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A obsessão pelo corpo dito perfeito

Com o culto à magreza ainda mais em evidência, até que ponto alguém pode chegar para conseguir o corpo ideal para a sociedade?

Yhury Nukui
Renan Riso

O que é perfeito pra você? Antes de começar a ler o texto, queria que você refletisse sobre o que é a perfeição. Mas nada daquilo que você encontraria se procurasse a palavra no dicionário, o que também não ajuda nem um pouco.

Pensou? Agora descreva o que seria um corpo perfeito na sua opinião. A maioria das pessoas que são questionadas a respeito do corpo ideal, certamente responderam essa pergunta com um sonoro “magro”. Mas, quem te disse que isso? A tevê? As revistas? Os jornais? E você acreditou mesmo?

Na primeira semana de janeiro, Ke$ha fora internada em uma clínica de reabilitação mas, ao contrário do que muitos imaginavam, não era nenhum problema com drogas lícitas ou ilícitas. A americana deu seu grito de socorro e quer se curar de distúrbios alimentares. Procurei por fotos e não encontrei nenhuma que causasse algum espanto com o peso da moça ou que indicasse que ela estava com sobrepeso, o que poderia ser um risco à saúde.

A obsessão pelo corpo dito perfeito
Renan Riso

Voltemos um pouco ao tempo, quando a jovem Demi Lovato se internou voluntariamente para tratar de distúrbios alimentares e automutilação há três anos. Ela ainda foi diagnosticada com transtorno bipolar. Mas, o que levou essas duas mulheres ricas, famosas e bem-sucedidas a desenvolverem algum tipo de transtorno? Insegurança, meus caros.

Sim, elas, assim como nós, se desesperam só de pensar em serem rejeitadas. E quando essa questão chega à estética é tudo ainda mais complicado. Renata* notou que precisava de ajuda perto de seus 20 anos quando procurou apoio profissional para emagrecer. Ela, que sempre sofreu com sobrepeso, “mas nada que fosse além do comum para o padrão brasileiro” – em suas próprias palavras – chegou a obesidade mórbida. Com 131 quilos, recorreu ao médico.

“Comi meio quilo de macarrão com almôndegas sozinha em uma única refeição, em menos de 30 minutos, acompanhado de mais de um litro de refrigerante. Acho que, de toda essa história, essa é a lembrança mais dolorida”, conta ela.

A maioria das pessoas que sofrem com o sobrepeso passam a desenvolver distúrbios alimentares quando encontram na comida uma válvula de escape para não ter que lidar com questões importantes. “Eu tinha terminado um namoro de um ano e meio há pouco tempo e ainda não tinha chorado. Eu comi, comi muito. E não conseguia parar de comer. Não era algo que eu fizesse porque queria, eu simplesmente não consegui parar até toda a comida acabar. Não conseguia. Era como se eu estivesse amarrada e outra pessoa estivesse enfiando as garfadas na minha boca a força”, diz.

Juliana Benetti, estudante de jornalismo e blogueira de 21 anos, tinha tudo pra desenvolver qualquer tipo de distúrbio alimentar. A mais gordinha entre suas amigas, sentia vergonha em ir à praia, não fazia balé e sonhava em ser modelo. Mas, desde muito nova, teve apoio incondicional de sua mãe. “Minha mãe sempre foi muito guerreira. Me criou “sozinha”, e fez tudo o que estava ao seu alcance. Além disso, é extremamente carinhosa e acolhedora. Quando eu me sentia mal e chorava, sabia que podia falar com ela. Nunca me senti sozinha. A sensação de senti-la sempre ali por mim, me levantando, me ajudando, me apoiando, fez com que eu não tivesse nem chances de ter algo do gênero”, conta.

A obsessão pelo corpo dito perfeito
Renan Riso

Por outro lado, Renata nunca comentou com a família, que a via apenas como uma simples adolescente rebelde, dos problemas que tinha com alimentação. Aos 17 anos, ela largou a escola porque não tinha nenhum ânimo para sair de casa. “Levando em conta o quanto eu tinha engordado nos últimos dois anos e meio, meu desânimo era tido como "vagabundagem", eu era uma "come-dorme". Como eu sempre estive acima do peso, as pessoas nunca desconfiaram do que eu tinha. E eu nunca comentava isso com ninguém. As pessoas nunca entendem, sempre me perguntam por que eu tenho isso, como se eu fosse saber ou como se tivesse sido uma escolha”, desabafa

Segundo Andrea Latterza, nutricionista da Universidade Metodista de São Paulo, as causas dos distúrbios alimentares são das mais diversas. “Podem vir de várias origens, como biológicas, padrões de cultura, baixa autoestima, ou a busca a qualquer preço de um corpo perfeito”, explica neste artigo.

E é justamente na puberdade que os desejos por outras pessoas começam a aflorar e a autoestima aliadas à confiança nem sempre correspondem à altura. “O momento que mais me incomodou foi dos 11 aos 14 anos, fase em que os meninos começam a “chegar” em meninas. Minhas amigas sempre tiveram ficantes, meninos correndo atrás, e eu muito muito raramente”, conta Juliana. “Na faixa dos 12 anos, esse tipo de coisa era essencial para se sentir bonita, desejada e normal. E eu não tinha isso, o que me deixava muito mal”.

Quando se descobriu com 131 quilos, Renata procurou uma nutricionista e entrou em uma academia. Foi, em uma das aulas, que repentinamente ela teve uma cegueira temporária no olho esquerdo. Os exames diagnosticaram um estresse emocional profundo e 90% dos casos levam a uma cirurgia.

