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Gaga encara a arte pelo pop

Gaga encara a arte pelo pop

“Cheek to Cheek” nos faz lembrar que a música arte e a música popular podem realmente andar juntas e ainda resignificar qualquer coisa, até mesmo uma carreira problemática.

Renato Cabral

Já dizem sempre, quanto mais alto o pedestal, maior será a queda. E era uma questão de tempo para Lady Gaga conhecer o chão, ainda mais depois de sucessos globais com seus três primeiros álbuns, considerando “The Fame Monster” como tal. Admito que sempre fui um crítico ferrenho da carreira da moça.

As “homenagens” que mais parecem cópias, o eterno discurso cansativo e exageradamente artístico, quando na verdade a sua sonoridade trabalhada no europop já havia sido realizada anteriormente, e suas “performances” relembravam nomes como Grace Jones e David Bowie. Sem falar em todo e qualquer assunto em que a coloque frente à Madonna. Afinal, com a rainha não se mexe. E olha que sou um dos que nem mantém tal idolatria por ela também.

Falar sobre Lady Gaga e “ARTPOP”, quase que um ano depois do lançamento, talvez soe como insistir em um assunto que todos já estão exaustos de abordar e discutir. Mas acredito que a chegada de sua nova parceria com Tony Bennett, “Cheek to Cheek”, nos possibilita retornar à carreira de Germanotta e analisar o percurso desastroso e injusto que seu último trabalho solo acabou sendo e gerando para ela, mas também em como essa parceria com Bennet acontece em um timing perfeito.

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“ARTPOP”, como a própria fala na música-título, pode significar muitas coisas. E acabou significando um desastre noticiado. Desastre de vendas se comparado com seus trabalhos anteriores. Porém, num geral, o trabalho que vendeu até o momento mais de 2 milhoes e meio de cópias ao redor do planeta está bem longe de ser todo esse flop todo. Alcançar esses números atualmente, não é para qualquer uma. É uma injustiça chamá-la de fracassada.

Aliás, é bem aí que talvez resida o problema dessa era musical da artista: a mídia. Desde seu início, existiu um certo boicote à Gaga. Não é possível entender bem o que causou isso, mas não se duvida que público e mídia acabaram saturados da estrela, que sempre acaba noticiada negativamente. E aos poucos, a equipe de Gaga também começou a se desfazer, como profissionais saindo da Haus of Gaga, o cerne criativo de sua carreira.

O álbum é por si só é o que os americanos chamam de “statement”. O momento em que Gaga decide parar e refletir sobre temas pessoais, sua própria obra, carreira e inspirações. É visível e audível que ela gostaria de ter avançado e quebrado algumas barreiras e tornado sua sonoridade ainda mais experimental, reverberando algo de “Born This Way” com algo melhor trabalhado. Como bem se comenta, os produtores queriam algo exageradamente pop e chiclete.

Nessa mistura de objetivos divergentes, os dela e os dos produtores, Gaga construiu sua arte baseada no pop. E de modo algum soa ruim. “ARTPOP” é uma pequena joia na carreira da artista. É um trabalho que cresce, mas que devido a uma campanha de divulgação desastrosa, singles sem expressão e pouca promoção, se viu valorizado por menos que alguns quadros pintados por senhorinhas para feiras locais.

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Deixando um pouco de lado esses conturbados meses que Gaga vem passando. A cantora parece passar por um momento necessário de renovação ao se aliar ao gentleman Tony Bennett para o já citado álbum de duetos de jazz, que será lançado mundialmente nesse mês de setembro. A inspiração para a sonoridade parece mergulhar em canções bem populares do gênero musical, como as de Cole Porter.

Longe de ser uma cantora para esse tipo de canção, é inegável que Gaga é esforçada e se joga de corpo e alma. Tão de corpo que encarnou visualmente uma diva dos anos 80, refletindo um pouco de Donna Summer, inclusive. E mostra-se assim por tudo, dos materiais de divulgação até nas entrevistas de divulgação realizadas.

Mesmo que até o momento a dupla tenha mostrado canções regulares (“Anything Goes” é a melhorzinha, de longe), sem muito carisma, é interessante perceber que o pop e um gênero musical tido como um tanto pomposo e elitista (pontos que o jazz nunca foi, mas acabou adquirindo com o tempo) se juntassem. Um hibridismo perfeito de dois gêneros musicais e que só nos faz lembrar que a música arte e a música popular podem realmente andar juntas e ainda resignificar qualquer coisa, até mesmo uma carreira problemática.

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Ainda que soando pouco promissor e não ser direcionado exatamente aos fãs de Gaga, menos ainda aos fãs de Tony, é a oportunidade perfeita para que a cantora tome fôlego fora de sua desastrosa arte pop.

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