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Tire a máscara branca

Tire a máscara branca

Uma das maiores ilusões propagadas no Brasil, é a nossa mistura de cores, vendida internamente como um espetáculo onde a miscigenação é a protagonista.

André Pacheco
Guto Bernardo

Maraisa Fidelis, uma moça muito bonita, está no auge de seus 24 anos. Leva uma vida normal de classe média em São Paulo. Tem 47 quilos muito bem distribuídos em seu 1,56 metro de altura. Dona de um sorrisão lindo, vive postando sobre momentos cotidianos no Facebook, e vez ou outra uma #selfie no Instagram. Estudou em um bom colégio particular e se formou em Marketing em 2012. Ela também cuida de um blog sobre beleza e comportamento. A vida afetiva vai muito bem, obrigado. Ela namora há anos um rapaz, a quem se dirige carinhosamente como “baby”.

Agora, faço uma pergunta. Como você imagina Maraisa?

Uma das maiores ilusões propagadas no Brasil, é sobre a nossa mistura de cores, vendida internamente como uma espécie de espetáculo onde a miscigenação é a principal protagonista. Isso é o mito da democracia racial, sendo um pouco mais técnico, que se espalhou e se fortaleceu pelas teorias do ambíguo Gilberto Freyre.

Autor de “Casa-Grande & Senzala”, obra publicada originalmente em 1923, Freyre deu o pontapé inicial para construir a falsa ideia de que não existe, de fato, racismo no Brasil, e que fomos todos concebidos dentro duma equilibrada união de etnias e culturas. “Na verdade, o racismo existe, porém, ele é velado”, diz Ana Maria Dietrich, professora da Universidade Federal do ABC e autora do livro “Nazismo Tropical? O partido nazista no Brasil”, publicado pela Editora Todas as Musas. Uma das maneiras mais fáceis de notarmos a forma como escondemos o racismo por aqui, é através da comparação. Veja, por exemplo, o caso dos Estados Unidos. Lá, a coisa pega fogo. Claro que nos últimos anos houve uma transformação, mas a separação ainda é evidente. Há os negros, e há os brancos. E, de certa forma, isso acabou tendo um lado positivo para eles.

Ué, como assim? Então eu estaria defendendo a segregação racial? Calma, eu explico. Nos Estados Unidos, se institucionalizou o racismo, onde o próprio Estado privava os negros de direitos básicos. Assim, ficou fácil ver que havia um problema que precisaria ser resolvido em algum momento. Quando há um conflito, é porque o desequilíbrio de poder incomoda. Se enxerga quem ganha e quem perde. Enquanto aqui no Brasil, não temos uma “guerra” declarada entre brancos e negros, mesmo sendo evidente que há uma diferença gritante entre um e outro.

Justamente por estarmos imersos nessa de acreditar que não somos racistas, e que tudo é bem junto e misturado, é que se torna um pouco mais complicado direcionar políticas públicas aos negros, uma das minorias que veem o seu cotidiano interferido por causa de um discurso opressor muitíssimo bem maquiado e escondido. Tão camuflado que, inclusive, muitos negros não conseguem enxergar o problema, mesmo estando imersos nele. Dizemos que não discriminamos por cor, e sim por origem social. Mas a maioria dos pobres no país são negros.

Durante anos, a gente debateu a política de cotas racias no ensino superior, até que em agosto de 2012, o Governo Federal sancionou uma lei que reserva parte das vagas nas universidades federais para estudantes negros, pardos e índios. Um avanço, mesmo com a quantidade de argumentos contrários, facilmente discutíveis por sinal, que foram, e serão sempre apresentados. A coisa é tão estranha, que a mídia, sempre se posicionando crítica às cotas, já chegou ao absurdo de colocar como pauta um negro que é contra. E, não tão raro, adora apontar as falhas no sistema de aprovação alardeando que um “branco foi aprovado através do sistema”. É o cumulo da canalhice. Ao invés de apontar que quem se aproveitou da situação é quem está errado, se clama para enterrar uma política democrática. É o mesmo caso que acontece quando criticamos o Bolsa Família com base em quem recebe o benefício sem precisar.

Você não precisa só chamar um negro de macaco para ser considerado racista, tampouco espancá-lo na rua devido a cor de sua pele. O racismo pode se apresentar de várias formas. Ele está, por exemplo, em expressões como “negro de alma branca”, ou até mesmo ao se levar um susto quando descobrimos que o médico que nos atenderá não é branco dos olhos verdes.

O fato de vivermos nessa ilusão da “democracia racial” é que atrapalha o avanço sobre o tema. É se deparar com alguém indignado com uma camiseta escrita “100% negro” e sugerir uma escrita “100% branco”, achando que esse é um argumento válido. O racismo no Brasil é um racismo cômodo, o do “não tenho nada a ver com isso, eu pago os meus impostos”, como bem frisou Fernanda Lima após a polêmica sobre ser escolhida para apresentar, ao lado do marido também branco, o sorteio da Copa do Mundo. É aquele racismo em ter um quartinho de empregada num apartamento de classe média, ou um elevador de serviço e outro chamado de “social”.

O negro, que ao longo do nosso processo histórico, foi enfiado num gueto, que nós demos o nome de favela, não tendo o direito de cultivar e ter orgulho de sua própria identidade enquanto um grupo social. Se planificou a nossa cultura, criando a ideia de que há uma só. Um ideal a ser seguido, um sonho a ser almejado. Mas a miscigenação no Brasil é branca.

Em 2008, eu li uma série de publicações do excelente escritor Alex Castro sobre o que ele chamou de “raça certa”. O material se encontra indisponível, mas pode ser acessado através do Wayback Machine. Na época, um dos textos me fez entrar num processo de reflexão. Alex começa o post descrevendo uma personagem, a Teresa, que tinha pernas longas e entrara num bar. Era muito bonita a moça, inclusive. Porém, em nenhum momento da brevíssima passagem de Teresa, houve menção a sua cor, ou qualquer coisa que desse uma pista de sua etnia. Logo, Teresa só poderia ser branca. Ou seria Teresa uma negra de cabelo crespo?

Quando alguém é branco, você não o adjetiva como branco. Mas quando alguém é negro, você precisa dizer que ele é negro. A “raça certa” é, então, aquela que não tem necessidade em ser apresentada, pois foi eleita como padrão.

Voltando a pergunta que fiz no primeiro parágrafo. Como você imagina Maraisa?

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