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O Brasil made in Brazil: chegou a hora da moda autoral

Do artesanal ao sofisticado, a produção brasileira ganha espaço no mercado e prova ser o melhor caminho para levar a brasilidade a um outro patamar.

Mônica Alves
Vic Matos

Foi-se o tempo em que alta-costura era sinônimo de elegância. Cada vez mais presentes no dia a dia da moda, as produções autorais se destacam pela singularidade e o seu poder único de diferenciação, fugindo da loucura comercial que a indústria vive. Transbordando criatividade, produções nacionais vêm alcançando pouco a pouco o coração e o guarda-roupa do público brasileiro, que passa por mudanças e busca se identificar mais com o que veste.

O Brasil made in Brazil: chegou a hora da moda autoral
Vic Matos

A paulista Bianca Baggio, à frente do ateliê que leva o seu nome, é um bom exemplo. Trabalhando com retraços têxteis, tecidos ecológicos e técnicas artesanais, a estilista acredita que o foco na proposta da marca é a principal diferença entre os que se apropriam de tendências e os que as criam. “Em sua maioria, as marcas que replicam tendências querem atender um mercado e obter lucro, sem uma proposta estética ou uma mensagem a ser passada. Já com as marcas autorais, os criadores levam consigo uma identidade, ou pelo menos uma busca por ela. Pesquisam e arriscam muito, com o intuito de receber um retorno financeiro, mas também em querer expressar algo”.

Abençoado por natureza, o Brasil tem uma fama respeitável como polo de inovação. Seja pela inesquecível Zuzu Angel com as suas rendas, chitas e crochês, também já vimos nomes como Lino Villaventura e Pedro Lourenço despontarem mundo afora com criações que levam a cara da nação, adaptando a imagem do país tropical de acordo com as suas próprias visões. O problema, porém, estaria na hora de vender, não na nossa força criativa. A jornalista e consultora de moda Gloria Kalil destaca no livro “Fashion Marketing” que a moda brasileira brilha, mas não vende. Para exemplificar a provocação, ela aponta que o mercado interno do país ainda é pequeno e enfrenta a forte concorrência de países como China e Índia, com os seus preços imbatíveis. Reverter a situação dependeria de muito planejamento e investidores com o pensamento certo.

A moda autoral brasileira vem ganhando espaço apoiada em mudanças cruciais

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Temos um lifestyle único, um país ensolarado e uma cultura riquíssima. Como incorporar esses e outros aspectos culturais à nossa moda e ter, ao mesmo tempo, um produto comercial? O desafio é interessante, e mais ainda é a forma como alguns estilistas e criadores estão trabalhando o assunto. A moda autoral brasileira vem ganhando espaço apoiada em duas mudanças cruciais: a construção de um calendário de lançamentos nacional, sejam os grandes como a São Paulo Fashion Week e o Fashion Rio, e o aumento do número de cursos e escolas de moda e design – de acordo com o Ministério da Educação, já são mais de 50 cursos de graduação na área espalhados pelo país, além de cursos de formação técnica e de pós-graduação. A concorrência interna alimenta a competição de uma forma sadia, e todo mundo que busca o seu lugar ao sol precisa ter um diferencial.

O Brasil made in Brazil: chegou a hora da moda autoral
DivulgaçãoA paulista Bianca Baggio trabalha com retraços têxteis, tecidos ecológicos e técnicas artesanais.

É obviamente impossível ignorar as macro tendências e os hits internacionais, especialmente em uma realidade interligada como a de hoje. O comportamento do consumidor é analisado de forma global, mas as adaptações às necessidades e aos traços locais sempre existiram e vêm aparecendo cada vez mais. A fórmula é básica e natural, já que não é difícil chegar à conclusão que o colete de inverno que bomba na Rússia nunca teria espaço no nosso calor nordestino.

O cliente é peça-chave tanto no momento da criação, quanto da venda. Bianca acredita que as marcas autorais coexistem com os grandes mercados justamente pelo fato das pessoas buscarem sua identidade na mistura de peças, sejam elas artesanais ou produzidas em grande escala. Existe, porém, um problema de desvalorização que ronda o produto nacional. “Além de fatores governamentais, econômicos e logísticos, acredito que o grande problema ainda é a desvalorização do próprio consumidor brasileiro pelo produto interno, apoiado por estilos reconhecidos pela mídia de massa. Esses fatores culturais dificultam o cenário para qualquer produtor fora do padrão”, destaca a estilista.

