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De que lado do muro estamos?

O Muro de Berlim brasileiro talvez nunca seja derrubado, mas isso é apenas porque ele não é feito de concreto.

Ana Paula Penkala
Renan Riso

Este texto é sobre história muito mais do que sobre eleições, é sobre quebrar concreto e cortar arame farpado. Caso você tenha menos de 25 anos, não goste de história ou deteste discutir política, talvez não entenda o que significa dizer que este ano, assim como esse outubro, vão entrar para a história da democracia brasileira. Aviso então que vai parecer muito estranho falar dos 25 anos da Queda do Muro de Berlim e seguir sobre as eleições para a presidência do Brasil.

De que lado do muro estamos?
Renan Riso

No dia 9 de novembro de 1989, o Muro de Berlim começou a ser derrubado. Que “tirasse” a primeira pedra quem não aguentava mais a divisão física e ideológica entre a Alemanha Oriental e a Ocidental. E assim foi, até que em três de outubro do ano seguinte, a “queda” do muro foi oficializada. Esse evento simbolizou o fim da Guerra Fria e, de certa forma, a derrocada da antiga União Soviética. No Brasil, seis dias depois, naquele mesmo novembro de 1989, era realizado o primeiro pleito de uma nova era na democracia brasileira. As primeiras eleições diretas no Brasil após um longo processo de abertura política, que começou em 1974 e terminou em 1985, dando fim aos 21 anos de Ditadura Militar. Dessa eleição, Fernando Collor de Mello foi escolhido Presidente da República, posto do qual foi derrubado, em 1992, por impeachment. Esta foi a primeira eleição presidencial em que o Partido dos Trabalhadores (PT) concorreu, inscrevendo o nome de Luís Inácio Lula da Silva na história da esquerda e da própria democracia brasileira, e foi também um dos maiores demonstrativos do poder que a mídia tem neste país. Sabe-se hoje que o último debate entre Collor e Lula, na Globo, foi manipulado para que o ex-líder sindical perdesse as eleições.

Assim que assumiu, Collor fez um confisco do dinheiro da poupança dos brasileiros, começando “bem” a época de grande recessão econômica pela qual a Era Collor foi conhecida. Foram anos difíceis aqueles, eu diria (soa bem poético, não?). Digo isso com a memória de quem estava lá, viu seus pais com a água no pescoço, e começava uma jornada na militância política. Depois de iniciado o processo de impeachment, Collor conclamou os brasileiros a saírem às ruas vestidos com as cores da bandeira para que o apoiassem. A resposta, puxada pelo movimento estudantil, foi uma manifestação nacional de enlutados. Em setembro, a Câmara de Deputados fez votação histórica pela saída de Collor da presidência. Eu tinha 14 anos, quase três de militância na esquerda, e mesmo que provavelmente não soubesse nada de nada da vida (mas o suficiente para querer começar a saber), naquela semana fui às ruas de preto, com o rosto pintado de verde e amarelo, engrossando o coro dos que logo foram chamados de Caras Pintadas. No meio do caminho, fiz a volta e fui para casa, envergonhada de perceber que alguns dos meus colegas estavam ali porque queriam matar aula.

Por que escrevo este texto na primeira pessoa? Porque nossa relação com política se dá dessa forma, pelo nosso próprio conjunto de crenças. Se você, pessoalmente, não se identifica com um candidato ou um partido, você com certeza se identificaria com um projeto político. Dependendo do que você acredita, você é de esquerda, de direita ou qualquer coisa nuançada entre esses dois lados. Até, é claro, que você seja confrontado com a decisão de escolher um lado. O mundo não é binário – sou feminista e estudo gênero, vejo “binário” como um palavrão – e não somos preto no branco. Mas existe uma diferença entre a tolerância que tenho com amigos que fazem piadas de loira burra (que me ofendem duplamente) e ter cortado relações com todos os misóginos, fundamentalistas religiosos, homofóbicos e racistas que conheço, incluindo aí os neonazis.

Lula, Collor e a manipulação descarada da grande mídia

Numa disputa apertada de um segundo turno histórico, o ex-sindicalista Lula e o ex-governador de Alagoas, Collor, do extinto PRN, estavam em empate técnico. De um lado, um candidato de direita, com discurso moralizador liberal, “caçador de marajás”, de forte apelo entre a juventude conservadora e a família cristã brasileira. Do outro, um candidato de esquerda, representante da classe trabalhadora e da lógica sindicalista.

A ascensão expressiva de Lula durante as eleições provavelmente assustou os já tradicionais apoiadores conservadores, entre eles as Organizações Globo. A “simpatia” de Roberto Marinho pelo regime militar se refletiu, em muito, em apoio expresso em alguns dos principais veículos de suas organizações na época da Ditadura. Com os protestos de 2013 em âmbito nacional, muito se ouviu sobre esse apoio, o que culminou em texto publicado no final de agosto no O Globo, o qual alegava o já reconhecimento, por parte da empresa, do erro cometido no apoio editorial ao Golpe de 64. Nas palavras de O Globo, o jornal reafirmava, em 31 de agosto de 2013, seu “incondicional e perene apego aos valores democráticos”, reproduzindo texto do Projeto Memória sobre 1964.

Se as eleições diretas de 89 simbolizam definitivamente o retorno à democracia no Brasil, por outro lado são talvez o marco inicial de um projeto de “jornalismo” que costuma dar o ar de sua graça às vésperas das eleições. Na época, denunciou o envolvimento do PT no sequestro do empresário Abílio Diniz – executivo do grupo Pão de Açúcar, o que foi desmentido depois das eleições – reforçando nos brasileiros não acostumados à democracia e ainda com a ressaca da Ditadura, o medo do terrorismo de esquerda. A jornalista e doutora em Comunicação Diana Paula de Souza pesquisou sobre o caso, demonstrando o esforço de mídia na manipulação das eleições daquele ano.

