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Sempre sabe, nem sempre aceita

Conversei com o Marcelo e com a Letícia sobre como é conviver com famílias que não os aceitam. É irônico que um espaço que dizem ser de amor, por vezes se transforme em um espaço de horror e de tortura.

Murilo Araújo
André Pacheco

Esta reportagem é, antes de qualquer coisa, o fruto de uma série de angústias. Falar da realidade de gays que vivem em famílias homofóbicas é um exercício dolorido, que é fruto daquela apuração sistemática que o jornalismo exige, mas que nasce também de impressões, sentimentos, encontros, tristezas, esperanças. Porque eu também sou gay e também vivo as minhas crises com a minha família, que nem sempre é das mais receptivas quando a minha sexualidade entra em pauta.

Sempre sabe, nem sempre aceita
André Pacheco

Assim, mais que curiosidades de repórter, as questões que me movimentam aqui são angústias pessoais me revisitam volta e meia: como outras pessoas vivem essa questão? Qual é a experiência dos que não podem nem mesmo falar de si, por medo não só da vergonha, mas da porrada e do desamparo? Quantos se afastaram de casa? Quantos foram afastados delas? Se pais e mães sempre sabem, porque nem sempre acolhem? O que faz com que esse espaço que dizem ser de amor por vezes se transforme em um espaço de horror e de tortura? Há muito sentimento e desafio envolvido em cada uma dessas perguntas. Foi com elas que comecei a fazer esta reportagem, e apesar de não ter encontrado tantas respostas, ao menos encontrei histórias pelo caminho, e quero poder contá-las.

Primeiro, encontrei Marcelo, estudante de 24 anos, num grupo do Facebook onde ele sempre aparecia com desabafos sobre a relação com a mãe. Depois, no mesmo grupo, encontrei Letícia, 21 anos, também estudante, que se dispôs a dividir um pedaço da própria história. Por fim, depois de alguns telefonemas, buscando uma voz mais institucional, encontrei também Cláudio Nascimento, coordenador do programa Rio Sem Homofobia, que promove ações de defesa dos direitos da população LGBT no estado do Rio de Janeiro. Para minha surpresa, também ouvi de Cláudio um relato pessoal, com histórias que ele contou assim que mencionei o tema da matéria, antes mesmo de falar de qualquer estatística ou legislação. Nesse caminho, algumas horas de longas conversas foram se acumulando no meu gravador, e tentarei costurá-las aqui.

As descobertas

Letícia diz saber que é lésbica desde muito cedo, por volta dos 12 anos. Nunca teve muitos conflitos quanto a isso. Marcelo, porém, aos 16, ainda tinha uma namorada. Quando a questão da homossexualidade apareceu, pensou que era só uma fase – o que passou anos depois, com a entrada na faculdade. E como tende a acontecer com a maioria dos gays e lésbicas que param para encarar quem são, uma das primeiras questões a enfrentar foi o desafio de contar ou não para a família.

Não seja vítima de violência familiar

Se você foi vítima de violência familiar por ser LGBT, procure apoio. Para fazer denúncias ou pedir orientações use serviços como o Disque Cidadania LGBT (0800 023 4567), do Rio de Janeiro, ou o Disque 100, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, que encaminhará o atendimento para outros centros de referência em cada estado.

Filha de evangélicos, Letícia relata que a família nem é tão moralista quanto poderia ser. Em todo caso, ainda foi cercada com a expectativa de que algum dia ela viria a namorar um “menino da Igreja”. Aos 16, sem pensar muito, e convencida por um amigo que lhe repetiu o mantra de que “mãe sempre sabe”, ela chegou a mencionar em casa alguma coisa a respeito da própria sexualidade. A reação não foi das melhores. “Minha mãe começou a chorar, dizendo que não esperava isso de mim. Minha irmã disse que era uma fase. Que eu não tinha encontrado um homem certo ainda. Começaram a não me deixar sair, eu só ia pra escola, me ligavam pra eu voltar pra casa logo. Eu estava muito sufocada.” A típica estratégia de pais e mães desesperados, que desejam tratar o filho trancando-o em casa, livrando-o das “más influências”.