Os Grandes
Estilistas brasileiros que uniram o autoral ao comercial
ReproduçãoGloria Coelho
Gloria Coelho
Trabalhando com diferentes formas e texturas, a mineira é fã dos tons neutros e um dos grandes nomes da moda de exportação brasileira: suas peças são encontradas nos EUA, em países da Europa e inclusive no Kuait.
ReproduçãoRonaldo Fraga
Pedro Lourenço
Filho do casamento de Gloria Coelho com o também estilista Reinaldo Lourenço, o jovem é um verdadeiro prodígio. Sua primeira coleção foi criada aos 12 anos e aos 19 foi considerado um dos destaques na Paris Fashion Week.
Ronaldo Fraga
Expoente da cultura brasileira, já se inspirou em temas como o agreste brasileiro, a realidade latino-americana e até mesmo o poeta Carlos Drummond de Andrade na hora de criar suas coleções.
Vitorino Campos
Também no time de novos estilistas brasileiros, o baiano se destaca pelo corte impecável e a utilização de tecidos únicos e de primeira linha. Integra o line-up da SPFW desde 2012.
Lenny Niemeyer
À frente de uma das mais conhecidas marcas de moda praia do país, a estilista leva o estilo de vida carioca para o Brasil e o mundo. Seus biquínis são famosos pelas estampas marcantes e texturas leves, com a cara do Rio de Janeiro.
ReproduçãoLenny Niemeyer

A “síndrome de vira-lata” nos leva a perdas significativas na identidade nacional e boas oportunidades de negócio. Um exemplo é a Hipanema, fundada pelas francesas Delphine Cheche’riou e Jenny Collinet. De férias no Rio de Janeiro, a dupla se encantou com as pulseirinhas vendidas na praia e levou a ideia para a Europa. O resultado foi uma marca bem-sucedida e que vende no mundo as mesmas pulseiras que podemos encontrar em quaisquer feirinha hippie espalhadas pelo Brasil. A diferença é uma só. O preço da marca europeia varia entre 50 e 200 dólares. O hype foi tanto que, é claro, conquistou fashionistas e blogueiras (inclusive brasileiras) que adoram desfilar os braços com as nossas cores e santinhos, só que made in France. Tudo pela etiqueta.

O Brasil made in Brazil: chegou a hora da moda autoral
DivulgaçãoAs peças de João Sebastião vêm ganhando espaço junto a publicações renomadas e celebridades.

A linearidade no processo é um dos artifícios da moda autoral, escapando um pouco da necessidade de novos conceitos a cada estação. O designer de acessórios João Sebastião segue por esse caminho. À frente de uma marca que se baseia na brasilidade, as suas criações trazem traços nítidos do tropicalismo e de movimentos regionais, com coleções inspiradas no Pantanal e na fauna mato-grossense, o seu estado natal. Segundo ele, é essa representação que traz o valor ao produto. “É muito importante produzir moda autoral no Brasil, assim como é muito importante produzir arte, música, cinema... Todos autorais e que representem a nossa cultura. Acredito na importância de mantermos uma identidade na produção de moda e nas demais formas de expressão artística nacional. Essa verdade é maior do que o produto em si, ela vende nossa imagem e agrega valor”, afirma. O pensamento já traz resultados. As suas peças podem ser vistas em editoriais de revistas como Vogue e Glamour, além de circular em personalidades marcantes como Gaby Amarantos.

O Brasil tem vários “brasis”, e é possível incluir todos em um universo tão abrangente como o da moda. Existe espaço para marcas e estilistas que trabalham de formas totalmente distintas, e esse é um dos grandes trunfos do setor. Da mesma maneira que grandes varejistas vêm se apoiando em nomes de peso para vender cada vez mais – como a coleção Versace para Riachuelo, lançada nesta edição da SPFW –, aqueles que buscam um modelo mais flexível de trabalho também encontram portas abertas.

Os criadores que prezam pela autenticidade passam a ganhar destaque enquanto a indústria se vê diante de diversos problemas estruturais, e até mesmo criativos, já que os questionamentos sobre os rumos dessa corrida comercial aparecem lado a lado com a preocupação estética. Até que ponto é válido se apoiar em moldes pré-estabelecidos e deixar de criar? O que ainda pode ser inventado na moda e movimentar o mercado nacional? As respostas para essas e tantas outras perguntas talvez sejam bem mais simples do que pensamos, e é assim que a nossa moda autoral pode começar a alcançar o lugar que sempre mereceu. O próprio Brasil.

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Edição #19
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