Recentemente, José Bonifácio Sobrinho, o Boni, revelou o que sempre se soube sobre a manipulação das imagens do debate da Rede Globo, da “jogada de marketing” que é um dos truques mais antigos do jornalismo: tornou a imagem de Collor mais palatável, mais popular e mais próxima da “luta contra a corrupção”, reforçando a ideia de que combatia também o outro candidato, supostamente ligado à “arruaça”, sequestro, terrorismo. O que se cria nessa teatralização política histórica é a imagem de um herói nacional, um “homem de bem”, quase um galã; contra a figura de um vilão de barba, sem cara de bom moço, representante de uma esquerda cuja imagem era e sempre será ligada à guerrilha. Tentaram fazer o mesmo com Dilma. O voto conservador sobrevive e se multiplica à custa de um imaginário nacional que ainda acredita cegamente na grande mídia, em seu compromisso com “a verdade” e sua “imparcialidade”.

Herança de uma democracia fragilizada pela Ditadura e um ensino de história precário e colonizador, o povo brasileiro aos poucos vai se livrar da sombra do coronelismo, do poder ideológico da mídia e do discurso político vazio. Mas a democracia enquanto ideia, enquanto ética, enquanto projeto, ainda é só uma pele fina crescendo sobre a ferida que uma história de manipulação, cabresto e golpes deixou no coração do Brasil.

A era que supostamente acabou com a queda do Muro de Berlim e com o fim da Guerra Fria, a era dos totalitarismos comunistas do Leste Europeu, foi a mesma era que viu, depois de todas as conquistas dos movimentos por direitos civis e humanos dos anos 60 e 70, um recrudescimento do capitalismo conservador e das direitas, uma ascensão conservadora que vivemos em toda sua potência hoje no mundo. Se existia um muro de concreto e arame farpado impedindo os alemães do oriente, governados pelo sistema soviético, de viver a experiência do capitalismo no lado ocidental, governado por EUA, Grã-Bretanha e França, esse muro tendo sido “derrubado” não significa que não vivamos num “regime totalitário capitalista”. O que nos diferencia da experiência violenta dos regimes soviéticos e do socialismo do regime cubano é apenas um capital simbólico, que nos faz crer que temos liberdade, que ninguém nos aponta uma arma se quisermos não ser capitalistas, que todos temos as mesmas oportunidades e se não prosperamos, é porque não batalhamos o suficiente. Um dos ícones conceituais do sistema capitalista é a meritocracia, “sistema ideológico” segundo o qual a posição social é conquistada por mérito. São associados a esse mérito os valores morais, as habilidades específicas, a educação.

Nunca se foi tão declaradamente conservador, xenófobo, homofóbico, racista e misógino quanto nessas eleições

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As eleições brasileiras deste ano foram marcadas por reviravoltas fantásticas e pelo acirramento de um ódio de ideologia fascista propagado inclusive com ajuda das redes sociais (que o filósofo Slavoy Zizek explica). Nunca, desde pelo menos a ditadura, se foi tão declaradamente conservador, xenófobo, homofóbico, separatista, racista e misógino quanto nessas eleições – que contaram com três candidatas mulheres, das quais uma saiu vitoriosa, e pelo menos três candidatos representantes do conservadorismo cristão e fundamentalista. O velho medo, insuflado pelos conservadores repercutiu nas redes sociais em 2014, tomando proporções assustadoras após a vitória da petista Dilma, quando começaram a surgir desde protestos pedindo “intervenção militar” e o retorno da Ditadura, até ameaças de morte aos petistas, passando por um inegavelmente imaturo pedido de recontagem de votos. No Brasil de 89, a denúncia sobre a participação do PT no sequestro do empresário Abílio Diniz e a cobertura da mídia (em especial, do Jornal Nacional) sobre o último debate entre Collor e Lula surtiram efeito, dando ao candidato do PRN a faixa presidencial.

Desta vez foi diferente, mas o país vive um fervor pós-pleito que se pode chamar de inédito na história. Nunca se discutiu tanto pelo menos três questões. A primeira é o suposto “racha” entre o Brasil. Depois, a polarização entre esquerda e direita. Por fim, a necessidade urgente que temos hoje, depois de 25 anos da queda do Muro de Berlim, de derrubarmos o muro que nos impede de estudar a história sociopolítica do país e do mundo, de enxergar o nosso passado. Que nos impede de compreendermos que entre o extrema-direita do “fora Dilma, queremos Golpe!”, o “centrismo apolítico” tendendo para a direita do “então eram só os 20 centavos?!”, o esquerdismo de centro que se vê como esquerda do “tchau, Lobão!” e o esquerdismo ensolarado dos que vão pelo apenas “nenhum voto em Aécio!”, existe ainda relativamente pouca compreensão do que é a democracia, de como se faz política no Brasil e de que todos nós temos um lado. E é não querer tomar posição neste lado que nos faz perder sempre de 7 x 1 para uma grande mídia que ainda tenta manipular o que queremos e em qual projeto de país podemos votar.

A sorte é que se na Copa o 7 x 1 da Alemanha do Muro Caído nos tirou da Copa das Copas, desta vez, 54,5 milhões de votos nas urnas nos mostraram que grande imprensa nem nos diz mais que presidente devemos ter, muito menos depois nos insufla um Impeachment do mesmo presidente. Ou assim espero.

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Edição #19
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