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“Viado, pra mim, tem que morrer”

O problema dos aplicativos traz à tona a questão da homofobia internalizada, vivida entre os próprios gays. E apesar da minha falta de paciência, às vezes me dá um pouco de tristeza ver que as pessoas não enxergam a violência da qual elas estão sendo, ao mesmo tempo, algozes e vítimas.

Murilo Araújo
[artigo classe="tres"] [hgroup classe="um"] [secao]Editorial[/secao] [titulo]“Viado, pra mim, [br]tem que morrer”[/titulo] [manchete]O problema dos aplicativos traz à tona a questão da homofobia internalizada, vivida entre os próprios gays. E apesar da minha falta de paciência, às vezes me dá um pouco de tristeza ver que as pessoas não enxergam a violência da qual elas estão sendo, ao mesmo tempo, algozes e vítimas.[/manchete] [autor]Murilo Araújo[/autor] [/hgroup] [texto classe="texto-padrao esq"]

ou macho. Sou homem e curto homem. Bonito, másculo e discreto. É o seguinte: não curto bicha não, mano. Se for viadinho que mia, nem chega perto. Quero conhecer machos que topam pegação sem frescura. Se você é afeminado, afetado, menina, ou afins, rala, pois aqui não tem nada pra você. Seja de fora do meio GLS. Não curto viadagem, sou homofóbico mesmo. Se vier de viadagem pra cima de mim, mando o nome pro morro, tá ligado? Se você é leke macho e se orgulha de ter nascido macho, então venha! Se você é um ALPHA, chama que a gente conversa. Não sou nem curto afeminados.

Um mesmo discurso, reiterado em várias facetas. Uma compilação de frases tão clichês e tão homogêneas que dá pra imaginá-las sendo ditas por uma mesma pessoa. E não seria tão ruim se assim fosse. Pior é pensar que a coisa está proliferada de tal maneira que a gente encontra esse tipo de discurso em muitos lugares. Essa, por sinal, é uma pequena compilação de frases reais, encontradas em perfis diversos destes que pertencem ao controverso mundo dos apps de pegação – Grindr, Hornet, Scruff, ou até mesmo o Tinder, que não é voltado exclusivamente para o público gay. Alguns que eu mesmo vi, outros que foram compartilhados por alguns conhecidos no Facebook, e outros ainda que foram coletados em prints espalhados pela internet. [/texto] [figure classe="img-post dir"]

“Viado, pra mim, tem que morrer”
Tumblr Macho, só que não/Reprodução
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Em todos os casos, a misoginia e a homofobia – homofobia internalizada, vale dizer – atingem níveis preocupantes, geralmente disfarçados com o argumento de que é “só uma questão de gosto, nada demais”. Fico só me perguntando o porquê de tamanha hostilidade, se fosse só questão de gosto mesmo. Evidente que ninguém é obrigado a se relacionar com quem não lhe interessa, mas conheço muitos gays que tem uma queda tremenda por cabelos cacheados, e ainda assim nunca vi nenhum perfil dizendo “carecas, caiam fora”. Nunca vi nenhum atraído por ursos dizendo “magrelos, nem tentem”. Eu, por exemplo, tenho pavor de homem bombado demais, mas nunca coloquei em meu perfil que “quero pegação com cara normal, sem essa frescura de Whey Protein, que seja de fora do meio das academias”.

Em contrapartida, vejo a coisa mudar muito de figura quando observo o nível de ataque gratuito contra gordos, fumantes, usuários de maconha, e especialmente gays pintosas ou qualquer outra figura que remeta a feminilidade. Esse tipo de discurso, que aparece tanto, ajuda a entender que por trás da suposta questão de gosto (um gosto que também é moldado socialmente), o que existe de fato é preconceito, discriminação, machismo, homofobia, numa violência que pode atingir níveis assustadores.

