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Como mulheres, nós também devemos ir à luta

Como mulheres, nós também devemos ir à luta

Eleger gorda, magra ou de cabelo enrolado? Mulheres, podemos ser melhores do que isso.

Ana Paula Cruz

- Você não pode concorrer a esta vaga, ela é apenas para homens.

- Mas por que mulheres não podem entrar nesse processo seletivo?

- Olha, fica só entre nós, mas o comentário da diretoria é que mulher não pode porque engravida.

E foi nesse exato momento, quando eu tinha cerca de 19 anos e ainda trabalhava numa empresa super machista, que a minha ficha caiu. Aquelas palavras me fizeram entender que o feminismo não era apenas o que eu havia aprendido nas aulas de história e filosofia, um movimento de mulheres das décadas passadas que deveríamos agradecer por podermos votar, trabalhar e usar calças.

O machismo até então existia para mim apenas nos comentários maldosos que eu ouvia na rua, aqueles que fui ensinada a ignorar desde a primeira vez que ouvi um, aos 12 anos, de um homem que deveria ter mais de 30. Mas naquele exato momento em que o sexismo havia atingido o meu bolso, abri os olhos para tudo o que ele poderia representar na sociedade, e principalmente em relação à nós, mulheres.

Segundo pesquisa realizada esse ano pelo Caged – Ministério do Trabalho e Emprego, o salário de admissão de mulheres no mercado de trabalho é 15,4% menor que o dos homens - mesmo tendo um aumento 0,2 pontos percentuais maiores que o salário deles, esse índice ainda é 1,2% menor que o registrado em 2013, que foi de 16,6%. Por que ao invés de estarmos caminhando para um ambiente de trabalho igualitário, regredimos?

Ainda essa semana em uma conferência de celebração à Mulher, o CEO da Microsoft Satya Nadella, num discurso infeliz, disse que o ideal de mulher no mercado de trabalho é aquela que não pede aumento. De acordo com ele, além de trazer um “karma bom”, esse “superpoder” representa um profissional que se deve confiar.

Mas por que falar sobre isso nesta edição? Nos últimos dias, com a corrida presidencial, testemunhamos um fato inédito: Dos 7 principais candidatos que disputavam o cargo nos debates das maiores redes de televisão do país, 3 eram mulheres, uma delas Luciana Genro, que se manifestava abertamente como uma feminista que luta pelos direitos das mulheres e dos LGBTs. Ao final da contagem de votos, as mulheres estiveram à frente, ocupando primeiro (Dilma Roussef), terceiro (Marina Silva) e quarto lugar (Genro) na disputa.

Contudo, nos deparamos com matérias que ao invés de questionar a capacidade dessas mulheres de exercer o cargo, estavam mais preocupadas em descobrir quem seria a musa, quais os seus segredos de beleza ou quais as melhores para se sair. Além disso, neste segundo turno, já surgem páginas nas redes sociais que incentivam o voto contra a presidente Dilma por ela ser feia e porque o candidato Aécio Neves é o “único capaz” de dar ao Brasil uma primeira-dama digna de estampar matérias de jornais.

Isso não é um editorial em defesa à presidenta Dilma Rousseff, isso é um manifesto: Mulheres, podemos sim ser melhores do que isso! Temos que aprender a nos questionar todos os dias. Eu realmente faço isso por gosto ou por ser imposto para que eu faça? O meu salário está de acordo com o que eu mereço? As políticas públicas da minha cidade pensam em mim como cidadã? A pessoa que quero eleger vai trabalhar para que eu possa exercer meus direitos individuais?

Falamos aqui no Vestiário, em muitas edições, o quanto o público LGBT sofre na luta diária por seus direitos e com esse manifesto quero acordar as nossas leitoras também. Nó também devemos fazer parte desta luta, nós também somos uma “minoria”, e por isso mesmo, devemos sim ser uma minoria pensante em todas as discussões para tornar a sociedade melhor e mais igualitária para todos.

Faço referência aqui, ao inspirador discurso feito por Emma Watson como embaixadora da ONU Mulheres: Se não for eu ou você, quem? Se não for agora, quando? Quantos mandatos e quantas eleições deverão se passar até que entendamos que o principal protagonista da mudança em nossa sociedade somos nós mesmos?

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Edição #18
Sobre medos e esperanças
Editorial

Sobre medos e esperanças

Murilo Araújo

A violência continua entre nós, e eu ainda sinto dor, ainda sinto medo. Quero poder olhar para as histórias de felicidade, que nem sempre são muitas, mas que ainda aparecem como inspiração para aquilo que eu quero ver se tornar universal.

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