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Quem tem medo da Aids?

O aumento do número de jovens infectados deixa claro que as campanhas de prevenção estão falhando. Onde estamos errando?

May Barbosa
André Pacheco
Quem tem medo da Aids?
André Pacheco

O bicho papão de umas décadas atrás já não causa mais tanto medo, talvez ele até tenha se tornado um coelhinho da páscoa ou a fada dos dentes no imaginário dos jovens hoje. Mas ele está bem ali, escondido debaixo da cama ou dentro do armário. Segundo a pesquisa Este Jovem Brasileiro, do Portal Educacional, os jovens vêm usando cada vez menos a camisinha. O número de adolescentes que usam preservativo regularmente caiu de 61% para 54%, em relação à pesquisa de 2006.

Ao contrário do que se pensa, não existe mais “grupos de risco”, mas sim “comportamento de risco”, como o sexo desprotegido. Ou seja, todos estão vulneráveis. Mas o que vem preocupando é a redução cada vez maior da faixa etária dos soropositivos brasileiros. Adolescentes entre 13 e 19 anos são os principais afetados, sendo que na maioria dos casos, são mulheres: oito casos em meninos para cada dez em meninas. Nas demais faixas etárias, o número de casos é maior entre os homens.

Se uma parte considerável dos jovens ainda não consegue ter acesso às informações e aos serviços básicos de saúde, imagina se formos falar de educação sexual e de políticas públicas que os estimulem a tomar decisões de maneira responsável? Somado a isso, ao longo dos últimos anos a Aids foi saindo de mansinho da pauta dos brasileiros. Com os avanços no tratamento, o diagnóstico deixou de ser uma sentença de morte e passou a ser tratada como uma doença crônica. Mas ninguém avisa que é uma doença crônica degenerativa que, mesmo com o uso do coquetel, vai aos poucos minando o organismo do portador.

Não existe mais “grupos de risco”, mas sim “comportamento de risco”, como o sexo desprotegido

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Depois da primeira fase e de estudos profundos sobre o vírus, as coisas foram se acalmando e as pessoas deixando a preocupação e a proteção de lado. Para Ivone Aparecida de Paula, responsável pelo Departamento de Prevenção do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, essa situação tem várias facetas. “O abandono da camisinha é uma coisa muito relativa, depende do momento da relação, do meio em que a pessoas se insere, o grau de instrução, o medo de pedir ao parceiro para usar e até de crenças pessoais,” afirma. Ou seja, não dá pra generalizar. Mas o sinal amarelo acendeu.

Quem tem medo da Aids?
ReproduçãoPropaganda de 1990 da grife Benetton trazia rapaz vítima da Aids

Os jovens de hoje se deparam com a doença em um estágio menos catastrófico que há 30 anos. Na época, em um cenário ainda desconhecido e estigmatizado, o vírus foi apresentado de uma maneira “primitiva” em campanhas de comunicação, e muitas vezes usavam imagens de pacientes terminais e casos de famosos que morreram para instalar a paranoia. Quem tem idade para lembrar, nunca vai se esquecer daquela capa da Veja com Cazuza ou da propaganda da grife italiana Benetton veiculada em 1990, onde uma família chorava ao lado do corpo do filho recém-vitimado pela doença.

Políticas públicas

Em 2012, mais de um bilhão de reais foram investidos pelo Governo Federal no combate às doenças sexualmente transmissíveis. Desse total, 420 milhões destinaram-se a campanhas de prevenção, mas que, infelizmente, não estão surtindo o efeito necessário. Houve um enfraquecimento político e social na maneira como o HIV é abordado pelo Ministério da Saúde.

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Para Mário Scheffer, ativista e professor do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP, fatores políticos mudaram a forma como o vírus é tratado no Brasil. O SUS está ameaçado, e por causa disso, os programas de Aids perderam a qualidade e a capacidade técnica. “Não existe mais protagonismo político no interior dos governos. Muitas das nossas ONGs estão à deriva, literalmente jogadas à própria sorte,” diz. A situação é preocupante. “Houve uma transição da excepcionalidade para a normalização da doença, na política, na mídia, na sociedade e na juventude,” completa Scheffer.

Para a gente entender como anda hoje a relação do Governo Federal com a Aids, precisamos fazer um apanhado histórico. Existiu uma forte mobilização por parte de ONGs e do próprio governo para minimizar os efeitos da epidemia, o que infelizmente, não vemos mais com tanta força. “No começo, as pessoas atingidas se juntaram em organizações, depois em redes e fóruns. Elas organizaram um movimento comunitário e decidiram lutar pelo seu próprio destino, acompanhando criticamente a execução da política, alternando o papel de auxiliares, parceiros, críticos ou mesmo, em alguns momentos, de opositores”, afirma Scheffer.

Fora dos holofotes, o HIV não estimula a participação e o questionamento da sociedade civil

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Fora dos holofotes, o HIV não estimula a participação e o questionamento da sociedade civil por melhorias, e a falta de informação não permite tal engajamento. “Quando eu descobri que era portador, eu tinha uma quantidade boa de informação, mas eu era uma exceção”, diz o designer gráfico Francisco*, soropositivo há um ano e meio. “Mas à medida que fui conhecendo outros portadores em grupos de apoio, percebi que muita gente sabe muito pouco”. Fica a impressão que quanto menos falamos da Aids, mais o medo foi ficando em segundo plano. “Claro que eu me desesperei, mas fui me acalmando por saber como as coisas seriam daqui pra frente, porém, conheci pessoas que não entendem, por falta de informação mesmo, os riscos eternos que essa contaminação traz,” explica.

