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Mas o que as crianças vão pensar?

O beijo é necessário porque existe. Precisa ser tirado do armário. Precisa ser tirado dessa redoma de falsa polêmica em que o colocaram. Um beijo é um beijo, e quem está beijando é coisa que não interessa. Visibilidade pela metade não serve.

Murilo Araújo
[artigo classe="tres"] [hgroup classe="um"] [secao]Editorial[/secao] [titulo]Mas o que as[br] crianças vão pensar?[/titulo] [manchete]O beijo é necessário porque existe. Precisa ser tirado do armário. Precisa ser tirado dessa redoma de falsa polêmica em que o colocaram. Um beijo é um beijo, e quem está beijando é coisa que não interessa. Visibilidade pela metade não serve.[/manchete] [autor]Murilo Araújo[/autor] [/hgroup] [texto classe="texto-padrao esq"]

Há algum tempo, vi circular pelas redes sociais o caso de uma garotinha negra que, por volta dos anos 60, teria ficado extremamente feliz ao ver num programa de televisão, pela primeira vez, uma personagem negra que não estava em situação subalterna. Segundo o relato, a tal menina teria chamado toda a família para ver aquilo, e, naquele dia, descobriu que podia ser o que quisesse na vida.

A história é supostamente atribuída à atriz Whoopi Goldberg, dona de uma das carreiras mais brilhantes do cinema americano. Sua veracidade, infelizmente, não se pode determinar, nesses tempos em que tudo se espalha tão inconsequentemente pela internet. Porém, em todo caso, não é difícil pensar em uma história dessas acontecendo de verdade com qualquer outra garotinha negra dos anos 60 ou dos nossos tempos. No fim das contas, a moral permanece a mesma: representatividade faz diferença. Num contexto social em que a invisibilidade é matriz de tantas violências, ter referências e representações pode ser muito importante. [/texto] [figure classe="img-post dir"] Foto: Divulgação/GShow Divulgação/GShow [/figure] [texto classe="texto-padrao esq"]

Tenho pensado bastante nisso quando me deparo com a questão do beijo gay nas novelas, debate que tem voltado à tona com o final de “Em Família”, na semana passada, com o casamento das personagens Clara e Marina. Por mais que a necessidade desse tipo de visibilidade já seja praticamente óbvia, ainda ouço muita gente falar por aí que é coisa desnecessária e que não faz diferença, mesmo entre pessoas LGBT. Pra mim, porém, ainda que a nossa presença numa mídia tradicionalmente homofóbica não deva ser a maior das nossas prioridades, a gente não pode negar que o beijo contribui. Mais que o beijo: a visibilidade contribui.

Todo mundo se lembra do efeito positivo que teve a história de Niko e Félix, em “Amor à Vida”, coroada com um beijo surpreendentemente aguardado, que foi comemorado com gritos e fogos na minha vizinhança. Mais que o beijo em si, a representação do afeto, do carinho, e mesmo da história cheia de complicações, como a de qualquer casal, foi o que fez a real diferença. No final, a cena tão bonita da reconciliação entre o pai homofóbico e o filho gay conseguiu gerar sensibilidades e aberturas sutis, que fizeram muita diferença. Não por acaso, naquela mesma semana li muitos depoimentos de gays bastante agradecidos, que se reconciliaram com as suas famílias ainda sob efeito do que a novela provocou.

Desta vez, com Clara e Marina, o resultado tem sido relativamente semelhante. Sem dúvida, a trama de Manoel Carlos teve erros incontáveis, numa fórmula chata, repetitiva e há muito tempo falida, com os supostos dramas das famílias ricas moradoras do Leblon, e cheia daquela pitada generosa de machismo e misoginia, que resulta sempre na criação de personagens femininas histéricas e dependentes de seus machos. Porém, se houve algum acerto, foi a construção de uma história singela e sincera de amor em uma família que escapava a todos os moldes: um pai e uma mãe separados, casados novamente, sendo que a mãe com outra mulher. Pessoas que enfrentaram os desafios que apareceram, e que seguiram felizes, conseguindo, sem muitos problemas, dar educação e amor a um filho que parecia ter uma cabeça mais arejada que a de qualquer adulto.

Ao final, a cena bonita de um casamento que só errou pelos vestidos igualmente horrorosos de Giovanna Antonelli e Tainá Müller. Mas que teve direito a beijo, amor, carinho, e a uma lua de mel meio sem sal depois, mas bonita também. Sem querer, a novela acabava fazendo um retrato que aponta questões curiosas: se reparar com calma, parece que as únicas famílias realmente felizes da trama eram as que estavam fora dos moldes pregados pelo conservadorismo moralista – mas muito mais próximas da realidade de um país em que mais da metade das famílias já não segue a fórmula de pai, mãe e filhos, conforme dados do IBGE.

Nesse processo, muita gente chegou a questionar: diante disso tudo, qual a real necessidade do beijo? A gente já não se contenta com a representação mais positiva? Ou ainda, como questionei no título deste editorial: o que as crianças vão pensar? Não era preciso pesquisar muito para ver brotar essas ondas de conservadorismo nas redes sociais, geralmente acompanhadas de adjetivos como “nojento”, “abominável”, “ridículo”, “desnecessário”. Os defensores da tradicional família brasileira se sentiam bombardeados de todos os lados, defendendo-se com o argumento de que não é preciso esfregar a orientação sexual das personagens na cara de ninguém. Curioso que a maior parte da novela tenha sido protagonizada por um rapaz problemático que passou toda a trama fazendo questão de esfregar a própria heterossexualidade nas nossas caras, pegando quantas mulheres quisesse, sem sequer reservar o mesmo direito às suas companheiras – pelas quais nutria ciúmes doentes.

O beijo é necessário simplesmente porque existe. Precisa ser tirado do armário. Precisa ser mostrado com a simplicidade e naturalidade com que ocorre todo dia, em todo canto. Precisa ser tirado dessa redoma de falsa polêmica em que o colocaram. Porque um beijo é um beijo, e quem está beijando é coisa que não interessa. E porque visibilidade pela metade não serve. Tanto que permanecemos atentos a tanta visibilidade que ainda falta, e que continuaremos lutando pra conquistar.

O que as crianças vão pensar disso tudo? Espero que coisa parecida com o que pensou a garotinha negra – real ou fictícia – que mencionei no início deste texto: que elas têm chance de serem felizes do jeito que quiserem. E mais: que vivem num mundo em que as pessoas são diferentes, e devem ter o direito de serem diferentemente felizes. Representatividade serve não só para que as pessoas invisibilizadas deixem de se sentir sozinhas no mundo, mas também para que a maioria aprenda o exercício da convivência, e entenda que uma verdadeira sociedade democrática só existe com igual respeito, espaço e valorização para todas as pessoas. É evidente que uma novela sozinha não consegue isso. Mas se puder colaborar, já é um passo. Já é um beijo. [/texto] [/artigo]

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Edição #14
Mas o que as crianças vão pensar?
Editorial

Mas o que as crianças vão pensar?

Murilo Araújo

O beijo é necessário porque existe. Precisa ser tirado do armário. Precisa ser tirado dessa redoma de falsa polêmica em que o colocaram. Um beijo é um beijo, e quem está beijando é coisa que não interessa. Visibilidade pela metade não serve.

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