Um neurologista, no entanto, disse que ela – felizmente – não precisaria de nenhuma intervenção cirúrgica, mas a encaminhou para um psiquiatra, que a diagnosticou com TCAP (Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica), DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção), depressão e transtorno de ansiedade. Pouco depois, ela se descobriu com bulimia.

“Com os tratamentos e a dieta, eu emagreci bastante, só que chega um momento em que você começa a eliminar peso mais devagar. Pela família, até mesmo os amigos, e por mim mesma, eu me sentia muito pressionada pra chegar logo ao meu peso ideal. Foi então que desenvolvi bulimia. No meu caso, eu não vomitava. Cheguei a tentar fazer isso muitas vezes, mas não conseguia. Então, passei a tomar laxantes e permanecer até quatro horas ininterruptas na academia fazendo somente exercícios aeróbicos, além das séries de musculação, às vezes, duas vezes por dia”.

A preocupação em se manter emagrecendo foi tão grande que Renata se matriculou em uma academia que ficava a meia hora de casa, apenas para que, além dos exercícios, ela ainda caminhasse uma hora por dia. “Minha família e amigos não percebiam o exagero daquilo. Quem vai imaginar que uma gorda tem um distúrbio alimentar como bulimia? Estar emagrecendo tanto e tão rápido era motivo de parabenização. Ninguém enxergava além disso”, conta.

Juliana sempre foi muito comunicativa e tentou fazer disso um atrativo para que as pessoas permanecessem perto dela. “Acho que era “legal” com os outros para que gostassem de mim, porque pela beleza sabia que não ia rolar. Ou por talento. Ou por qualquer uma dessas coisas. Minha obrigação era ser legal e a melhor amiga do mundo. E fui. E nem sabia ser diferente”, diz. Mas, como mencionado, ela não se dava ao direito de fazer uma série de coisas por sentir vergonha do seu corpo. O que também aconteceu com Renata:

“Quando adolescente, deixava de sair com meus amigos, de ir a festas de família, de fazer passeios simples, até mesmo de ir à escola por vergonha de ser gorda e de achar que nada ficava bem em mim. Mas isso vinha muito mais de mim do que das outras pessoas. Na fase auge da bulimia, eu também deixei de sair e fazer muitas coisas, mas não por vergonha, e sim pra poder ficar na academia”.

A obsessão pelo corpo dito perfeito
Renan Riso

Renata luta diariamente contra a bulimia que, infelizmente, não tem cura. Toma remédios controlados e suas crises já não são tão constantes, mesmo que apareçam vez ou outra. “O que pode ser muito perigoso em se tratando de uma compulsão é que quando você já não tem mais um escape, você procure outro, criando uma nova compulsão, era isso que estava acontecendo comigo”, sugere ressaltando a importância de um acompanhamento psicológico permanente.

Distúrbios alimentares não são brincadeira. Um “você é gorda”, numa simples briga na escola, pode ser motivo para que uma menina comece a dar indícios de querer desenvolver algum desses transtornos. Renata chegou a questionar, num certo momento, a sua própria existência. Não há nada mais doloroso do que isso. Todos nós merecemos viver. O direito de respeitar e sermos respeitados, independente do nosso peso ou de nossa forma de pensar. Não precisamos e nem devemos mudar quem somos apenas para nos readequarmos. Viver com medo, não é viver.

E um aviso importante aos meninos: aquilo que se vê na tevê, só fica na tevê. Aquelas modelos maravilhosas do Victoria’s Secret Fashion Show se esforçam muito pra chegar naquele corpo. E não, elas não são o ideal de beleza. Afinal, o que é bonito pra você, pode não ser pra mim. Mas, o mínimo que se espera, é que você não se deixe alienar por aquilo que vê nas propagandas. Nem toda mulher é como Gisele Bündchen. Não quero que seu mundo caia, mas aquela pessoa que estampa as revistas da Playboy, Vip, Sexy ou qualquer outra do gênero, não são o tipo ideal de beleza. Não se deixe influenciar por isso. Antes de pensar no corpo escultural, veja se a massa encefálica vale a pena. Os peitos, um dia caem. A beleza não dura eternamente.

Meninas, não se deixem abalar por um comentário negativo de um rapaz. Nenhum menino merece que você se automutile por ele. Vocês são muito maiores do que isso. Antes de ousar forçar um vômito, questione-se: “vale mesmo a pena fazer isso?”. Vocês são fortes por natureza, as verdadeiras dominadoras da selva. Se um dia, vocês acordarem desacreditadas e descontentes com si próprias, procurem um especialista. Mas não desenvolva nenhum transtorno. Não vale a pena. Vocês são especiais da forma com que vieram ao mundo. E todos devem amá-las exatamente assim. O par ideal – não falemos de perfeição, porque isso não existe – será aquele que te aceitar assim, do jeito que você é. Sem precisar se moldar.

O documentário “Muito além do peso”, que eu sugiro que todo mundo assista, apoiado pelo Instituto Alana e dirigido por Estela Renner, retrata o crescimento exorbitante da obesidade infantil. Em um certo ponto, uma menina com sobrepeso revela que a família sempre faz orações para que nunca falte o que comer. Questionada se lhe falta algo na vida, a menina, olhando para baixo, responde com doçura: “falta sentido”.

Encontre um sentido para sua vida. Nada e nem ninguém pode te dizer qual a forma correta de aproveitar o que você tem. Viva, com os pés no chão, um dia de cada vez.

*Nomes alterados a pedido dos entrevistados.

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Edição #06
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