Se por um lado houve a perda do medo, e as campanhas hoje não conseguem dialogar com nenhum grupo social, a comunicação adotada anteriormente trouxe resultados satisfatórios, o que tornou a vida do soropositivo melhor. “A humanização das campanhas vieram também para pensar nos dois lados. O lado de quem ainda não tem, mas que deve ver a doença de uma forma mais esperançosa, e para aqueles que já têm o vírus e não precisam ser estigmatizados,” aponta Ivone. Pois não dá pra se previnir do vírus marginalizando os portadores.

Tratamento pesado

Mas se as pessoas acham que o tratamento é razão suficiente para não se preocupar, aí que mora o perigo. Um acompanhamento de qualidade, infelizmente, não consegue chegar a todos graças ao retrocesso da assistência no Brasil. Há lotação, carência de profissionais em quantidade e qualidade. Além disso, a medicação para controlar o HIV pode ser extremamente desgastante para o infectado, trazendo efeitos colaterais físicos e psicológicos.

“Quando comecei a tomar o meu coquetel, sofri bastante com os efeitos colaterais. Tinha dores de cabeças fortíssimas, insônia, cansaço e dores no estômago. Não é só um remedinho mágico que você toma e seus problemas acabam, são comprimidos tóxicos e fortes,” conta Francisco, que toma o coquetel há pouco mais de seis meses e teme os efeitos colaterais ao longo prazo, que podem ser vários, como perda óssea, falência renal e a temida lipodistrofia – que causa a distribuição anormal de gordura pelo corpo – que por mexer na aparência, traz problemas de autoestima para o portador.

A adesão ao tratamento, que deve ser rígida, também deve ser levada em consideração. “Não posso esquecer de tomar o remédio na hora certa, e qualquer viagem que faço preciso estar preparado, como pesquisar antes os postos onde pegar a medicação caso haja algum contratempo. Há uma mudança na rotina, e muita gente não sabe desse lado.” Um dia sequer sem a medicação pode permitir o surgimento de cepas do HIV mais resistentes às drogas e mais fortes no ataque. A não adesão traz um problema sério a longo prazo, que é a falência no tratamento.

Não muito comum, porém possível, também há a chance do vírus ir driblando sucessivamente as medicações disponíveis por questões biológicas, e também de azar. O assistente administrativo Carlos*, portador há duas décadas, passou os últimos 16 anos pulando de coquetel em coquetel até que um dia não teve mais jeito, ele precisou do que os especialistas chamam de terapia de resgate. “No início eu não me importava, achava que era uma questão de adaptação. Mas com o tempo, comecei a ficar preocupado,” conta. A terapia de resgate é mais forte que as convencionais, e por isso os efeitos colaterais tendem a ser piores. Carlos passou por problemas sérios de saúde, desde dermatológicos até neurológicos, graças à medicação.

Diagnóstico também é prevenção

Para os profissionais da área, o maior desafio hoje é o diagnóstico precoce da doença. A maioria das mortes acontecem nos que descobriram o vírus tarde, quando já estão com uma doença oportunista e o organismo bastante debilitado. Campanhas anuais ou pontuais, como o “Fique Sabendo” realizado pelo Governo de São Paulo, possibilitam testes que saem na hora. E a diferença de tempo entre a contaminação e o resultado, pode salvar vidas. “A nossa campanha hoje é pelo diagnóstico, estimulando com que as pessoas façam o teste. Para que, se elas receberem um resultado positivo, não recebam uma sentença de morte, mas uma sentença de vida,” afirma Ivone.

O maior desafio hoje é o diagnóstico precoce da doença

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Outra dificuldade está nos exames que demoram cerca de quinze dias para ficarem prontos, o mais comum na rede pública e privada. Muitos não voltam para buscar os resultados, o que pode ocasionar no diagnóstico tardio. Por isso, é necessário o apoio profissional capacitado para acompanhar e orientar os pacientes na realização desse tipo de exame, dando aconselhamento na hora da coleta, independente se o resultado que virá é positivo ou negativo. Dependendo de como a pessoa é abordada em todas as etapas, o tratamento, caso necessário, vai surtir mais ou menos efeito.

Em uma esfera ampla, é preciso tirar a Aids da “zona amigável” onde foi colocada, tratando-a novamente como uma das prioridades na esfera política e na maneira como toda a sociedade a encara. E mais ainda, apresentá-la de uma maneira efetiva, educativa e eficaz para os jovens. “Nosso imenso desafio é como construir um novo projeto coletivo capaz de derrotar a Aids, diante de uma doença que se banalizou, de um ativismo que arrefeceu e de uma política pública que se apequenou?”, pontua Scheffer. O maior desafio hoje está em como fazer as pessoas temerem a Aids, mas sem a neurose e os preconceitos do começo.

* Os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados.

Comentários
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