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A sedução da imprudência no sexo casual de Flerte

A sedução da imprudência no sexo casual de Flerte

Em entrevista ao Vestiário, o diretor e produtor contam a casualidade por trás do enredo de “Flerte”, curta-metragem brasileiro destaque da 22ª edição do Festival Mix Brasil.

Jean Carlos Gemeli

“Vou te procurar entre a luz e a escuridão que confusos me indicaram caminhos errados e distantes. Vou te encontrar em lugar indefinido, no curto espaço entre nós dois. Estranhos caminhos tive que percorrer para chegar até você”. O monólogo de abertura do curta-metragem “Flerte”, uma das produções que serão exibidas durante o 22º Festival Mix Brasil, que acontece entre os dias 13 e 23 de novembro em São Paulo, nos faz analisar quase que instantaneamente a validade do encontro casual.

É essa atual casualidade que se protege no guarda-chuva do desejo. O sexo imprudente e perigoso também tem a sua sedução. E é com essa brincadeira que “Flerte” dialoga, entre o choque inicial e a verdadeira intenção por trás do enredo da trama. A fotografia marcante, aliada à direção cuidadosa de Hsu Chien Hsin, nos obriga a permanecer com os olhos bem abertos para que nenhum detalhe se perca no meio do caminho. Mas quando o curta vai se aproximando do fim, o difícil é manter os olhos abertos.

Em poucos segundos, o curta, cuja produção ficou sobre responsabilidade de Márcio Ribeiro, nos leva do desejo à repulsa. Tente imaginar: você está em festa, conhece uma pessoa interessante e a noite acaba na casa de um de vocês. Pode-se dizer que é algo corriqueiro, uma expectativa misturada com o impulso do desejo. Até aqui, nada muito fora do normal.

Este vídeo está no YouTube e pode deixar de ser exibido a qualquer momento

É exatamente isso que “Flerte” quer que você pense quando Rapha (Pedro Ramoa) e Felipe (Vinícios Olivo) partem para uma intensa noite de sexo depois de se encontrarem em uma balada. Quando conhecemos alguém novo, costumamos pensar algumas questões básicas, como nome, idade ou o que a pessoa faz da vida. Pra mim, nome é primordial. Algo que Rapha acaba adivinhando.

A intenção por trás do curta é mostrar uma visão geral dos encontros casuais. “O tema principal não é uma questão LGBT, mas no caso de Flerte é retratado por personagens gays”, comenta o produtor Márcio Rosario em um bate papo com Vestiário. Este é o primeiro trabalho da parceria com o diretor Hsu Chien Hsin. “Trabalhamos juntos no filme Rio, Eu Te Amo, do mexicano Guillermo Arriaga. Trabalhei como ator, enquanto Hsu era assistente de direção”, relembra. O profissionalismo e a qualidade no trabalho dos dois fez surgir “Flerte”.

“Minha luta é para que as pessoas vejam que Flerte está muito além de ser um filme de temática LGBT. É um drama, assim como o longa francês Azul É A Cor Mais Quente. Não há a necessidade de divulgá-lo como um filme gay, mas um drama cujos protagonistas por um acaso são homossexuais,” disse Hsu Chien. O diretor do curta no contou que o enredo nada tem a ver com a orientação sexual dos personagens, já que qualquer um está sujeito a situações como a abordada no curta, sejam ele hétero, homo ou bissexual.

10 atores convidados para os papeis principais em Flerte não abraçaram o projeto por acharem as cenas muito fortes

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Nascido em Taiwan, mas carioca desde os quatro anos, Hsu Chien ainda mantém influências orientais. Em “Flerte”, sua primeira investida na temática LGBT, o diretor privilegia o pouco diálogo e foca nos olhares. "Para mim, o cinema asiático de Wong Kar-Wai foi muito inspirador", conta ele, citando o aclamado diretor chinês, vencedor de Melhor Diretor no Festival de Cannes em 1997, para explicar a estilização das cores utilizadas no curta.

Como todo e qualquer trabalho feito de forma independente, “Flerte” não passou ileso das dificuldades. O diretor nos revelou que boa parte da equipe nunca havia trabalhado em um filme que tivesse cenas de sexo entre homens e violência explícita. “Considerando a complexidade do filme, a variedade de locações e dificuldade financeira, foi um recorde.” Para ele, todo o segredo da agilidade está no tamanho reduzido da equipe, que obrigou que tudo precisasse ser rodado em apenas dois dias de filmagens.

No entanto, antes mesmo das gravações serem realizadas, o primeiro obstáculo apareceu. “Foi difícil chegar ao [protagonistas] Vinícios e ao Pedro. Convidei outros 10 atores, mas todos negaram, pois acharam as cenas e os personagens muito fortes”, desabafa Hsu sobre sua frustração com a forma de pensar dos atores. Depois da intensa procura, ele ficou aliviado com o resultado, “Os meninos foram muito disponíveis e se propuseram à proposta do filme sem medo.” Para Márcio, a escolha dos protagonistas foi um achado e tanto. “A entrega deles foi fantástica,” disse.

Mesmo com todos os desafios de produção e um roteiro ousado, “Flerte” abocanhou dois prêmios da categoria no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e também no Los Angeles Brazilian Film Festival (LABRFF), onde fez a estreia internacional.

Mestre em Cinema pela American Film Institute (AFI), Márcio acredita que ainda há muito para ser feito quando o assunto é investimento em filmes. “Da criação à distribuição, o cinema exige muitos recursos financeiros.” Mas ele garante que o cenário nacional vem mudando aos poucos e com a qualificação profissional da área, deve melhorar ainda mais.

“Queremos difundir para o mundo que aqui no Brasil existe amor e compreensão,” lembra Hsu Chien sobre o cenário nacional LGBT mostrado em outros países. A fala do diretor veio de forma oportuna, exatamente no momento em que o país está na torcida e em campanha para que “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, lançado este ano depois de fazer sucesso com o curta-metragem em 2010, consiga uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar. Fato que não acontece desde 1999, quando o filme “Central do Brasil”, estrelado por Fernanda Montenegro, figurou na cobiçada categoria.

A quantidade de filmes com a temática gay vem aumentando e, tal como o longa de Daniel Ribeiro, o polêmico “Praia do Futuro” e o colorido e sedutor “Tatuagem” também tiveram enorme repercussão. “Não podemos fechar os olhos para assuntos importantes como a igualdade de direitos para as minorias, sejam essas minorias raciais ou sexuais,” explica o diretor. Para Márcio, a intenção é fazer com que os espectadores reflitam sobre o assunto.

Tendo “Flerte” como laboratório, Hsu Chien já está se preparando para um novo projeto: um longa-metragem, chamado “Má adolescência”, escrito pelo próprio. “É um drama de baixo orçamento que fala sobre a juventude sem rumo e sem esperança,” revela. Por mais que seja deferente do curta, ele garante que a entrega e a realidade dura que encontramos em “Flerte” estarão presentes no filme.

Em suma, o curta-metragem consegue, com apenas quinze minutos, abrir uma discussão sobre a violência na casualidade. Interagindo com o desejo e o perigo, a sedução e a imprudência, o curta faz acender as luzes amarelas aos encontros mais informais, e até que ponto eles são aceitáveis como forma de relacionamento.

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Edição #19
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