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Sheherazade, faça um favor ao Brasil?

Rachel foi irresponsável num nível nefasto. A partir do momento que você permite que as pessoas saiam por aí “limpando a sociedade”, o caos impera.

André Pacheco

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Sheherazade, faça um favor ao Brasil?
Divulgação/SBT

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Rachel Sheherazade é aquele tipo de pessoa que você fica espantado com as coisas que saem de sua boca. É um pedacinho do regime militar nos dias de hoje. “Como alguém consegue ser tão limitado?”, você deve se perguntar. Claro, tem quem a ovacione. Parabenize, dizendo que ela é um exemplo! Daí você realmente percebe que temos um problema seríssimo de formação por aqui. E eu sempre digo, o brasileiro médio faz uma força pra ser medíocre. Rachel é a prova viva disso. Medíocre da unha do pé à ponta do cabelo cuidadosamente descolorido.

Desde que chegou à bancada do principal jornal do SBT, a moça tem crescido as asinhas cada dia mais. É opinião sobre tudo quanto é coisa, da Valesca Popozuda à maconha no Uruguai. Mas é sempre o mesmo discurso, com aquele tom pedante na voz, aquela carinha de “sou foda, olha meu ponto de vista fantástico”. Seus argumentos são tão profundos quanto meia bacia d’água. É tudo falado pra agradar quem não gosta de sair da caixinha.

Mas hoje, o que parecia impossível, aconteceu. Ela se superou. O assunto foi aquele adolescente pobre-preto-marginal vítima de bandidinhos cariocas de classe média, aqueles que se intitulam “justiceiros”. Ganha um doce quem adivinhar o que ela falou. Claro, ela apoiou quem amarrou o rapaz no poste, ela concordou com quem faz “justiça” com as próprias mãos. Estúpida!

“No país que ostentam incríveis 26 assassinatos a cada 100 mil habitantes”, diz Rachel antes de concluir que “a atitude dos vingadores é até compreensível”. Nunca, em hipótese alguma, nem se a sua mãe estiver em risco de morte, você deve cogitar em concordar com quem faz esse tipo de coisa. Rachel foi irresponsável num nível nefasto. A partir do momento que você permite que as pessoas saiam por aí “limpando a sociedade”, o caos impera. Imagina se todo gay fosse na porta de seitas evangélicas e batessem em evangélicos? Pois é. Não pode, mesmo que essa atitude “seja até compreensível”. Não se responde violência com violência.

Só que Rachel se “esqueceu” de um mero detalhe. Os mesmos “justiceiros” que ela apoiou, talvez sejam os mesmos que saíram no Aterro do Flamengo no último domingo, dia 02, caçando homossexuais. É pau, é pedra! E a gente ainda tá em janeiro. “Ah, mas essas bichonas estavam fazendo atos libertinos”, dirá algum dos apoiadores da Sheherazade. Pra isso existe a lei, pra ser aplicada. “Mas a PM não faz nada!”, esbravejará algum defensor do cidadão de bem. Aí a gente tem um outro problema, e que não dá direito de civil sair por aí caçando pessoas.

Ser contra os “justiceiros” não é questão de ser de esquerda, ou de ser “comunistinha”, ou de “adotar um marginal” — como ela finaliza em sua opinião. É questão de ser lógico, só isso. Não é sobre passar a mão na cabeça de assaltante ou assassino, é sobre viver em sociedade. Se os índices de homicídio no Brasil são altos, é porque alguma coisa tá desequilibrada aqui. E é o quê? Todo mundo já deve estar cansado de saber. É renda mal distribuída, é educação defasada, é legislação muitas vezes esquizofrênica — inclusive, a própria não se esqueceu desses pontos.

Mas não é só isso, tem mais coisa nesse balaio todo. O problema da violência no Brasil está muito mais na forma como o poder se arranja aqui, do que só em IDH, escolas e judiciário. E a classe média conservadora que quer justiça aos bandidos do morro, mas se esquiva de seus próprios delitos? E quem tem um pouco mais de posses se achar no direito de subjugar outros, até mesmo queimar um índio e se desculpar porque “achou que era um mendigo”? Ou você pensa que isso não influencia na violência urbana? Ou você acha que o “sentimento de superioridade” e o “egoísmo da meritocracia elitista” não são também uma forma de violência?

Mas, pra Sheherazade, seria mais aceitável responder com barbaridade às consequências, e permitir que mais caos impere na nossa frágil democracia, do que adotar um pouco mais de empatia por todos, até por bandidos amarrados num poste.

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