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Cadê a epidemia que estava aqui?

Na última década, o programa brasileiro de HIV/Aids sofreu bastante pela forma como o PT vem tratando questões relativas aos Direitos Humanos, e de um governo que se vendeu para setores conservadores, não poderíamos esperar nada além de sucateamento.

André Pacheco

Quando comecei a pesquisa pra coordenar esta primeira edição especial do Vestiário, um mundo novo se abriu à minha frente. Por mais que eu soubesse o que era a Aids e o HIV, eu estava de frente a uma realidade, até aquele momento, bem distante de mim. Era como se eu tivesse me descoberto soropositivo, e uma avalanche de informações foram jogadas pra cima, mas também perguntas. Muitas perguntas.

Pra deixar o trabalho mais centralizado e organizado, eu quem fiz a parte mais trabalhosa da maioria das matérias de Comportamento que você vai ler. Falei com vários especialistas — psicólogos, assistentes sociais, infectologistas, estudiosos e militantes — além de pessoas que convivem com o vírus. Recebi muitos nãos, emails nem respondidos e muitas verdades foram derrubadas. Também li uma caralhada de coisas, desde textos técnicos até reportagens de revistas e jornais.

Comecei a organizar este especial assim que lançamos a primeira edição da revista, no começo de outubro. Queria que fosse um trabalho lindo e diferente, pra ser lançado perto de primeiro de dezembro, o Dia Mundial de Luta Contra a Aids. Chamei alguns que escrevem regularmente aqui, convidei amigos que saberia que arrasariam nos textos e pedi, gentilmente, que três ilustradores (Vitor Martins, Eduardo Myr e Bruno Legitimo, além do Renan e do Vic Matos que já são da casa) dessem uma forcinha na parte visual. Acho que conseguimos. Foi um trabalho de equipe, e fomos motivamos pela vontade que temos de fazer, mesmo que seja bem pouquinho, do Brasil um lugar melhor.

Falamos, além do esperado, do lado humano do HIV, poucas vezes trazido pela imprensa. Você vai conhecer histórias de dor, mas também de superação. Muita superação! Vai perceber, assim como todos nós que nos envolvemos nesse especial, que o ser humano consegue tirar força e seguir lutando mesmo quando parece que a vida vai acabar. Não é só uma edição sobre a Aids, é sobre a fé.

Entre as conversas e troca de emails, uma pulga surgiu atrás da orelha. Cadê a Aids? Pois é, ela sumiu. Lembro que quando eu era criança, nos meus dez anos, era propaganda na tevê, matérias na imprensa, falatório e organização social exigindo a participação ativa do governo. Na época, muita coisa mudou, e o Brasil, graças a uma série de políticas públicas exemplares, levadas à frente pelo na época Ministro da Saúde e hoje detestado José Serra, deu um chega pra lá nos preconceitos e devolveu aos seus soropositivos a chance de continuar vivendo. Não era só sobre remédios, era sobre tratamento humano e cidadania. Mas isso se perdeu.

Por uma decisão interna, resolvemos não ir a fundo na questão política sobre o tratamento do HIV no país. Seria uma discussão tão profunda, que exigiria da gente know how jornalístico e técnico que ainda não temos. Ainda. Quem sabe um dia? De fato, na última década, o programa brasileiro de HIV/Aids sofreu bastante pela forma como o PT vem tratando questões relativas aos Direitos Humanos. Pois sim, falar de Aids é falar de Direitos Humanos. E de um governo que se vendeu para setores conservadores e intelectualmente limitados da sociedade, não poderíamos esperar nada além de sucateamento.

Enquanto isso, brasileiros vão se contaminando, pois as campanhas de prevenção estão atadas aos interesses de Felicianos e seus corvos berrantes. Na visão jocosa do atual Ministério da Saúde, uma epidemia que cresce de forma controlada não é de todo ruim. Como em vários outros pontos essenciais do Brasil, o PT vem se fazendo de sonso numa mediocridade assustadora. Com certeza no dia primeiro de dezembro, veremos um pronunciamento oficial afirmando que ainda somos um sucesso. Mas como Aids é um problema muito específico, e que fora jogado pra surdina desde que Lula vestiu a faixa presidencial, quem está de fora vai achar que é uma maravilha.

Mas falta psicólogos, falta remédios, falta infectologistas, falta pesquisa, falta educação, falta debate, falta verba, falta peito pra tomar as decisões que trarão frutos bons não só pros soropositivos, mas pra todo mundo. Barganhar sobre o casamento gay pode até ser perdoado, querida Presidenta e querida cúpula petista. Mas barganhar sobre uma epidemia, que mata e se espalha se não receber a atenção certa, é imperdoável. Estamos falando de vidas que se perderão por causa de seus jogos políticos estúpidos.

Comentários
Edição #Aids
Cadê a epidemia que estava aqui?
Carta ao leitor

Cadê a epidemia que estava aqui?

André Pacheco

Na última década, o programa brasileiro de HIV/Aids sofreu bastante pela forma como o PT vem tratando questões relativas aos Direitos Humanos, e de um governo que se vendeu para setores conservadores, não poderíamos esperar nada além de sucateamento.

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