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Quem quer se matar, se mata. Ouviu, queridinha?

A ordem era clara. Eu quase cometi o maior pecado do mundo, e por isso eu deveria me tornar uma pessoa angustiada pra todo sempre e tirar essa ideia egoísta da cabeça!

André Pacheco
Renan Riso

Enquanto você esperava essa página carregar, lia o título e a manchete, e observava rapidamente a linda ilustração feita pelo Renan, uma pessoa tirava a própria vida em algum canto do mundo. E por canto do mundo, eu também incluo a sua rua, por exemplo. Pode ser que um vizinho seu tenha acabado de entrar nas estatísticas da OMS, que em 2011, computou que a cada 40 segundos alguém se matou. É muito.

Entre jovens de 10 a 24 anos, é a segunda maior causa de morte. E mesmo assim, continua sendo um tema tabu, repleto de julgamentos e pedras. Não vou falar sobre prevenção ao suicídio, nem vir com um discurso dramático de como precisamos unir forças pra evitar o problema. Vou defender o ponto de vista da parte fraca dessa história, vou defender o cara que se matou, que se mata e que pensa seriamente em se matar.

Quem quer se matar, se mata. Ouviu, queridinha?
Renan Riso

Talvez este seja o texto mais polêmico de toda a minha vida, talvez eu receba xingamentos, talvez eu seja acusado de “apologia ao suicídio”, talvez as pessoas mandem eu me matar, talvez poucos realmente consigam entender o que eu estou realmente querendo dizer aqui, talvez minha mãe me ligue preocupada com a minha exposição. E talvez eu nem me importe. O que me machuca na questão suicídio vai além duma vida humana ter se perdido, mas a forma como todo mundo prefere se fazer de cego e viver num mundinho Poliana.

É pesado quando alguma notícia assim chega aos meus ouvidos, como deve ser quando chega aos seus. Não tenho o coração gelado e nem o sangue de barata, por mais que às vezes eu deseje isso. Querendo ou não, eu acho que é uma das coisas mais tristes que podem acontecer com alguém. Mas eu estaria sendo a pessoa mais hipócrita do mundo se eu viesse com o pior sentimento que podemos ter e nutrir por alguém. A dó. E eu estaria sendo a pessoa mais babaca do mundo se eu achasse que tenho o direito de tentar impedir que outro faça isso, porque eu não sei o que anda atormentando aquele coração, e por mais que eu trabalhe a empatia, nunca chegarei a um décimo da forma como algum sentimento está sendo internalizado. Na verdade, ninguém consegue.

Em 2006, quase aos 21 anos, eu fui internado após uma overdose de medicação. Por pouco, questão de minutos entre a ingestão e o socorro, eu não bati as botas. E como esses remédios foram parar no meu estômago? Simples, eu mesmo tomei. Tomei não, mastiguei. E antes que você me questione, eu dou de ombros pra qualquer julgamento seu, da sua mãe, do seu pastor, do seu chefe. Aprendi a ligar, neste caso, pra única opinião importante: a minha. Mas por que eu estou me expondo tanto assim? Por alguma razão, a minha tentativa vã foi pública em todo o meu ciclo social, e todas as toneladas de julgamentos que eu recebi me fizeram ver que quem era o fraco (como fui chamado com muito rancor por uma pessoa que nem o status de colega tinha) nessa história toda, não era eu. Por ter estado na iminência de morrer pelas minhas próprias mãos, e por ter sentido na pele a ira das pessoas, acho que consegui romper uma barreira e trato o assunto com mais profundidade. Ou pelo menos, tento.

A gente vem lidando com esse assunto de uma forma tão errada, mas tão errada, que não nos permitimos começar a nos questionarmos. Faça esse exercício mental, vá à fundo em tudo que lhe vem a mente quando a palavra suicídio aparece na sua cabeça. Se criou uma cartilha pro assunto, e ela é vaga e preconceituosa. Por exemplo, se um amigo seu chegasse pra você neste exato momento, de supetão, e falasse que está pensando em se matar, o que você faria? Com certeza, você faria tudo errado. Não, eu não estou te culpando, porque você só estaria reproduzindo o discurso que te passaram e agindo da forma que te ensinaram. A gente, ao invés de virar pro caboclo e perguntar, com sinceridade, “o que você está sentindo?” e permitir que ele fale abertamente sobre os seus sentimentos, já vamos dando a nossa opinião, impondo que ele está errado e, muitas vezes, preferindo nem tocar no assunto.

