Vestiário

O melhor site de cultura pop e lifestyle gay do Brasil.

Curvas, metros, it stuff e clichês

Curvas, metros, it stuff e clichês

Não importa o estilo, o tipo, a escolha, será que vale perder sua personalidade e peculiaridade para se transformar em um padrão?

Marcela Silva
Renan Riso

A sociedade vem passando por revoluções estéticas há algum tempo. Por exemplo, até o início do século 20, as mulheres mais curvilíneas representavam riqueza e fartura, e eram exaltadas por isso, como nas pinturas que vemos até hoje. Na década de 1960, as magérrimas começavam a dar os seus primeiro passos rumo à dominação da moda, puxadas pela modelo britânica Twiggy. Atualmente, com o incentivo ao treino, às vezes em excesso, e também à suplementação – inclusive, alardeado por algumas marcas esportivas ou programas de tevê – as mulheres que apreciam um corpo musculoso e esbelto também se tornaram ícones de beleza.

Essas revoluções foram gerando, ao longo do tempo, uma amplitude de estilos de vida. Vê-se hoje uma garota que se assume acima do peso usando a denominação plus size, já as magras são skinny, as saradas investem em seus corpos com treinos “hard core”. Com essa variedade de padrões, como uma garota faz para decidir qual estilo de vida levar? Como se posicionar e escolher a sua identidade com tantas opções que, muitas vezes, as impulsionam a escolher?

Além de tantos estereótipos, também existem as garotas fora deles. Meninas com perfil para modelar, mas que se interessam por medicina em vez de se dedicarem à moda. Ou garotas que não aceitam serem chamadas de plus sizes. Outras que não se conformam com o preconceito que alguns têm a respeito do excesso de academia. Mesmo envoltas em um universo repleto de informações, sons e imagens, nos turbinando vinte e quatro horas por dia, com publicidade ou merchandising, muitas de nós sentem a necessidade de encontrar uma tribo, de pertencer a algum grupo social, mesmo não se encaixando em seus padrões. Mas para tudo, há exceções.

Muitas de nós sentem a necessidade de encontrar uma tribo, de pertencer a algum grupo social

Compartilhe

Até há pouco tempo, a música era uma das maiores ditadoras de tribos urbanas, não que hoje também não seja, como vemos muitos se identificando com sons e artistas que transformam as suas vidas, mas a aparência física parece que tomou mais espaço no critério estilo. Blogs, redes sociais e sites despejam conteúdo diariamente, com ideologias e publicidade, incentivando cada vez mais garotas a seguirem determinados parâmetros de beleza. Essas garotas, muitas vezes, fazem sacrifícios e cometem exageros para desfrutar desses paradigmas, talvez pela pressão, talvez pela necessidade de fazer parte de algo, talvez por algum anseio passado. Algumas fazem dietas malucas, outras procuram por cirurgias às vezes arriscadas. Há casos de todos os tipos que, e não raramente, nem nos surpreendemos mais.

Essa busca por uma identidade se torna cada dia mais difícil, não apenas pela quantidade de “caminhos” a seguir, mas também pelo preconceito, seja por sermos mulheres ou pela opção que escolhemos. Muitas vezes a culpa pode ser de nós mesmas, que nos enxergamos como mínimas perto de alguns homens ou até de outras mulheres. Além de ter que se posicionar para entrar em um grupo, a garota fica à mercê dos outros, podendo ser taxada de alguma coisa que não seja favorável a ela e sua autoestima. Infelizmente, julgar pelo estilo é uma coisa generalizada. Se você vê uma funkeira, possivelmente pensará que não se trata de uma pessoa decente, e falo isso sem fazer juízo de valor, estou apenas generalizando em cima do que a sociedade pensa. Se fazemos isso com política, por que não faríamos ao falar de alguém que mal conhecemos ou pouco nos importamos?

O intuito principal deste texto não é determinar estilos, julgar pessoas, ou criticar ideologias. Minha intenção, desde o princípio, é questionar. Questionar sobre a não necessidade de se assumir um papel para estar em um grupo social. Digo por experiência própria. Com vinte e quatro anos, eu consigo enxergar isso e, talvez, nem esteja tão certa a respeito. Mas quando me pego pensando em meu passado, nas coisas que já fiz e ouvi para estar ao lado de determinadas pessoas, eu me arrependo. Me arrependo, principalmente, porque quando comecei a ser eu mesma, eu senti que as pessoas começaram gostar mais de mim.

Digamos que esse questionamento seja sobre o limite. Mesmo tendo vontade de entrar para determinado grupo, vivenciar determinado estilo, o ser humano precisa entender que existe limitações psicológicas e físicas, e que não respeitá-las pode trazer problemas futuros. Talvez essa necessidade de aprovação, que é bem mais aparente nas mulheres, esteja relacionada com a aceitação pelo gênero, pela sensibilidade, pelo frágil. A necessidade de provar que se pode ser alguém muito melhor, não só para você, mas para os seus pais, os seus relacionamentos ou os seus amigos.

A falta de limite pode ter consequências negativas inestimáveis

Compartilhe

Os casos onde as pessoas excedem os limites são inúmeros. Valeria Lukyanova, a ucraniana que vive de água e luz para se parecer com a Barbie, ou o Toby Sheldon, que gastou mais de cem mil dólares para se parecer com o Justin Bieber. Claro, esses são dois extremos, mas falta de limite pode ter consequências negativas inestimáveis.

Sem esse papo de o nosso corpo ser nosso templo e que temos que cuidá-lo, o ser humano, e não só as mulheres, deve entender o que pode ou não ser feito com ele, seja para a aceitação social ou deleite pessoal. Algumas atitudes podem futuramente gerar distúrbios, problemas psicológicos sérios. Temos que entender, e falo por mim também, que além de termos várias limitações, os grupos não precisam nos aceitar para sermos mais humanos, para sermos mais queridos. Nada supera a particularidade de sermos quem somos, e quem consegue enxergar e praticar isso, conquista além de amigos verdadeiros e relacionamentos duradouros, uma plenitude pessoal incomparável.

Comentários
Edição #19
Newsletter

Assine e receba por email as nossas principais atualizações, além de conteúdo exclusivo!