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Da estratégia ao desespero

O relançamento de álbuns está cada vez mais comum, mas será que sempre são necessários?

Guilherme Popolin
Eduardo Myr

Estratégia recorrente na indústria fonográfica, o relançamento de álbuns pode alavancar as vendas e deixar artistas em evidência. Com a chegada do CD no mercado e o seu boom em vendas nos anos 1990, muitos álbuns originalmente lançados em vinil foram prensados no novo formato com a justificativa da melhor qualidade do som e vantagens de armazenamento. Mas agora, que não há a migração de formato, por que o relançamento de álbuns se tornou um lugar comum?

Da estratégia ao desespero
Eduardo Myr

Atualmente, muitos são relançados antes mesmo de completarem um ano e a resposta pode estar nos números da indústria. De acordo com a Nielsen SoundScan, as vendas do digital caíram 14,9%, enquanto e as de cópias físicas 19,6% comparando o primeiro semestre de 2013 com o mesmo período de 2014. Enquanto isso, os serviços de streaming tiveram um crescimento de 50,1%. O relançamento de um trabalho compensaria as quedas nas vendas enquanto recoloca o artista em evidência. Pode ser uma boa estratégia, mas também pode desgastar a imagem do artista.

De Rihanna a Nicki Minaj, os exemplos são muitos no pop. Em 2008, RiRi aproveitou o timing certo para colocar no mercado “Good Girl Gone Bad: Reloaded”, que trouxe três novas faixas, entre elas o sucesso global “Disturbia”. Estratégia acertada, ela nunca mais saiu dos holofotes. Já Nicki Minaj com “Pink Friday: Roman Reloaded – The Re-Up” recebeu boas críticas, mas o desempenho comercial foi mediano atingindo o 29º lugar na Billboard 200. O single que melhor se saiu foi "High School”, que ficou em 28º na Billboard Hot R&B/Hip-Hop Songs e o seu clipe, lançado em sua conta Vevo no início de 2013, conta com cerca de 83 milhões de visualizações.

Nicki só voltou a lançar algo novo quase dois anos depois. “Anaconda”, o segundo single de “The Pinkprint”, foi responsável pela melhor colocação da rapper na Billboard 100, ficando em segundo lugar. O clipe, lançado em agosto, já foi visto mais de 300 milhões de vezes. É preciso cuidado e atenção para que o relançamento não pareça desespero.

Hey, sit on mama lap…

Beyoncé deveria colocar todas as cantoras pop no colo e ensinar um pouco sobre como vender. Este foi o ano dela, mas a história começou em dezembro do ano passado quando o mundo acordou com um novo álbum de Beyoncé Knowles disponível na íntegra na iTunes. Foram 14 músicas e 17 videoclipes. O álbum visual, autointitulado, foi aclamado pela crítica e comentado à exaustão nas redes sociais, que entraram em histeria.

Is she fancy enough?

Toda euforia sobre a carreira de Iggy Azalea, que dominou os charts em 2014 e recebeu inúmeras indicações a prêmios, incluindo o Grammy, não foi o suficiente para que o relançamento de seu álbum, apenas sete meses depois do original, tivesse um bom desempenho.

“The New Classic” debutou em terceiro lugar na Billboard 200 e a música “Fancy” se tornou o seu maior sucesso. Já o “Reclassified”, relançamento que chegou ao mercado em novembro, debutou em 27º. O single “Beg For It”, há sete semanas nos charts, encontra-se na 29º posição na Hot 100. Chegou a hora de dar um tempo? Ou aproveitar o buzz até esgotar?

Quase um ano depois, os rumores de um relançamento do material começaram a aparecer na internet. Em 24 de novembro, Mrs. Carter enfim relançou o álbum. O “Beyoncé: Platinum Edition” é comercializado em três versões, duas digitais e uma física. A versão digital foi direto para o topo do iTunes norte-americano e brasileiro. Pra quem já tem a versão original, o EP “Beyoncé: More Only”, conta apenas com o material inédito e debutou em oitavo lugar na Billboard 200. A versão física é um verdadeiro presente aos fãs que amam colecionar os produtos de seus ídolos, trazendo um calendário 2015 com fotos exclusivas, dois livros de fotos e quatro discos – dois CDs e dois DVDs.

Por anos, valorizou-se o lançamento de singles e suas execuções nas rádios. Nas décadas de 1960 e 1970, por exemplo, não causava estranhamento um artista de primeiro quilate lançar 10 singles em um ano. Agora, as atenções estão voltando para os álbuns, já que as lojas digitais e os serviços de streaming facilitam o consumo de todas as faixas, independente se é música de trabalho ou não. Para levar o consumidor a comprar um álbum inteiro, seja físico ou digital, é preciso apresentar músicas de qualidade com o poder de conquistar.

Este vídeo está no YouTube e pode deixar de ser exibido a qualquer momento

Really don’t care... Really?

Demi Lovato amadureceu e mostrou que tem personalidade em seu mais recente álbum “Demi”, lançado em meados de 2013. Não foi um sucesso estrondoso, mas debutou em terceiro lugar na Billboard 200, com 110 mil cópias vendidas na primeira semana e rendeu alguns hits para a ex-Disney. A cantora entrou mesmo na vibe do sucesso “Really Don’t Care” e quase dois anos após a divulgação do primeiro single do álbum veio mais um relançamento, o que pode soar como desespero por vendas ou quebra de recordes. Ou será que ela não está ligando pra isso?

Entre maio de 2013 e dezembro de 2014, Demi realizou duas turnês – The Neon Lights Tour e Demi World Tour – e lançou três versões do álbum. A original, com 13 faixas; uma com o CD e um DVD trazendo videoclipes e apresentações ao vivo; e, lançada, no começo de dezembro, uma nova versão deluxe para o mercado brasileiro com sete novas faixas. Tantas reprensagens do mesmo álbum provocaram certa insatisfação dos fãs que já esperam por algo novo há um bom tempo.

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Fica claro que a ideia é atingir a marca de um milhão de cópias mundialmente. Na última atualização do United World Chat, “Demi” aparece com 930 mil cópias vendidas. O álbum é platina tripla no Brasil com mais de 125.000 cópias comercializadas, número excelente para uma artista internacional no país. Com um bastante público fiel, o mercado brasileiro é um nicho a ser explorado para manter as vendas aquecidas para a artista.

Apesar das novas músicas, o material soa desnecessário e sem fôlego. Ao contrário de Beyoncé, que desde sempre valoriza o álbum como um produto completo, Demi quer se alavancar por meio dos singles. O mais coerente seria finalizar os trabalhos de “Demi” e partir para a produção de um novo álbum, que poderia ser lançado com estratégias diferentes para valorizar o material como um todo e agregar valor às suas músicas.

Com tantas mudanças acontecendo na maneira de consumir e ouvir música, as gravadoras estão desenhando novas estratégias para manter o mercado equilibrado, que cada vez se mostra mais difícil para quem acredita em receitas milagrosas de sucesso. O relançamento de um álbum pode dar certo para um artista, mas não significa que dará certo para todos.

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Edição #20
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