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O fora Dilma e a vida de gado

A pergunta que eu me faço constantemente neste período eleitoral é: a quem interessa, de fato, jogar ovos e tomates em Dilma e tirar o PT do poder?

André Pacheco
Bruno Legitimo
O fora Dilma e a vida de gado

Eu sou novo, não tenho nem 30 anos. Nasci em meio à hiperinflação da era Sarney, e lembro perfeitamente da minha família enchendo dois carrinhos de compras no começo do mês e lotando o freezer de carne. “É porque amanhã vai tá mais caro”, explicava o meu avô com certa calma enquanto eu não via lógica alguma na gente ter que comprar todas as carnes do mês duma vez. Vem à memória, vagamente, a imagem de Ulysses Guimarães levantando a Constituição de 1988 na capa de algum jornal, e eu nem me dava conta da importância daquilo. Também me lembro de quando o Collor foi eleito como um salvador da pátria, e alguns anos depois, era expulso com todo tipo de xingamento possível. O tal do impeachment, palavra que eu tinha dificuldade pra pronunciar e até hoje recorro a algum dicionário pra escrever corretamente. Também teve o Plano Real e a sua tabelinha de conversão, que deu estabilidade econômica e colocou a inflação sob controle. E era mais uma moeda que àquela altura eu nem lembrava mais o nome de todas que passaram pelas minhas mãos de criança. Eu só achava estranho ter uma moeda chamada cruzeiro e nunca ter tido uma chamada atlético. Coisa de criança mineira.

Mas na minha pouca vida, nenhum desses momentos anteriores me causam mais comoção hoje do que o que aconteceu na tarde duma quinta-feira há quase doze anos. Talvez a posse de Lula, em 1º de janeiro de 2003, tenha sido o momento mais extraordinário da nossa história recente. E talvez, caso a minha suposição esteja certa, isso só será devidamente reconhecido em algumas décadas. Quando o sociólogo e respeitado catedrático Fernando Henrique Cardoso passou a faixa presidencial ao sindicalista e ex-torneiro mecânico Luiz Inácio Lula da Silva, era dado o pontapé inicial para um novo Brasil – aquele Brasil que eu tanto escutei na minha infância e pré-adolescência, o “país do futuro”, começava de fato.

A impressão que eu tenho, é que antes do Lula, a gente estava fadado a viver em ciclos viciosos de estagnação econômica, exploração do povo e instáveis alternâncias entre suspiros de democracia e governos tirânicos. Mas, principalmente, que a gente teria que viver uma subordinação quase servil às potências ocidentais, seja à Inglaterra na época colonial ou aos Estados Unidos ao longo do século 20. Éramos tão subordinados, que até um golpe de estado em 1964 os norte-americanos traçaram e colocaram em prática aqui, com a enfadonha justificativa de nos proteger de um hipotético avanço comunista num mundo polarizado entre os autoproclamados mocinhos capitalistas e os vilões da ex-URSS.

Com a posse de Lula, eu tenho a verdadeira impressão de que, enfim, nos foi dada a possibilidade de romper um pacto que nós, brasileiros, fomos obrigados a fazer com as nossas elites sanguessugas desde os tempos coloniais. Porque, em oito anos de governo Lula e, também, nestes quatro de Dilma, o projeto político do PT conseguiu o que parecia utópico desde Getúlio Vargas – mantendo toda e qualquer ressalva, que fique claro. Dar ao brasileiro, principalmente ao mais pobre, autoestima. E esse talvez tenha sido o maior pecado do PT. Mas, até onde essa autoestima vai?

Vale até mandar xingar a presidenta na abertura da Copa do Mundo

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Quando eu falei de elite sanguessuga, eu não falei da classe média urbana que viaja com suaves prestações pra Europa uma vez por ano, porque essa classe média – inclusive, a classe social que eu faço parte – não passa de povo no fim das contas, que nem os pobres que ela tende a desprezar por receberem a ajuda de custo do Bolsa Família. Eu falo de uma elite invisível, que existe e nunca deixou de estar presente, e que abre mão de qualquer estratégia para a implantação de sua agenda e propagação de sua ideologia. E, pra isso, vale tudo. Vale tratar, através da mídia, com dois pesos e duas medidas, a corrupção na esfera política. Vale usar de todos os artifícios para mudar os rumos de manifestações populares e, como consequência, aumentar a tensão entre a classe média e os pobres. Vale até mandar xingar a presidenta na abertura da Copa do Mundo, que, não à toa, foi um dos pilares do PT na construção da nossa autoestima.

Não que o PT seja imaculado. A corrupção existiu, mas ao contrário do que fora muito bem propagado pela mídia, ela foi combatida. Eu não acredito que qualquer governo seria capaz de permitir a condenação da cúpula de seu partido ao mesmo tempo em que fortaleceu as instituições responsáveis em vigiar a forma como o dinheiro público é tratado. E isso o PT fez. Não que o governo Dilma não tenha deixado a desejar em vários pontos, o que daria pra preencher páginas e mais páginas de texto. Seja em decisões micro e macroeconômicas, seja na forma como se conduziu as políticas de direitos humanos e minorias, dou a Dilma o que de Dilma, a Lula o que é de Lula. No fim, todo esse ódio ao PT pode soar como cegueira. A pergunta que eu me faço constantemente neste período eleitoral é: a quem interessa, de fato, jogar ovos e tomates em Dilma e tirar o PT do poder? Pra todo gado, existe um matadouro. E cabe a nós, enquanto nação, escolhermos se vamos renovar aquele pacto com uma elite que não está nem aí com o nosso bem estar, ou se vamos continuar descobrindo como pode ser bom ser brasileiro, mesmo com um problema aqui e acolá.

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Editorial

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