Marcelo, por sua vez, encarou um processo um pouco distinto, porque foi o seu pai quem puxou a conversa sobre o assunto, “bem triste, bem sério”, mas aparentemente tranquilo. “Aí eu comentei que eu não tinha vontade de ter uma namorada”, relata. E o pai entendeu o recado. Com certa cautela, veio a preocupação com a sua mãe, que não lidaria bem com a questão. E o pai pediu que Marcelo não tocasse naquele assunto ainda. Que deixasse para falar depois, com o tempo, quando os dois poderiam contar juntos para tranquilizar a situação. Porém, nem tudo foi como esperado: “ele veio a falecer no início de 2009, e o apoio que eu ia ter pra me encorajar a contar, eu perdi”. Pouco tempo depois, ele testemunhou a experiência que marcou decisivamente a sua decisão de esconder-se: sua irmã se envolveu com uma garota, sua mãe descobriu e a expulsou de casa. “Mas a minha irmã trabalhava, tinha condição de se manter e foi ser feliz. E eu só posso fazer isso quando eu tiver o meu apartamento, o meu aluguel, alguma coisa. Porque se ela me disser as mesmas coisas que ela disse pra minha irmã, aí eu posso sair, e tchau.”

Os armários

No meio destes conflitos todos, se constrói um dilema: de um lado, a impossibilidade de falar das próprias sexualidades em casa; do outro, a necessidade de vivê-las, mesmo que não seja abertamente. O resultado é um conjunto enorme de estratégias de todo tipo para burlar os pais e se esconder. Marcelo teve alguma sorte neste ponto: como a mãe é enfermeira e faz plantão nas madrugadas, sua vida de curtições noturnas foi relativamente fácil, mas por um tempo. Com os primeiros relacionamentos, a coisa começou a se complicar. Os namoros são todos escondidos, e a irmã tornou-se uma cúmplice: “Ela é meu álibi pra tudo. Eu tô sempre dormindo na casa dela, eu vivo na casa dela.”

Você não está sozinho

Procure amigos, procure ONGs, procure movimentos de diversidade sexual na sua cidade ou no seu estado. Você não precisa estar sozinho.

Letícia tem casos ainda mais mirabolantes. A fim de amenizar a situação tensa que se instalou após a primeira conversa, em algumas semanas ela resolveu voltar para o armário e arranjou um namorado. Um amigo gay que topou manter um relacionamento de fachada por alguns meses, encobrindo os reais envolvimentos dos dois. Uma primeira mentira que puxou algumas outras. “Teve uma época que eu comecei a namorar uma menina de uma cidade longe, e ele namorava um menino da mesma cidade. Resolvemos que a gente devia viajar junto. Ele foi lá em casa, e contou pra minha mãe que a mãe dele tinha uma casa na praia e a gente ia pra lá. Minha mãe, não satisfeita, pediu pra falar com a mãe dele. E quem fazia a mãe dele no telefone? Minha namorada”, ela conta, entre gargalhadas, numa estratégia bem genial.

Porém, nem tudo pode ser encarado com tanto humor. Volta e meia, alguns acontecimentos que não podem ser divididos com a família se tornam fonte de profundo sofrimento. A própria Letícia lembra o dia em que foi agredida por estar com uma garota e o quanto foi difícil esconder aquilo. “Eu estava ficando com uma menina na porta de um bar. Um cara pegou uma lata de refrigerante cheia e jogou na nossa cabeça, e começou a gritar ameaçando a gente. Eu tive medo, muito medo, fiquei sem reação nenhuma. Cheguei em casa devastada. E não pude contar pra minha mãe.”

Com Marcelo, algumas questões delicadas também entraram em jogo, tendo que ficar escondidas. “Eu terminei um relacionamento com um cara, e no dia seguinte ele veio me dizer que era soropositivo”, relata. E sua mãe, que podia ser de grande ajuda por ser enfermeira, foi apenas mais um medo para ser encarado. “Se eu falasse podia ser pior, porque ela ia confirmar todo o estereótipo que ela tem na cabeça. Eu tenho certeza que se o meu pai estivesse comigo, eu não teria passado o dia que eu passei, de querer me matar. Porque eu não queria nem fazer o teste. Eu só pensava em como eu ia me matar. E eu não pude contar isso pra ninguém. Foi o dia em que eu mais quis ter uma relação com a minha mãe, foi o dia que eu precisei. E eu tive que passar o dia com ela destruído por dentro, e fingindo que estava tudo bem.”