Falo isso por experiência própria, acredite. Ter uma questão íntima colocada na rua, enquanto se é alvo de pauladas como um boneco de Judas na semana santa, me fez iniciar um monte de perguntas sobre o meu ato. Mas ao contrário do que o meu terapeuta, amigos e familiares queriam, e passada toda a culpa e lamentação que eles me obrigaram a ter, segui com as minhas próprias indagações. As respostas, vieram, algumas mais rápidas, outras demoraram anos pra darem as caras. Então eu fui lá, sequei as lágrimas e parei de me martirizar, foi o mais difícil, mas foi libertador. Mas no fundo, parece que todo mundo queria mesmo que eu vivesse num purgatório eterno. “Olha só, André, você quase cometeu o maior pecado do mundo, por isso você deve se tornar uma pessoa angustiada pra todo sempre e tirar essa ideia egoísta da cabeça!”, me dizem, nas entrelinhas, as vozes sociais. Essa coisa de forçar um arrependimento é tão arraigada na gente, que pouquíssimos conseguem entender porque eu trato o assunto com naturalidade, a ponto de escrever esse texto sem nenhum drama.

As pessoas querem que um suicida esteja imerso numa angústia pulsante e surreal, se sentindo um eterno fracassado e se martirizando por uma sensação constante de egoísmo. Mas, ora, não foi justamente a dita cuja da angústia que me fez tomar uma atitude extrema, e agora querem que eu nutra mais outra? A lógica não seria justamente o oposto? E não me venham com esse argumento esquizofrênico de egoísmo, porque eu posso rebater com a mesma moeda. O egoísta era eu que queria morrer ou as pessoas que estavam a minha volta me obrigando a continuar, naquele momento, vivo? Ah, mas as pessoas merecem a sua presença e blá, blá, blá... Ouvi isso tantas vezes, e é um dos argumentos mais usados quando a palavra suicídio dá as caras. E o mais importante ninguém continua dando bola. E eu? Estou falando da minha vida, e por mais que ela tenha, por alguma razão que eu não sei qual é, se cruzado com a de outras pessoas, ela continua sendo a minha vida.

Difícil se deparar com isso, né? A gente foi tão condicionado a controlar da vida dos outros, até mesmo como uma forma de ficar em vigília sobre as nossas próprias ações, que raramente nos damos conta que a vida da outra pessoa é, de fato, a vida de outra pessoa. A sua vida, leitor, é sua. A minha vida, é minha. Respeitando os limites sociais pra boa convivência, existe um espaço íntimo que deveria ser respeitado. E esse espaço íntimo é tão íntimo, que ele dá o direito de cada um fazer o que bem entender com a sua própria existência, e isso vai além de qualquer dogma social e religioso. Se fulano quiser mesmo se matar, ele vai. E o justo, é que ele pudesse fazer isso sem o peso do seu julgamento.

Se eu quiser me matar, eu me mato. Como eu tentei fazer em 2006. E eu poderia tentar, sei lá, mês que vem? Amanhã? Enquanto você lê esse texto? Mas eu não quero, por agora, e eu não consegui aos 21 anos. Pois, no último segundo, a minha pulsão de vida gritou mais alto que a minha pulsão de morte, e voilà, pedi ajuda, sofri pra caralho na recuperação física e estou hoje aqui vivíssimo jogando na cara que eu não me arrependo nem um pouco. Mas e as coisas que aconteceram depois, tudo que eu conquistei e patati patatá, não seria plausível que eu estivesse arrependido de ter tentando? Não. Se eu tivesse conseguido, eu teria deixado de viver os últimos sete anos, óbvio. Porém, isso não vinha ao caso naquele momento, afinal, ninguém sabe como será o futuro. O tal do argumento “você tem uma vida inteira pela frente” é raso justamente por tratar de possibilidades hipotéticas. O que faz sentido pra quem tá lá, com uma arma apontada pra sua própria cabeça são os momentos que já passaram, e se ele tá apontando uma arma pra própria cabeça, é porque aqueles momentos não tiveram peso na decisão de “ele ter uma vida inteira pela frente”.

