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A teologia de Inês Brasil

A teologia de Inês Brasil

Inês incorpora uma espécie de “teologia da liberdade”, cujos únicos princípios são amar a Deus e aos irmãos, sem ver a quem. Tudo com uma sinceridade incontestável, de modo que ninguém poderia – ou conseguiria – dizer que a fé dela é menos verdadeira ou legítima.

Murilo Araújo
Breno Rodriguez

Há algum tempo, fui a uma festa em que ia acontecer um show da Inês Brasil. Poucas vezes na vida estive em lugares tão lotados quanto naquele dia, e ouvi mencionarem que aquela foi uma das maiores bilheterias da boate onde o tal show aconteceu. A mulher é um verdadeiro acontecimento. Sem ter entrado no Big Brother Brasil, tendo apenas um vídeo de inscrição que viralizou, ela alcança hoje o sucesso que nenhum dos ex-participantes do programa conseguiu ou conseguirá.

O show não era nenhuma superprodução, tendo poucos elementos, sem precisar de muita coisa para ser divertido: uma ou outra música dublada, em maior parte remixes e mashups do vídeo clássico; quatro bailarinos incríveis, dando muita pinta e trabalhadíssimos na flexibilidade; e ela, que era o que fazia tudo aquilo funcionar. No melhor estilo, Inês dançava, sensualizava, beijava pessoas da plateia que a alcançavam no palco, se jogava no chão, se esfregava nos bailarinos e exibia sem nenhum pudor os peitos e a língua, ambos enormes.

No meio de todo aquele “sururu gostoso”, uma coisa me interessou em particular: a fé forte e praticamente inabalável de Inês, que nunca tinha me chamado tanta atenção, apesar de estar mais ou menos evidente nos seus constantes “graças a Deus”. Quem acompanha o Vestiário há algum tempo, deve saber que tenho bastante interesse em questões que envolvem religião e sexualidade, especialmente em relação à presença de pessoas LGBT nas Igrejas cristãs. Nesse caminho, é comum que me chamem muita atenção essas diferentes formas de lidar com a figura de Deus, vividas por pessoas que parecem ser o exato oposto do modelo que a maioria das igrejas vende e cultiva. Pra mim, por mais “ambíguas” que pareçam, são experiências religiosas que podem ter muito a ensinar, principalmente por serem caminhos alternativos ao eixo do discurso fundamentalista e violento que estamos acostumados a ver por aí.

Em sua performance, Inês explorava exatamente esse universo que o tradicionalismo reprime, abusando de dois elementos que muita gente considera incompatíveis: a sexualidade livre e a fé em Deus. Entre uma coreografia saliente e outra, ela fazia discursos perfeitamente encaixáveis em uma missa ou culto evangélico. Só não gritava aleluias. Mas o “amém, irmãos?”, o “graças a Deus”, e o “em nome de Jesus” estavam lá, pronunciados enfaticamente ao fim de cada frase. Em um momento em particular, enquanto o DJ tentava voltar a tocar as músicas para seguir com o show, Inês mantinha-se obstinada a conversar com o público, num verdadeiro sermão. “Não quero cantar agora, não quero. Eu tenho que conversar com eles. Eles são tudo jovem, e a gente que já viveu precisa passar a experiência da vida pra eles”.

Durante a tal conversa, seus aconselhamentos giravam em torno de dois elementos básicos: amar a Deus e amar os irmãos, sem ver a quem – porque somos todos filhos de Deus, graças a Deus. Desse eixo central, saíam os vários outros conselhos, também com um tom muito religioso, como o de não oferecer drogas ao irmão, porque você ama o irmão, em nome de Jesus, e a droga destrói o corpo, e somos todos filhos de Deus, graças a Deus. Inês era fervorosíssima. Ao contar casos da própria vida, sempre agradecia a Deus pelos acontecimentos bons, como a ocasião em que conheceu seu ex-marido, o “alemão gostoso do olho azul”, pai de suas filhas. Ao se referir aos fatos ruins, por outro lado, a explicação era certeira: coisa do “inimigo”.

O mais interessante em tudo aquilo era notar a autenticidade indiscutível do que Inês dizia. Por mais que tudo pareça sempre muito exagerado na figura dela, temos de aceitar que manter a consistência que ela mantem, todo o tempo, seria difícil, se aquilo não fosse extremamente sincero. Ela não é um personagem. Sua ética parece ser levada exatamente pelos valores que ela reitera o tempo todo, e que costumam ser motivo de riso. A fé é autêntica; o amor pelas pessoas é autêntico; e a liberdade com que ela exibe o próprio corpo é muito autêntica. Não vou me esquecer de uma das melhores coisas que escutei dela aquela noite, que resume bem essa ideia. Ela dizia: “depois de louvar a Deus e amar os irmãos, o que eu mais gosto de fazer é ficar metendo mesmo, porque fazer amor é muito gostoso, graças a Deus”. Como não amar essa mulher?

Que fique muito claro que, com essas ideias, eu não estou querendo colonizar Inês Brasil sob os domínios de uma religiosidade, nem querendo “evangelizar” através da figura dela. A única coisa que me chama atenção nisso tudo, como comentei, é o fato de haver nela uma figura que me evoca significados muito interessantes dentro de um universo religioso tão restritivo e moralista como o que vivemos.

Seguindo na contramão de muita cagação de regra, Inês incorpora uma fé e um contato com Deus que não a desautorizam a explorar o seu corpo, que não desautorizam os seus peitos enormes à mostra, que não limitam o seu gosto por fazer sexo com quem ela quiser. Enquanto tantos pastores tratam da chamada teologia da prosperidade, Inês parece incorporar uma espécie de “teologia da liberdade”, cujos únicos princípios são, como eu disse, amar a Deus e amar os irmãos, sem ver a quem. Tudo com uma sinceridade incontestável, de modo que ninguém poderia – ou conseguiria – dizer que a fé dela é menos verdadeira ou legítima.

Diga-se de passagem, considerando o Deus violento e regulador que tantas lideranças fundamentalistas apresentam por aí, vendendo mais ódio que amor, pra mim é até mais fácil acreditar na legitimidade do Deus de Inês. A propósito, se ela quiser fundar uma religião, pode ter certeza que serei um dos primeiros a me jogar na piscininha pra me batizar, pra passar o resto dos dias vivendo louco sim, mas de amor. Em nome de Jesus.

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