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Sobre medos e esperanças

Sobre medos e esperanças

A violência continua entre nós, e eu ainda sinto dor, ainda sinto medo. Quero poder olhar para as histórias de felicidade, que nem sempre são muitas, mas que ainda aparecem como inspiração para aquilo que eu quero ver se tornar universal.

Murilo Araújo
André Pacheco

em dias em que a gente se vê numa situação que parece ser de completa impotência e tristeza diante da violência. Chega bater um desespero, secar a garganta. A homolesbotransfobia tá aí o tempo todo, continua violentando, matando, as notícias ruins chegam a toda hora, e a situação é tão grave e tão maluca que às vezes ressoam na minha cabeça todas aquelas vozes que volta e meia me dizem que a coisa não tem mais jeito mesmo, que a luta por mudança é em vão, que a gente tem que mudar de país se quiser viver, que não há nada mais a fazer a não ser contar com a sorte de não ser o próximo – não que isso seja mesmo uma sorte. Isso tudo amedronta.

Em nossa edição #16, escrevendo sobre essas coisas, falei de alguns nomes e histórias que a violência apagou, e comentei sobre a dor que isso provoca. Essa é uma angústia que tem me revisitado de maneira muito forte. Na edição #17, ao comentar sobre a criminalização da homofobia, no contexto das eleições, voltei a falar da violência e mencionei ter tido notícia de várias outras agressões nas duas semanas que passaram entre uma edição e outra. E a coisa não tem parado. Só enquanto eu escrevia esse texto, chegaram às minhas redes sociais notícias de pelo menos mais duas violências graves: o espancamento de uma menina lésbica, encontrada nua, amarrada e amordaçada, depois de ser torturada e ameaçada de morte; e o assassinato de uma mulher trans, encontrada amarrada, amordaçada, carbonizada e com um tiro no peito. Isso angustia, e dói, e eu sinto que morro um pouco na morte de cada uma dessas pessoas.

Isso tem sido tão mais forte nos últimos tempos, que, há algumas semanas, pela primeira vez, lidei com a sensação de medo de andar na rua. Não um medo qualquer que toma a gente naqueles horários mais perigosos, em ruas desertas, o medo que se tornou comum nessa violência generalizada em que a gente vive. Foi o medo quase paranoico de olhar pra todo lado achando que alguém poderia me agredir a qualquer hora, sem razão, apenas por se incomodar com a minha bermuda mais curta ou com o meu estilo mais afeminado de andar. Estava numa rua movimentada, num horário movimentado, aparentemente sem risco, mas gelei inteiro a cada pessoa que passou por mim olhando um pouco mais, ou a cada pessoa que se aproximou caminhando mais rápido atrás de mim. Quis chorar algumas vezes, com o ódio reverberando na minha cabeça, pensando que há quem viva diariamente nessa mesma paranoia, nesse mesmo horror, nessa mesma angústia. Pensando que enquanto eu estava ali, sentindo medo, alguém em algum outro lugar provavelmente estava sentindo o peso do soco, o grito da ofensa, o fio da faca. Pensando que o meu medo, em síntese, era medo de ser eu, era medo de existir.

Poucos dias depois, no meio disso tudo, de todo esse medo, de toda essa angústia, recebi uma mensagem de uma menina que conheci há algum tempo, uma menina de coração doce, com quem tenho contato de vez em quando. Ela já tinha falado, meio timidamente, que lia meus textos aqui, e que algumas coisas que escrevo tinham sido importantes para que ela lidasse com alguns conflitos sobre a sexualidade. Nesse dia, em particular, ela comentou que tinha visto um filme qualquer sobre homofobia, e que se lembrara de mim. E disse: “falo sempre do quanto o seu trabalho foi e é importante pra mim, mas eu nunca disse o quanto eu rezo para Deus colocar mais pessoas assim na minha vida e na de pessoas como eu. Me sinto sua amiga. Vibro com suas alegrias, entristeço com suas decepções, rio com suas histórias e sempre leio as coisas que você compartilha. Sei lá, me deu vontade de dizer isso”.

Eu chorei com o quanto aquilo foi bonito. Não por me sentir herói, não por me sentir melhor, ou por coisa do tipo. Chorei por sentir esperança. Aquela menina me fez acreditar um pouco de novo. Agradeci pelo carinho, disse do quanto aquilo era importante pra mim no meio de tanta tristeza e angústia... e ela me respondeu, por fim: “eu sei que nós vamos ser felizes”.

Desde então, parece que a vida tem sido um pouco melhor com tudo isso. No último fim de semana, fui invadido pela enorme felicidade de ver, enfim, realizado o casamento de duas amigas muito queridas, e foi lindo ver a celebração – e o reconhecimento da cidadania – de uma companhia e de um amor tão cheios de beleza, que eu tanto aprendi a admirar. Outro dia, li num grupo qualquer do Facebook o depoimento emocionado de um menino que ainda não saiu do armário para os pais, mas que estava um pouco mais confiante e feliz depois de ver a mãe repudiar os discursos odiosos de Levy Fidélix. Nos grupos de que participo, nos movimentos e nas ruas, em uma manifestação e outra, e mesmo no dia a dia, tenho sido constantemente reanimado por ver que não estamos sozinhos, que somos muitas e muitos, que somos maiores, que temos o sonho de um mundo mais justo, e que temos disposição e alegria para construí-lo, cheio de cor e de vida. Tenho tido esperança. O amor, a justiça, a liberdade e a felicidade valem a pena.

A violência continua entre nós, e eu ainda sinto dor, ainda sinto medo. Mas quero poder ter sempre essa mesma esperança, para não deixar o medo me paralisar. Quero poder olhar para essas histórias de felicidade, que nem sempre são muitas, mas que ainda aparecem como inspiração para aquilo que eu quero ver se tornar universal. Quero olhar pra elas para reanimar o sentido da busca por um mundo em que eu não mais morra na morte do outro, ou na minha própria. Um mundo em que eu possa ser feliz no sorriso do outro, e no meu próprio; em que eu possa amar o amor dos meus iguais; em que eu possa ser livre na liberdade dos meus iguais e dos meus diferentes. Sequer sei se verei esse mundo chegar, mas por mais que eu ainda tenha medo, eu também ousarei ter esperança. Em nome dela, continuarei caminhando... rumo à Civilização do Amor. Nós vamos ser felizes!

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Edição #18
Sobre medos e esperanças
Editorial

Sobre medos e esperanças

Murilo Araújo

A violência continua entre nós, e eu ainda sinto dor, ainda sinto medo. Quero poder olhar para as histórias de felicidade, que nem sempre são muitas, mas que ainda aparecem como inspiração para aquilo que eu quero ver se tornar universal.

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