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Kiss Me Once Tour e o verdadeiro manifesto ARTPOP

Kiss Me Once Tour e o verdadeiro manifesto ARTPOP

Com conceito surrealista e estética de escola de design alemã, Kylie continua na vanguarda quando o assunto é turnê.

Renato Cabral
Vic Matos

Com o seu um metro e meio, Kylie Minogue comanda multidões em arenas gigantescas ao redor do mundo. Parece inimaginável para alguns, mas se existe alguém que é uma verdadeira showgirl, esse alguém é a australiana. Há duas décadas e meia encantando, a cada anuncio de nova turnê um burburinho se cria. Se Kylie cria tendências na música, não poderia ser diferente nos palcos. No final do mês de setembro, ela deu o ponta pé inicial para a sua mais recente turnê, a 14ª da carreira, a “Kiss Me Once Tour”, contando, até mesmo, com uma apresentação impecável no iTunes Festival. A expectativa aqui não era apenas grande pela presença de Minogue nos palcos novamente, mas sim no que traria de novo.

Muitas vezes, é bem possível de se imaginar o que será levado aos palcos por Kylie. Um vocal que evolui a cada show, plumas e muita sensualidade são de praxe. E conceitualmente, tudo baseado no álbum que a turnê divulga. Caso, da “Aphrodite Les Folies”, de 2011, inspirada nas diversas divindades que representam o amor, a fertilidade e a sensualidade feminina através das artes e cultura.

Porém, para “Kiss Me Once”, lançado em março desse ano, parecia não haver perspectiva. “Uma grande diferença na Kiss Me Once Tour era que eu realmente não sabia qual caminho ela ia tomar, o álbum não tem um conceito por trás”, comenta o fã e diretor de arte Vitor Almeida. Com seu álbum mais genérico, a fanbase, os chamados lovers, ficaram sem saber para que lado a cantora iria. Mas Kylie já avisava em entrevistas que seria um show menor, mais intimista e muito inspirado na “Anti-tour”, sua turnê realizada em 2012, na qual se dedicava a cantar somente b-sides e faixas nunca lançadas.

A desistência de comandar mais uma temporada do “The Voice”, seja no Reino Unido ou Austrália, foi um verdadeiro alívio para os fãs da cantora. Assim, Kylie poderia se dedicar inteiramente àquilo que sempre foi um dos grandes impulsionadores de sua carreira e fonte de referência para diversos artistas, seus espetáculos. Muito bem coordenada pelo diretor artístico William Baker, um de seus melhores amigos, as referências que as turnês de Kylie trazem são sempre um deleite. Na “Fever Tour”, de 2002, ela e Baker exploraram os longas “Metrópolis”, de Fritz Lang, e “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick, em alguns atos. O cinema e as artes plásticas sempre foram ponto marcante na trajetória de referências da cantora, tanto na carreira com seus videoclipes como nas suas turnês.

Kiss Me Once Tour e o verdadeiro manifesto ARTPOP
ReproduçãoThe Mae West Room, de Salvador Dalí.

E claro, a “Kiss Me Once” não ficaria para trás. Trazendo o surrealismo de Salvador Dalí e René Magritte logo sua abertura, com um sofá em formato de boca e quadros que trazem os olhos de Kylie no telão expandindo o palco, que remete aos trabalhos de Piet Mondrian, de uma forma a não somente apreciar um show, mas sim uma réplica pop da arte. Ainda somos impactados pelas ilustrações sapecas de Hattie Stewart e um conjunto de coreografias associadas à plasticidade baseadas em trabalhos de Oskar Schlemmer da escola de design, artes plásticas e arquitetura de vanguarda alemã, a Bauhaus. Todos esses elementos tornam essa última empreitada visionária da cantora e sua equipe, um prato cheio para que outros artistas venham beber dessas fontes. Sem dúvida a junção de arte e pop que Lady Gaga tanto buscou, a australiana resolveu como colocar em prática rapidamente e sem muito papo furado.

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Já é costumeiro alguns artistas internacionais, e até mesmo brasileiros, buscarem em Kylie ideias para seus shows. Beyoncé copiou a entrada inspirada em “Metrópolis” da abertura da “Fever Tour”, Madonna certamente se inspirou na perfomance de “Wow”, da “X Tour”, para sua performance de animadora de torcida em “Give Me All Your Luvin’” na “MDNA Tour”. Paula Fernandes cantando sentada em uma lua suspensa é de “Somewhere Over the Rainbow”, da Showgirl Homecoming. Ivete Sangalo aparecendo no palco sentada em uma motocicleta sensualizando é referência direta à “Red Blooded Woman”, na única apresentação ao vivo integral do álbum “Body Language” feita por Kylie. A própria Ivete admite a inspiração e relembra que estava presente no show de Minogue, onde se apaixonou pela ideia.

Isso que nem chegamos a falar em questões de infraestrutura dos palcos. “Kylie é sempre alguém que as outras cantoras pop se inspiram na hora de sair em turnê. Um exemplo disso é a Aphrodite Les Folies, com seu formato triangular em 2011. Em 2012 tivemos Madonna e Lady Gaga utilizando esse mesmo conceito de espaço VIP dentro das passarelas”, complementa Vitor Almeida.

Ser fonte de inspiração para o universo pop é um papel que a cantora abraça sem medo. Não há indignação quando é copiada, não existem cutucadas nas redes sociais. Com mais de 25 anos de carreira, é possível notar que Kylie gosta mesmo é de referenciar a si mesma em seu trabalho. Aproveitando o relançamento de seus primeiros álbuns em vinil e CD pela PWL, a “Kiss Me Once Tour” traz um bloco dedicado ao retorno às origens. Clássicos como o seu primeiro grande hit, “Locomotion” e ainda “I Should Be So Lucky”, “Hand On Your Heart” e “Got To Be Certain”, como um presente aos fãs mais hardcore.

Kiss Me Once Tour e o verdadeiro manifesto ARTPOP
ReproduçãoA influência Bauhaus na Kiss Me Once Tour.

Para Junior Faria, que acompanha há bons anos a carreira de Minogue, a capacidade de trazer sem medo o passado em todas as suas turnês é um ponto forte. “Sempre espero um bom equilíbrio. Músicas clássicas dos anos 80 outras menos conhecidas, mas com potencial. Assim eu não lembro só do último CD, mas sim de toda a carreira. Sempre gosto de versões novas de músicas antigas”, conta.

Não somente idolatrada pelos seus fãs, Kylie é sempre elogiada pela simpatia com que trata a sua plateia. Às vezes princesa, e em outros momentos deusa do pop. Seja como for, Kylie e sua equipe constroem espetáculos insanos com referências nas artes de uma forma que só mostra que arte e pop não só podem conviver harmonicamente, mas como devem.

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Editorial

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Murilo Araújo

A violência continua entre nós, e eu ainda sinto dor, ainda sinto medo. Quero poder olhar para as histórias de felicidade, que nem sempre são muitas, mas que ainda aparecem como inspiração para aquilo que eu quero ver se tornar universal.

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