Lena Dunham não é uma garota qualquer
Divulgação“Não sou uma dessas” é lançado no Brasil pela Editora Intrínseca

Como estava dizendo, Dunham não é lá uma das minhas grandes referências como roteirista e atriz. Sempre evitei mergulhar em seu universo, mas nos últimos meses fui pego de surpresa quando acidentalmente me vi lendo a sua coluna no The New York Times achando que era um texto qualquer de alguma outra colunista. Bom, não era outra pessoa qualquer, era a própria Dunham escrevendo em um dos veículos de maior credibilidade da América.

Seu texto era engraçado, despojado e colocava as ideias de forma surpreendentemente leve, sem imposição nenhuma ao leitor. Era uma conversa, e quando eu vi, estava lendo outras das várias crônicas dela. Lena me parecia mais verdadeira através das palavras do que na tela da HBO com a série “Girls”, que entra agora em sua quarta temporada.

Ocasionalmente, em uma passada pela Amazon, notei que ela lançava o seu primeiro livro, uma autobiografia narrada através de crônicas sobre os relacionamentos da artista com a família, namorados e quem ousou ter a coragem de cruzar o seu caminho. Longe de ser uma daquelas obras certinhas, e com escrita culta feita para dar umas lacrimejadas, “Não sou uma dessas” (Editora Intrínseca, 2014), traz uma Dunham que optou pelo lado cômico da vida, aquele lado perdedora que tanto faz sucesso em “Girls” e, pelo jeito, parece ser ela própria.

“Acho que o que eu mais gosto na Lena é a sua personalidade, das iniciativas (similares ao trabalho da Miranda July) e dos textos, principalmente,” conta Elisa Gerber, social media e fã da série. Essa personalidade forte de Lena, e a mente aberta para iniciativas artísticas, vem desde muito cedo. Frequentando a casa das amigas da mãe, a jovem acabou tendo contato com a luta feminista e todo um olhar educado para a arte. Sua mãe é uma grande incentivadora e como algumas crianças, a pequena Dunham queria o quanto antes crescer.

Leia um trecho de Não Sou Uma Dessas.

Comum como toda jovem, ela se sentia um peixe fora d’água durante o ensino médio até a faculdade. Desajeitada, ela passava grande parte do tempo em casa assistindo televisão com roupas largas ou coladas em seu corpo repleto de curvas e gordurinhas, como escreve em seu livro. Lena nos oferece uma abertura e sinceridade surpreendente. Não há pudores nas páginas. Tanto que em determinado momento, a atriz conta que dava selinhos em sua irmã mais nova quando pequena, o que causou furor na imprensa sensacionalista que a acusou de ter molestado a irmã. No livro, ainda há espaço para o desabafo a respeito do fatídico momento em que foi abusada sexualmente durante a faculdade.

Mesmo com polêmicas, ou assuntos de extrema seriedade e importância, Dunham encara ainda vários outros momentos que envolvem a sua sexualidade e a lista de ex-namorados sacanas que encontrou pelo caminho.

Encarando o seu próprio amadurecimento, Lena não busca ser uma conselheira, mas as suas lições são dadas de formas sutis

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Comparando uma relação com um filme de David Lynch, enviando um e-mail para aquele caso que não sabe muito bem o que quer da relação, comparando seus SMSs com algum tipo de performance dadaísta ou tentando entender a si própria, e que tipo de relacionamentos deveria estar integrada, o livro se torna uma experiência repleta de surpresas, mas de uma sinceridade grandiosa que nos faz pensar que estamos conversando intimamente com a escritora relembrando as suas experiências.

Encarando o seu próprio amadurecimento, Lena não busca ser uma conselheira, mas as suas lições são dadas de formas sutis. Para Silvana Salazar, advogada e fã da escritora, Dunham traz reflexões em seus trabalhos. “Me identifico com a ‘bem resolvida’ cheia de crises. Isto é, tenho consciência da minha individualidade, mas ao mesmo tempo muitas coisas me inquietam e me fazem refletir sobre questões que não sei resolver,” conta.

Parte de um universo artístico amplo, Lena Dunham não é apenas roteirista, atriz e colunista do The New York Times. Artista visual, ativista dos direitos das mulheres e incentivadora da causa feminista, ela ainda ataca como diretora de cinema. Seu primeiro longa-metragem, “Tiny Furniture” (2010), chamou atenção no circuito independente e foi logo após o surgimento do seu trabalho mais mainstream, a série “Girls”.

Com selo da HBO, que produziu e exibiu sucessos como “Família Soprano” e “Sex and the City”, a qualidade de “Girls” já parecia certeira. Mas, mais que isso, assim como a história das quatro garotas que buscavam entender os seus relacionamentos na Big Apple lá nos anos 90, Dunham trouxe um grupo de jovens que refletem muito das dúvidas, problemas e situações que toda uma nova geração de garotas passam, principalmente de se sentirem outsiders. Bem como Lena é.

Talvez uma horrível comparação, mas Dunham parece uma versão atualizada de Woody Allen. Com todas as neuroses e questionamentos possíveis, mas bem superior no que diz respeito a ser contestatória e chocante. Qualidades que faltam a Allen, e que Lena explora com uma desenvoltura impressionante na escrita. No final das contas, para você que ficou até o final do texto, acabou me dando uma vontade de dar uma segunda chance para “Girls” e os demais trabalhos de Dunham.

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Edição #20
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