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Entre a dor e a revolta, as histórias que a homofobia apagou

É esse o lado mais cruel da violência: ela desumaniza. Aniquila os sonhos, os projetos, a história – essa história que eu desconheço, mas que ainda sei que existe, de algum modo, e que não deveria ter sido tão brutalmente apagada, em nenhuma circunstância nem por qualquer razão.

Murilo Araújo
André Pacheco

Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco, 18 de novembro de 2012. Lucas Cardoso Fortuna, 28 anos, é encontrado morto, com o corpo apenas de cueca flutuando entre as praias de Calhetas e Gaibu, apresentando sinais de tortura, espancamento e esfaqueamento. A causa final da morte foi afogamento, o que indica que Lucas foi jogado no mar, depois de violentado. Ele era jornalista, gay, militante histórico do movimento LGBT, fundador do Grupo Colcha de Retalhos, que pautava a questão da diversidade sexual em Goiânia, onde vivia – estava em Pernambuco apenas para atuar como árbitro em um campeonato de vôlei. Todos os sinais da morte indicavam um crime motivado por homofobia... mas a polícia descartou a hipótese e concluiu que se tratava de um caso de latrocínio. A carteira e o celular de Lucas foram facilmente encontrados; os sinais de crueldade eram evidentes... mas a polícia descartou homofobia. Era latrocínio.

Entre a dor e a revolta, as histórias que a homofobia apagou
André Pacheco

Seropédica, Rio de Janeiro, 19 de novembro de 2012. A Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro recebia um encontro de estudantes envolvidos com a militância LGBT, entre eles, membros do Grupo Colcha de Retalhos, que receberam, durante o evento, a notícia de que o amigo havia sido vítima da violência que eles tentavam combater. Eu, que participava do evento e não conhecia Lucas, fiquei sabendo do ocorrido durante uma mesa de discussões logo no começo do dia, quando uma amiga, emocionada, leu uma carta em sua homenagem.

O sentimento ali era misto. Havia em todo mundo a indignação que era minha velha companheira, que eu já sentia e compartilhava a cada caso de violência contra um LGBT. Mas havia, especialmente entre os amigos de Lucas, um sentimento que, por mais óbvio que parecesse, ainda não tinha ficado marcado pra mim: a dor, a tristeza. Havia o sentimento da perda de alguém que era amado. Havia a constante menção ao sorriso sempre aberto de Lucas, e a imaginação dolorida do modo como aquele sorriso fora apagado. Presenciar aquilo foi coisa que mudou definitivamente a minha percepção da homofobia. Ser envolvido por aquele sentimento inseriu na minha vida uma dimensão de mais humanidade, mais empatia, e hoje não consigo mais ver um caso de violência sem pensar nisso, sem sentir isso: a dor, a perda.

Tenho passado os últimos dias completamente envolvido por essa sensação. No último dia 10, na cidade de Inhumas, Goiás, mais um LGBT foi assassinado. João Antônio Donati, de 18 anos, foi encontrado – segundo os primeiros relatos – com sinais de espancamento, asfixia, pernas quebradas, talvez o pescoço, e a boca cheia de papeis. Um deles, supostamente, carregando a frase “vamos acabar com essa praga”.

O crime ganhou repercussão imediata, tendo sido denunciado como crime de ódio homofóbico, levantando a já recorrente discussão sobre a criminalização da homofobia, que tem estado em pauta nestes tempos de corrida eleitoral. E aí começaram as controvérsias: em menos de 24 horas, a polícia supostamente descobriu um documento de identidade supostamente esquecido perto do local da morte – documento que sequer havia sido mencionado antes – levando a um suspeito que confessou o crime: um agricultor, que não se identifica como gay, que afirmou ter feito sexo com João, matando-o por estrangulamento após um suposto desentendimento. Laudos oficiais, em pouco tempo, transformaram os sinais de espancamento em “marcas de hematoma”. O bilhete de ódio foi negado. E a hipótese de homofobia foi imediatamente descartada. Assumiram o caso como “crime passional”.