Mas daí, nesse processo que fui passando, se não bastasse todo o drama que me obrigaram a aturar, veio um outro peso das outras pessoas. Ironicamente, vários dos mesmos que quiseram que eu vivesse eternamente num muro de lamentações, me taxaram de incompetente. “Dá próxima vez que quiser se matar, faz direito”. Juro, eu ouvi isso. Juro que na época não conseguia achar lógica nenhuma nisso. Na época. Hoje eu compreendo que a certa raiva que rolou, foi justamente por eu ter ido contra aquela ideia de que a gente deve fazer de tudo pra se manter vivo, e só, sem espaço pra questionar a própria existência. E também, ao meu ver, tinha um quê de inveja, uma espécie de recalque, por eu ter sido forte o suficiente, e não covarde, a ponto de partir pruma atitude extrema.

Uma coisa que eu gostaria de dizer, só pra não passar batido. Suicídio não é só se entupir de remédio numa única vez, dar um tiro na própria cara, pular de um prédio ou se jogar na frente de um carro. Há outras formas “criativas” nessa questão toda, como largar um tratamento de alguma doença crônica ou pegar o carro e sair dirigindo desgovernadamente, por exemplo. Nossa mente, querido leitor, às vezes age nas entrelinhas. Mas o foco aqui é, como posso chamar, no suicídio ativo.

Você já pensou em se matar alguma vez? Vai, seja sincero com o tio, estamos só nós dois aqui. Nunca imaginou mesmo? Se você se manteve forte no não, segura aí a bomba: você está m-e-n-t-i-n-d-o. Todo mundo nesse planeta já pensou alguma vez em se matar, seja imaginando um suicídio épico ou desejando sumir do mundo. Sim, querer sumir também é pensar em suicídio, só que num outro nível. Ou você achou que depois de sumir do mundo você iria pra onde, pros Alpes Suíços espairecer a mente? Lá também é mundo, filho. E, sim, é tudo a mesma coisa, o que muda é a intensidade do sentimento.

Veja, por exemplo, o sentimento oposto ao sentimento que faz alguém se matar. A felicidade. Ela pode ser mensurada. Tem coisa que te deixa mais feliz, tem coisa que te deixa feliz na média, e tem coisa que arranca só um sorrisinho no canto da boca. Um carrão zero, te deixaria como? Muito, pouco ou feliz na média? Pois é, outra pessoa pode ter um grau de felicidade bem diferente do seu perante a possibilidade de dirigir um possante novo. Eu, por exemplo, nem um sorrisinho de canto de boca daria, carro não me traria felicidade, pois eu começo a pensar em todas as desvantagens de se ter um. É uma questão de peso e medidas, que varia de pessoa pra pessoa. O mesmo vale pra angústia. Algo que pra você não é motivo pra se matar, pode ser pra pessoa que acabou de cerrar os olhos enquanto você lia os últimos três parágrafos. Pois é, deu uns 40 segundos. Viu?! Pessoas continuam se matando. E vão continuar, mesmo que a OMS crie um plano espetacular de prevenção, que o CVV faça mais tantas unidades, que você julgue se achando o mais foda de todos os seres humanos na tentativa de esconder que compartilhou em algum momento dessa vontade.

O suicídio sempre existiu na humanidade. E nada, absolutamente nada, vai fazer ele sumir. O que a gente pode fazer é tentar evitar que mais tantos se matem dia após dia, aí é uma reflexão sobre as nossas próprias atitudes com os outros. A gente tem é que tirar o status de tabu disso, e trazer essa discussão pra perto. Continuar achando que é coisa só de gente sem amor à vida, não ajuda. Porque, por mais estranho que possa parecer, eu tinha muito amor por continuar vivo na época, tanto que trancava a porta de casa antes de dormir e tomei vacina contra febre amarela algumas semanas antes. As duas coisas coexistem em cada um de nós, ou pelo menos na maioria das pessoas, e é o que mantém o nosso equilíbrio. Se a gente tivesse excesso de zelo pela vida, ficaríamos parados no mesmo lugar com medo de tomar vento, e se a gente tivesse só falta de vontade de viver, teríamos nos matado na primeira vez que tentamos andar e caímos.

O que falta nessa história, é justamente um dos gatilhos que fizeram o sicrano, o beltrano e eu, numa atitude extrema, tentar (ou conseguir) ceifar a própria vida. Falta compreensão.

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Edição #04
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