A frase que intitula este texto, por exemplo, me foi dita numa dessas interações infelizes que eventualmente acontecem – diga-se de passagem, foi justamente ela que me fez vir escrever este texto. Um rapaz me chamou, e ao ver no perfil dele o discurso homofóbico, expressei pacientemente que do mesmo jeito que ele não curtia afeminados, eu não curto quem assume esse tipo de discurso e postura. Imediatamente, recebi em resposta: “se tá falando, é porque é afeminado, então. E não gosto de viadinho, gosto de homem. Viado pra mim tem que morrer”.

Tomado por um sarcasmo agressivo (e relativamente político), respondi: “viado tem que morrer? Então se mata!”. E fui imediatamente bloqueado, claro. Na hora, tive um acesso de gargalhada com a situação, e até mesmo com a minha perspicácia em responder, com coisa simples, mas que dizia bastante naquelas circunstâncias. Passado o susto e o riso, porém, fui aos poucos sendo tomado pela preocupação e pela angústia de ver o modo como esses discursos de ódio se espalham e estão próximos. Por mais que eu esteja envolvido em debates e movimentos que tocam na questão da homofobia todos os dias, não estou necessariamente preparado para ver alguém desejar morte aos gays assim, como quem pergunta as horas – ainda mais num aplicativo usado majoritariamente por... gays.

A gente ainda precisa colocar muitas coisas em questão, e desestabilizar as estruturas que hierarquizam as identidades assim dessa maneira. Ser “masculino” ou não “frequentar o meio GLS” não torna a tua sexualidade menos dissidente que a minha, amigo. Sem dúvida que a bichinha afeminada está muito mais suscetível a violências do que eu e você, mas a maneira como ela vive e se expressa não faz com que ela seja muito diferente de nós: na base das coisas, está o pensamento de que tais pessoas precisam se comportar de tais maneiras, e se relacionar com tais sexos – um ponto em que todos nós somos desviantes (ou des-viados, como você preferir).

É sempre importante lembrar que o discurso violento que você enuncia serve para cavar o seu próprio buraco: no dia em que os seus amigos héteros descobrirem que você beija rapazes, as coisas que você diz sobre afeminados serão as mesmas coisas que legitimarão a violência e o preconceito que você irá sofrer. E talvez você saiba disso. Talvez seja essa a razão que te faz procurar brodagem com um macho no sigilo, ao invés de viver a sua vida com um pouco mais de liberdade.

E antes que alguém introduza qualquer argumento moralista contra usuários de aplicativos, não acho que o problema esteja exatamente neles, e isso não é um julgamento contra quem os usa dessa ou daquela maneira. Queiramos ou não, o ódio que se encontra por aí é parte de um discurso maior que acha que gay afetado é motivo de riso e chacota, e que tudo bem ser gay, contanto que você não “se escandalize” e “mantenha sua postura de homem”, como eu já cansei de ouvir na família e entre os amigos – numa violência disfarçada de polidez e aceitação, que às vezes é bem difícil de engolir.

O diferencial dos apps, a meu ver, é que ele traz à tona de modo mais claro a questão da homofobia internalizada, vivida entre os próprios gays, o que aponta para desafios maiores do que os que aparecem recorrentemente. E apesar da falta de paciência que me toma na maioria dos casos, às vezes também me dá um pouco de tristeza por ver que as pessoas não enxergam, na cara delas, a violência da qual elas estão sendo, ao mesmo tempo, algozes e vítimas.

Me dói ver um gay dizendo, deliberadamente, que viadinho tem que morrer, e por mais que a minha resposta tenha sido a melhor que eu pude dar no momento, também me dói um pouco dizer pra ele se matar. Queria mesmo é poder viver, viver um mundo onde a gente consiga ser mais livre, sem risco de tiro, soco, lâmpada, ou mesmo de gente enchendo o saco e distribuindo ódio num aplicativo no celular. [/texto] [/artigo]

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Edição #13
“Viado, pra mim, tem que morrer”
Editorial

“Viado, pra mim, tem que morrer”

Murilo Araújo

O problema dos aplicativos traz à tona a questão da homofobia internalizada, vivida entre os próprios gays. E apesar da minha falta de paciência, às vezes me dá um pouco de tristeza ver que as pessoas não enxergam a violência da qual elas estão sendo, ao mesmo tempo, algozes e vítimas.

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