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Quanto vale um like?

Às vezes parece que estamos no meio de um campo de batalha, onde nossas frustrações são descarregadas em cima das outras pessoas e o que vale é só o share, o like do amigo e o compartilhamento dos conhecidos.

André Pacheco

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Quanto vale um like?
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Não sou santo. E nem nunca fui. Ninguém é, afinal, somos humanos com tantos erros quantos acertos. “Quem nunca pecou que atire a primeira pedra”, já diz uma passagem bíblica — talvez uma das poucas que façam realmente sentido e possam ser aplicadas em qualquer situação, em qualquer lugar do mundo e independente de ser cristão. Não vejo como uma questão de pecado, mas de errar e seguir em frente. Aceitar os seus deslizes, e principalmente, compreender e perdoar os dos outros. Não escrevo este texto pra apontar as minhas verdades, mas apenas deixar solto por aí algumas reflexões minhas que há muito tenho tido.

Esta semana, escrevi sobre a Rachel Sheherazade. Deixei que as palavras fluíssem, sem querer bancar o dono do mundo ou mudar a cabeça de ninguém. São só pequenas ideias que levo. Concorde quem quiser, discorde quem achar que estou errado. E assim, a gente vai seguindo a trancos e barrancos nessa delicada relação com o próximo a que estamos sujeitos. Mas algumas coisas realmente precisariam ser revistas, por todos nós. Por mim, por você, pelo seu colega de trabalho, por algum fake famoso ou blogueiro grande. O que a gente está fazendo com as outras pessoas?

Como disse no meu editorial sobre a Sheherazade e os “justiceiros”, “não se responde violência com violência”. E violência, ao meu ver, não é apenas enfiar a arma na fuça de alguém e levar um celular ou amarrar um bandido num poste e deixar a deus dará. Violência também é a gente se achar superior a outro ser humano seja por questão de renda, de formação acadêmica, cor da pele, orientação afetiva e lugar de origem. Violência também é tirar a foto de uma pessoa na rua e postar em suas redes sociais fazendo uma piada, um comentário pejorativo ou julgando. Tudo a troco de quê? De um like? De ser um formador de opinião? Ou seria de se esconder atrás do que desprezamos nos outros como uma forma de tentarmos dormir mais tranquilos à noite?

Repito, eu não sou santo. E nem tenho pretensão de ser. Se eu olhar minha timeline do Twitter, por exemplo, vou encontrar muita coisa que me arrependo de ter escrito. Você, se botar a mão na consciência e voltar aos seus compartilhamentos, também. Todo mundo já agrediu alguém, de uma forma ou de outra, na vida. Infelizmente. Ninguém é superior a ninguém, por mais que a sociedade nos ensine que talvez-possamos-quem-sabe ser. Mas a grande verdade, é que somos uma monte de pedaço de carne com data de validade. E aí?

Expor publicamente ao ridículo uma mulher, que num momento de enorme estupidez, postou em seu Facebook a foto de um homem no aeroporto enquanto se vangloriava de ser de uma classe social mais abastada, não seria também ser um “justiceiro”? Não digo pra passarmos a mão na cabeça dela, e que a reflexão em cima não tenha algum valor. E tampouco acho correto o que ela fez com o outro cidadão, que na minha concepção, deveria ser indenizado judicialmente.

Mas não estaria havendo aí uma caça às bruxas? Um “queimem na fogueira essa elitista!”? Por mais que o perfil no Facebook seja público, houve uma invasão de privacidade. Ela não se propôs a escrever em um espaço de formação de opinião, como um jornal ou um blog, e sim compartilhou o seu próprio preconceito num espaço dela. E nós, que espalhamos o que ela fez como se não fossemos passíveis de errar, estamos fazendo a mesmíssima coisa. Só mudamos o discurso. Estamos nos machucando o tempo todo.

Às vezes parece que fomos colocados no meio de um campo de batalha, onde as nossas frustrações são descarregadas em cima das outras pessoas e o que vale é só o share, o like do amigo e o compartilhamento dos conhecidos. É triste.

Não estamos respeitando ninguém. A sua privacidade, o seu direito de errar, de estar num aeroporto comendo enquanto espera o voo, o seu direito de ser um pré-adolescente e fazer um vídeo engraçado pra ser apresentado no seu bar mitzváh. É gente “feia” virando meme em perfil de gente “linda”. É uma moça, que infelizmente foi assassinada em sua casa, e talvez tenha postado em seu Facebook um pedido de ajuda, que virou uma piada coletiva. É gente não tendo o mínimo de humanidade dizendo que “bandido bom é bandido morto” ou “viado está querendo privilégios e tem que desaparecer do mundo”. Um like pela nossa “opinião” vale mais que a dignidade de outra pessoa?

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