Tudo isso me trouxe à tona o sentimento da morte de Lucas. Me trouxe à tona também o sentimento da morte de Kaique dos Santos, de 17 anos, encontrado atirado de um viaduto em janeiro deste ano, com dentes quebrados e uma barra de ferro atravessada na perna, numa morte que a polícia classificou como suicídio, por causa de relatos de tristeza e depressão presentes no seu diário. Tudo me trouxe à tona o sentimento dessas histórias que se repetem, tendo em comum a tentativa constante de apagar as evidências da homofobia que grita nas mortes de tantos LGBTs. E eu não consigo acreditar. Como canta Elis: “a verdade não rima”.

Passei boa parte dos últimos dias bastante perturbado, imaginando o corpo de João apanhando. Penso na agonia, no peso do soco, nas mãos apertando o pescoço e roubando o ar, na dor das pancadas. Penso no que ele pensava, e na sensação de saber que se vai morrer. Penso na boca impotente sendo invadida por papel e por raiva. E dói.

Eu não conhecia João. Não sabia quem ele era. Nunca tive notícia da sua existência até o dia da sua morte. Não sei se era uma pessoa boa ou ruim, honesta ou sem caráter, promíscuo ou virgem, se ajudava ou não em casa – não que isso fosse fazer alguma diferença. Sei apenas que ele era gay, como eu. E é aí que mora a controvérsia mais maluca em toda a história: quem matou João certamente também não o conhecia, e certamente o matou apenas por ele ser gay. Ainda que a história do agricultor seja verdadeira, é difícil não reconhecer a homofobia (ainda que internalizada) de alguém que se relacionou com outro homem, mas que nega o seu desejo, e que diz que matou porque a vítima “tentou fazer gracinha” e assumir a posição ativa no sexo – como foi a justificativa dada em depoimento.

E é esse o lado mais cruel da violência: ela desumaniza. Aniquila a humanidade, a história, a existência. Faz desaparecerem os sonhos, os projetos, os amores, as esperanças. Apaga o amigo que Lucas era, e que faz falta ao Colcha de Retalhos; apaga o filho que Kaique foi, e que faz falta a sua mãe – assim como faz falta Alexandre Ivo, mais um caso de violência homofóbica, contra um menino de 14 anos que ficou horas sob tortura. A violência não se importa com quem João era, não leva em conta a vida interrompida aos 18 anos, nem os amigos, ou a família, ou a história dele – essa história que eu desconheço, mas que ainda sei que existe, de algum modo, e que não deveria ter sido tão brutalmente apagada, em nenhuma circunstância nem por qualquer razão.

Me incomoda ver que o tratamento da polícia – e de boa parte da sociedade – dá seguimento a esse curso de desumanização, numa violência tão grave quanto o ato de tirar a vida. Qual a real preocupação com a resolução do caso? Ao que me parece, não interessa que uma pessoa tenha sido morta, e que tal morte precise de justiça. A primeira preocupação é provar que não houve homofobia, calar a revolta das pessoas, pôr panos quentes sobre o debate da criminalização... Mesmo que isso implique colocar sobre ele a culpa pela morte dele. Afinal de contas, esses viados não estão preocupados com nada, nem com a própria vida, só com sexo mesmo. Quem mandou ser um depravado? Quem mandou trepar com um desconhecido?

Isso tem que acabar. Tem que acabar, porque não faz sentido que o ódio continue tirando das pessoas o direito de existirem e de serem quem elas são. Porque não faz sentido que tantas histórias sejam simplesmente apagadas – histórias que eu desconheço, mas que também são minhas: as histórias de João, Lucas, Kaike, Alexandre, Karen, Fernandinha, Michele, Paloma, Rayka, Samuel e todas as outras mais de 200 pessoas LGBT mortas só este ano, segundo contam as estatísticas, em sua maioria travestis e transexuais, que seguem ainda mais invisibilizadas. E por mais clichê que isso pareça, é preciso parar de enxergar as estatísticas frias, pra sentir mais dor. Não uma dor qualquer, que lamenta, se amedronta, e se esconde. Mas uma dor indignada, que se identifica e se movimenta para alguma mudança. Não a dor do luto dos minutos de silêncio, porque já há silêncio demais nos cemitérios. Mas a dor que grita: chega! Basta de violência! Isso tem que acabar.

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Edição #16
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