As distâncias

A consequência quase inevitável de todo esse complexo de sofrimentos é o afastamento da relação com a família, geralmente pela saída de casa. Seja por vontade própria, que é o que Marcelo pretende fazer, seja por circunstâncias da vida, como é o caso de Letícia, que se mudou da casa dos pais para estudar em outra cidade, seja por caminhos mais violentos, como é a realidade de milhões de pessoas LGBT que são expulsas de casa ou as deixam por forte rejeição dos pais.

Diálogo com a sua família

Se deseja tentar algum diálogo com a sua família a respeito da sua sexualidade ou identidade de gênero, procure movimentos como o Mães Pela Igualdade ou o GPH – Grupos de Pais de Homossexuais. Eles podem ajudar.

Foi o que aconteceu com o Cláudio Nascimento, coordenador do programa Rio Sem Homofobia, quando tinha 18 anos. “Eu passei cerca de oito meses mudando de casa em casa”, relata. “Dois dias na casa de um, dois dias na casa de outro, até eu conseguir me estruturar. Depois eu fiquei numa ocupação numa escola, com uma amiga, durante quase um ano. Cheguei a tentar suicídio na época por conta disso, e foi bem difícil. Infelizmente, é uma realidade que ainda atinge muita gente.”

Hoje, a frente do programa, Cláudio acompanha as muitas histórias parecidas que chegam aos centros de cidadania LGBT do estado do Rio de Janeiro. Segundo ele, desde a criação do programa, em 2007, o Disque Cidadania LGBT realizou aproximadamente 18 mil atendimentos de orientação e acolhimento, sendo que quase metade deles envolveu situações de violência e discriminação por orientação sexual e/ou identidade de gênero, muitas vezes na própria família, ou entre vizinhos e amigos. Uma estatística que assusta, se considerarmos que contempla a realidade de apenas um estado, sem dar conta dos tantos outros casos que sequer são denunciados.

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A questão da sexualidade infantil é extremamente delicada, mas ninguém deveria sofrer violências e limitações tão absurdas. É preciso abrir espaço para uma compreensão mais aberta das descobertas do corpo que vivemos já na infância.

E se a estatística assusta, também assusta – e entristece – pensar no significado maior destes afastamentos físicos e dessas violências, que são, antes de qualquer coisa, afastamentos de sentimentos, de laços, de histórias que não encontram mais espaço para se conectar, e se separam deixando lacunas que costumam doer. No começo desta reportagem, afirmei que não encontrei resposta para algumas questões que movimentaram a minha reflexão, e reitero que algumas coisas, pra mim, permanecem sem sentido: se pais e mães sempre sabem, porque nem sempre acolhem? O que faz com que esse espaço que dizem ser de amor por vezes se transforme em um espaço de horror e de tortura, de angústia e de rejeição?

A incoerência maior disso tudo, pra mim, pode ser resumida em uma imagem. No dia da entrevista com Marcelo e Letícia, o namorado de Marcelo também apareceu, e escutou tudo, silenciosamente. Enquanto Marcelo contava toda a história, muito emocionado, seu companheiro lhe fazia carinhos e lhe apertava a mão, como que dando força para revisitar tudo aquilo que era tão delicado de dividir. Era bonito, mas guardava uma ironia um pouco cruel. Era justo naquela relação que tanto despertaria ódio em sua mãe, que Marcelo encontrava amor.

Por algumas vezes, ele repetiu: “Eu queria que ela soubesse o quanto eu estou feliz.” E penso que o mundo seria mais bonito se outras famílias se dispusessem a enxergar, de coração aberto, o quanto nós só estamos tentando ser felizes. Às vezes a muito custo. Cada um à sua maneira.

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Edição #19
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