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Quando o tudo parece nada e o pouco parece muito

Parece ser sempre assim: no começo de um relacionamento vemos o parceiro como um super-herói. Mas uma hora ou outra, a fantasia é arrancada.

Marcela Silva
Bruno Legitimo

Falar sobre relacionamentos afetivos exige uma tentativa de compreensão apurada. Observar em volta, prestando atenção em cada detalhe, faz muita diferença na hora de formar as ideias sobre esse assunto. Lendo alguns textos e conversando com algumas pessoas próximas, para saber o que elas pensam a respeito de um tema com vertentes tão variadas, me propus a trazer algumas reflexões.

Primeiramente, eu sei que relacionamento é algo complicado. Sempre terá problemas. Sempre haverá os bons e os maus momentos. Sempre será preciso ter paciência e compreensão. Mesmo sabendo de tudo isso, ou, pelo menos, supondo que sabemos, por que nós ainda insistimos em arriscar? Não sei.

Quando o tudo parece nada e o pouco parece muito
Bruno Legitimo

Comigo aconteceu várias vezes, como disse no texto anterior, sou uma acumuladora, logo, eu espero o melhor dos outros, crio expectativas falsas e me decepciono, mas essa sou eu. E tantas foram às vezes que aconteceu que, em algum momento, pensei que fosse mudar. Estava sempre crente de que eu aprendi com os erros. Mas não. Todos os meus relacionamentos foram enfeitados com drama, justamente pela criação gigantesca de uma ficção sobre a pessoa que estava comigo.

Sempre que troco uma ideia com outros a respeito disso, muitos disseram cometer o mesmo “erro”, acreditar no próximo. Digo erro entre aspas, porque isso, muitas vezes, traz o pior do ser humano. O excesso de confiança pode gerar algo muito maior que cumplicidade, afinal, o ser humano erra, falha e isso pode acontecer repetidamente. Me intriga o fato de, às vezes, darmos com a cabeça no muro de novo, e ainda assim, não parar de tentar ultrapassar essa barreira.

“A mudança está dentro de nós, porque projetamos o perfeito na pessoa por quem nos apaixonamos”, diz Francesco Crisci, 23 anos, publicitário e que gosta de pessoas, sem distinção de gênero. “Depois de conviver e perder a paixão inicial, começamos conhecer, realmente, quem é o outro”, completa. O velho e taxativo “felizes para sempre” não seria nada mais que ficção, isso é obvio, mas será que é pelo fato de conhecermos realmente a pessoa depois de um certo tempo de envolvimento? “Tendemos a culpar o outro por algo que nós somos responsáveis”, diz Francesco. Quando ouvi essa resposta, repassei todos os relacionamentos que tive, de romances a amizades, e me indaguei: seria isso, o espelho de frustração?

Já engatilhada na conversa, chamei outra amiga. Totalmente diferente do primeiro papo, Bruna Pires, 22, estudante de jornalismo, acha que “expectativas a gente cria, porque o novo empolga”. Mas, uma pessoa não deve completar a outra, não se deve sentir a necessidade de suprir as necessidades no outro. Ela me contou que em um relacionamento passado, acabou criando um personagem para alimentar suas fantasias e desejos. O resultado? Acabou “quebrada”. “É mais dependência que amor”, conclui.

Quando o tudo parece nada e o pouco parece muito
Bruno Legitimo

Mas o assunto dá pra ir além da visão de um punhado de jovens e aspirantes de um final feliz. Acabei pensando em levar esse assunto em uma roda de pessoas, digamos, mais experientes. Existe algum segredo na convivência, ou isso é um estereótipo que nunca saiu da casca? Ou seria amor de verdade, que deixa todas as coisas mais fáceis?

Nesse círculo mais experiente, foi o Ricardo* quem falou sobre relacionamentos. Mais de 20 anos casado, namorando com a mesma mulher desde os 15 anos, músico de carreira profissional, se diz apaixonado pela esposa, apesar de admitir que não deixa de reparar nas outras mulheres que vê. Diferente da esposa Marina*, que alega nem olhar para o lado, porque o marido consegue suprir todas as suas necessidades, mas aceita o comportamento do dele, mesmo sabendo que não é fácil ter um relacionamento com uma pessoa envolvida no mundo artístico. Se ele mudou durante o longo relacionamento? Ela diz que não e, se mudou, foi pra melhor.

Mas, e a visão de alguém que já se encontra na terceira idade? “Amar é cuidar até quando não se está feliz?”. Então felicidade e amor não são a mesma coisa? Esse amor que perdura vale tanto a pena, que se transforma na convivência, que se torna um respeito, se torna cumplicidade, se torna lealdade. Mesmo não querendo estar no mesmo lugar, mesmo já não sentindo desejo, mesmo que a pessoa não desperte mais vontades no outro, eles estão ali, juntos, se conhecendo cada dia mais, vivendo coisas que só eles sabem, se cuidando da melhor forma que podem.

Li há pouco uma matéria que falava sobre dois idosos que vão se suicidar, através de eutanásia, na Bélgica, pois têm medo de ficar sozinhos. Ambos estão saudáveis, apesar da idade avançada, mas o receio de ficarem um sem o outro, os fez acreditar que a morte seja a melhor saída. Seria isso uma prova de amor ou a incerteza da vivência em um mundo sem alguém para compartilhar até os maus momentos com você?

De todas as expectativas que coloquei nas respostas, nunca imaginei que seriam tão satisfatórias. Ideias e opiniões completamente diferentes, só provando que, cada dia mais, existem menos respostas para esse tipo de pergunta. Você não sabe o que é ter saudade até namorar à distância. Você não sabe o que é amor eterno até ter um filho. Você não sabe o que é estar seguro, até ter alguém pra vida inteira.

Será que a frustração, então, de não termos as pessoas que fantasiamos de super-heróis, seja o erro real que cometemos, e não o ter fé no ser humano?

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Edição #17
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