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Pela liberdade de se vestir: o que o feminismo pode mudar na moda

Fora dos blogs e das manifestações de rua, o feminismo atinge a moda e começa a mostrar um significado muito mais forte do que simples cartazes na passarela podem dizer.

Mônica Alves
André Pacheco

uando pensamos na moda, pensamos na mulher. A associação com vestidos de alta costura, modelos maravilhosas ou um closet repleto de sapatos vem à mente em um segundo, e parece ser difícil pensar de outra maneira quando até a indústria voltada ao público masculino também trabalha a imagem atrelada à mulher dos sonhos. A maneira como ela deve se vestir, o tamanho que ela tem que usar e a atitude que ela precisa ter. Ela está aí para ser moldada, e a moda se serve muito disso como um fenômeno social que atinge todas as camadas da população, e cabe ao movimento feminista a tentativa de brecar um pouco essa maluquice consumista que vivemos.

Do ponto de vista do mercado, a moda é um setor econômico importante. Segundo a ABIT (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), estima-se que a indústria nacional tenha movimentado 58 bilhões de dólares em 2013, além de ser responsável por mais de um milhão e seiscentos mil empregos diretos no mesmo período. Para movimentar tanto, uma tendência de sucesso é uma tendência que precisa vender e gerar lucros. Como infelizmente nós vivemos em uma realidade onde a mulher é tratada como um objeto que pode ser facilmente comercializado, temos uma fórmula mágica. Vende-se a imagem da mulher perfeita para as mulheres, colocadas como imperfeitas.

Pela liberdade de se vestir: o que o feminismo pode mudar na moda

O que vestimos faz parte do nosso espelho para o mundo, e ao mesmo tempo em que vivemos repletos de opções, os estereótipos ainda permanecem. Rosa e azul são opostos, homens não usam saias e mulheres elegantes precisam calçar salto alto, seja confortável ou não. As minhas escolhas se limitam ao impacto que terão na minha aparência, e a moda acaba nos apresentando um mundo de possibilidades, enquanto também pode nos reduzir a um simples reflexo dos produtos que compramos. Posso usar o que eu quiser, mas não posso ser considerada uma mulher feminista se disser que gosto de moda – do mesmo jeito que uma militante do movimento vai ser acusada de ser feia e desarrumada.

Se pensarmos bem, sabemos que essa é uma indústria construída por mulheres fortes e geniais, como Coco Chanel e suas calças femininas em uma época que mulher só usava saias, ou a onipotente editora-chefe da Vogue Anna Wintour. Essa imagem feminina é, porém, colocada em cheque por retratos irreais com barrigas negativas e roupas desconfortáveis, muitas vezes apoiados em manipulações nas fotos e dietas abusivas para as modelos. Como não lembrar dos retoques em Lena Dunham ou do emagrecimento absurdo da modelo Filippa Hamilton em uma campanha da Ralph Lauren em 2009? A imposição dos padrões afeta o dia-a-dia de toda mulher, e a nossa beleza real está tão desfocada e impregnada nos padrões do mercado, que já não nos vemos mais como realmente somos, como mostra essa belíssima campanha da Dove.

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Chegamos a um ponto em que perpetuamos a procura de afirmação de muitas e dificultamos a luta de outras tantas que buscam uma mudança. É como se houvessem duas medidas: se você quer ser parte de uma tendência, precisa sofrer para entrar em um manequim 36, e se você for feminista, vai batalhar ainda mais tentando provar que isso não importa e está tudo bem com o tamanho 42.

Na tentativa de mudar, nos deparamos com vários equívocos que acabam alimentando alguns preconceitos com o termo feminismo. O “protesto” da Chanel na última Paris Fashion Week atirou o departamento de marketing na passarela com dizeres como “feminista mas feminina”, transformando o tema em notícia mas sem contexto nenhum. A visibilidade pode até ser positiva por um lado, como a Juliana Diniz do site Plano Feminino afirma neste artigo. Mas erguer alguns cartazes com frases batidas é muito fácil, ainda mais se forem levantados pelas maiores modelos do mundo. A crítica se confunde com o marketing, e a descaracterização do movimento acaba trazendo mais contras do que prós, sobrando um manifesto vazio.

A blogueira Antonella Restini, aponta a necessidade da mudança nos paradigmas da moda. “Acho que a associação do feminismo à moda é bem legal, mas tem que ser muito bem pensada. É bacana na hora e faz a gente parar pra pensar, mas quem está por trás dessa indústria não está ligando muito para a quebra de padrões”. Outro ponto que vale ser ponderado é em relação às classes sociais, pois ainda estamos falando de uma indústria extremamente elitista. “Falamos muito da imagem ligada à mulher rica, branca e heterossexual, quando quem mais sofre opressão é a mulher pobre e marginalizada. Por isso fico com o pé atrás”, destaca a blogueira.

Pensando em um campo para expansão de novas ideias, são inúmeros os exemplos de como a moda pode servir como palco de manifestações controversas e com visibilidade real, muitas vezes de forma sutil. Stella McCartney não usa nenhum produto de origem animal, Jean Paul Gaultier trouxe modelos transgêneros para a passarela, Vivienne Westwood já usou os seus desfiles para campanhas de cunho ambiental e político. O feminismo sério e revolucionário virou assunto na mídia especializada, ganhando espaço a cada dia e se tornando um respiro positivo em um meio muitas vezes considerado fútil. A Elle UK lança em dezembro uma edição especial que “reconstrói o termo” no projeto #rebrandingfeminism, e os resultados da ação se tornaram o projeto mais bem-sucedido da história da publicação nas redes sociais. Fica óbvio que este não é um território que passa despercebido, e usá-lo como plataforma de discussão é um meio mais do que válido para alcançar um público maior.

O feminismo está na moda, e isso assusta na mesma medida em que é revigorante. Aprender a lidar com as diferentes faces de um movimento é uma atitude complexa , não só por se tratar de mulheres, mas sim por mexer com uma das principais bases da nossa sociedade, que é o papel de gênero. Não há apenas um lado, como aprendemos desde pequenas. É possível ser uma mulher forte e ter a liberdade de escolher o que usar, como usar e de que forma usar. É possível se encantar com o poder do feminismo de Beyoncé e aplaudir o discurso de Emma Watson, ao mesmo tempo em que nos orgulhamos da jovem Malala Yousafzai e o seu Nobel da Paz. No fundo, ser feminista é ter a liberdade para escolher qual o seu interesse e de que forma você quer construir sua própria imagem de mulher forte e em quais ídolos vai se espelhar.

E é aí que a moda pode e deve entrar. Ter opções e saber quem você é são princípios básicos tanto na construção da personalidade quanto do estilo da mulher. Ela deve se adequar ao seu interesse, e o primeiro item que deveria compor o seu look do dia é a sua própria vontade, independente da grife, do tamanho ou da repercussão que isso possa ter. De saia justa ou não, ela sabe que é mulher, e a forma que ela vai demonstrar isso para o mundo depende de apenas uma pessoa. Ela mesma.

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Edição #18
Sobre medos e esperanças
Editorial

Sobre medos e esperanças

Murilo Araújo

A violência continua entre nós, e eu ainda sinto dor, ainda sinto medo. Quero poder olhar para as histórias de felicidade, que nem sempre são muitas, mas que ainda aparecem como inspiração para aquilo que eu quero ver se tornar universal.

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