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Praia do Futuro e o armário do Capitão Nascimento

Assim como alguns pais se sentem traídos aos descobrirem a homossexualidade dos filhos; assim como algumas pessoas se incomodam ao descobrirem a sexualidade de amigos, os expectadores de Praia do Futuro se impactaram por não terem sido avisados. Capitão Nascimento, o macho-alfa, não saiu do armário para eles.

Murilo Araújo
[artigo classe="tres"] [hgroup classe="um center alta"] [secao]Editorial[/secao] [titulo]Praia do Futuro[br] e o armário do[br] Capitão Nascimento[/titulo] [manchete]Assim como alguns pais se sentem traídos aos descobrirem a homossexualidade dos filhos; assim como algumas pessoas se incomodam ao descobrirem a sexualidade de amigos, os expectadores de Praia do Futuro se impactaram por não terem sido avisados. Capitão Nascimento, o macho-alfa, não saiu do armário para eles.[/manchete] [autor]Murilo Araújo [ilustracao]Vic Matos[/ilustracao][/autor] [/hgroup] [texto classe="texto-padrao esq"]

Em um livro publicado no início dos anos 90, uma filósofa americana chamada Eve Kosofsky Sedgwick escreveu que grande parte das experiências e relações de gays e lésbicas no decorrer do século XX se construiu em torno de um elemento bastante conhecido entre nós: o armário. Para essa pensadora, em boa parte do funcionamento das nossas vidas, e nos nossos vários espaços de convivência, lidamos constantemente com o dilema que há entre falar ou calar, confessar ou omitir, estar dentro ou fora do armário. De certo modo, estamos sempre nele, e sempre saindo dele, num processo que é a evidência maior do sistema de opressão das nossas sexualidades: se não houvesse homofobia, o armário não existiria. “Revelar” ou não a nossa sexualidade não seria uma questão importante nas nossas relações.

Passados mais de vinte anos desde a publicação da obra – que carrega o intelectualizado título de “A Epistemologia do Armário” – a realidade descrita por Sedgwick não parece nada distante de nós. Falar, revelar, confessar as nossas sexualidades “desviantes” é um desafio que está sempre colocado em questão. Nossos pais e mães precisam ser avisados sobre a nossa não-heterossexualidade, acusando-nos vez ou outra de ter mentido ou traído a família. Amigos recorrentemente se chateiam quando descobrem que somos gays, confrontando-nos com a questão: “mas por que você nunca me contou?”. Em nossos aniversários, para evitar desconfortos ou constrangimentos, sempre sentimos a necessidade de avisar a esses mesmos amigos que a comemoração será em uma boate gay, e não em uma boate “normal”. Isso para mencionar apenas alguns casos. [/texto] [figure classe="img-post dir"] Ilustração: Vic Matos [/figure] [texto classe="texto-padrao esq"]

Quando analisamos todo o funcionamento desse processo conturbado e ambíguo, fica mais fácil compreender as polêmicas que temos testemunhado nas últimas semanas, envolvendo as cenas de sexo gay no filme Praia do Futuro – que é o assunto que efetivamente quero comentar neste editorial. Não tenho a intenção de discutir aqui a qualidade cinematográfica do longa, coisa que a nossa colunista Ana Paula Cruz já fez – muito melhor do que eu faria – em um texto nesta mesma edição. Minha intenção é tratar especificamente do fenômeno que ocorreu em cinemas de todo o país, de pessoas deixando as sessões no meio da exibição, se sentindo pessoalmente ofendidas por não terem sido avisadas a respeito das cenas protagonizadas por Wagner Moura e Clemens Schick.

A discussão sobre essa questão nem precisaria ir muito longe, uma vez que a falta de lógica presente nestas reclamações já é bastante óbvia. A exigência de ser notificado pelo cinema sobre o conteúdo de um filme não faz o menor sentido. Sinopses e trailers estão aí para isso. Quer saber? Pesquise um pouco antes de comprar seu ingresso.

Indo um pouco além disso, porém, ainda cabe se perguntar sobre o que os revoltados e desinformados expectadores esperavam ver em Praia do Futuro. Sem precisar pensar muito, a resposta que parece mais certeira nos remete à figura do Capitão Nascimento, encarnado também por Moura no controverso filme “Tropa de Elite”. O policial, que se tornou um dos personagens mais marcantes do cinema brasileiro, sem dúvida, é tomado em muitos contextos como um símbolo de virilidade e masculinidade. Acredito firmemente que, entre as pessoas que deixaram a sessão, nenhuma delas esperava ver tal idolatrada figura sucumbindo aos encantos de um homem másculo como o alemão Schick. Não importa que o personagem seja outro: no fundo, ninguém esperava ver o seu admirado capitão se converter em mais um viadinho.

Aqui aparece novamente o armário de que fala Sedgwick. Assim como alguns pais se sentem traídos aos descobrirem a homossexualidade dos filhos; assim como algumas pessoas se incomodam por não terem sido notificadas sobre a sexualidade de seus amigos, os expectadores revoltados de Praia do Futuro se impactaram por não terem sido avisados. As cenas gays não foram anunciadas. Capitão Nascimento, o macho-alfa, não saiu do armário para eles, e a descoberta disso é ultrajante. Quase uma traição.

O mais ambíguo em todo esse processo, é que a cobrança pela confissão e pelo anúncio da sexualidade serve, contraditoriamente, para escondê-la e silenciá-la. Tomando a heterossexualidade como padrão, a cobrança pela saída do armário envolve a necessidade de identificar e localizar quem está fora da norma, quase sempre para manter fora, para invisibilizar, romper contato, não conviver, não enxergar. As pessoas queriam saber das cenas gays do filme não porque essa fosse uma informação relevante; é que se soubessem, não teriam sequer saído de casa. Preferem não ver, preferem deixar o cinema, preferem reclamar, preferem agredir. Prefeririam, inclusive, assistir na tela a violência do policial que ameaça bandidos com um cabo de vassoura.

E ainda que todos esses sinais gritem ao nosso redor, seguimos escutando as vozes dos que repetem que “não somos homofóbicos”. Enquanto isso, uma série de iniciativas de promoção da diversidade continua sendo deixada de lado, como se sua necessidade fosse negociável, como se sua urgência não fosse evidente. No mesmo caminho, tentativas de tratar naturalmente as diversas possibilidades de relação – como faz Karim Aïnouz, diretor do filme – acabam sendo ofuscadas por polêmicas ultrapassadas em torno da maneira como as pessoas exploram os próprios prazeres, afetos e desejos.

O “futuro”, que o título do longa evoca, acaba parecendo um pouco difícil de alcançar, em um contexto tão violento, tão retrógrado e tão conturbado. A saída que parece mais eficaz ainda é a resistência, a valorização de iniciativas de visibilização das sexualidades, e a constante busca pelo fim de todo e qualquer armário: que todas as identidades sejam igualmente respeitadas e igualmente possíveis, de modo que as diferenças existam, mas não façam real diferença – seja na hora de ir ao cinema, seja em qualquer outra hora. [/texto] [/artigo]

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