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Responda com sinceridade. Qual o seu gênero?

A primeira pauta que havia pensado era uma ideia fantástica, mas aí percebi algo que, até então, eu não havia dado muita bola. Como eu trataria de um assunto tão delicado, rico e humano se nem do básico eu havia falado?

André Pacheco
[artigo classe="quatro"] [hgroup classe="um alta"] [titulo]Carta ao Leitor[/titulo] [manchete]Responda com sinceridade. Qual o seu gênero?[/manchete] [/hgroup] [texto classe="texto-padrao esq"]

m primeiro momento, parece super tranquilo responder a pergunta do título. É fácil, não é mesmo? Ou é menino ou é menina. Mas só parece. Desde que começamos com essa revista, sempre trouxemos uma ou outra discussão sobre gênero. Seja no formidável texto do Ravel “Ser menino, ser gay, ser eu” — da primeira edição — ou no editorial do Murilo “A luta fundamentalista pelo direito de odiar” — da segunda. É assunto que está em voga tanto aqui, quanto lá fora. O que não deixa de ser um tema delicado.

Quando eu defini a minha pauta de comportamento pra esta edição, tinha em mente tratar da velhice de travestis. Era uma ideia fantástica, mas aí percebi algo que, até então, eu não havia dado muita bola. Como eu trataria de um assunto tão complexo, rico e humano se nem do básico eu havia falado? Eu não teria o direito de ir a fundo sobre travestis na velhice pelo simples motivo que nem sobre as travestis de modo geral eu havia entendido, discutido e opinado. E confesso, pouco sei ainda. Mas tentei dessa vez, e tentarei cada vez mais compreender quem são e como vivem essas meninas. Isso é importante pra todos nós. É importante pra causa gay.

Ontem, dia 03 de novembro, fechei uma entrevista que me ajudou a entrar nesse mundo tão distante do meu, mas de certa forma, tão próximo e importante pra mim. Conversei com uma travesti chamada Thaïs, que tem uma história de vida surpreendente e que já passou dos 60 anos. Uma exceção clara de uma regra estúpida que taxa todo o seu grupo social como “o gueto do gueto”. A matéria ficou ótima. Infelizmente, não consegui escrever tudo que gostaria sobre o tema, mas isso é um universo tão rico, que ainda tem muito pano pra essa manga, tanto que pra complementar um pouco mais esse debate, o Renato trouxe uma lista com cinco filmes pra conhecer mais do universo transgênero. A seleção está imperdível.

Todos nós aqui do Vestiário enxergamos que esse tipo de debate é sine qua non pra que a sociedade evolua, e se liberte das amarras que tiram de cada um de nós — seja do homem extremamente machista ou da feminista militante — a liberdade de ser quem se é. De exercer livremente a sua imaginação e as suas fantasias, de correr atrás de seus sonhos e, assim, fazer do mundo um lugar mais justo, colorido e verdadeiro.

Gênero não é apenas “menino com pintinho” e “menina com pererequinha”. A coisa é bem mais profunda, nos cobre das cabeças aos pés, diz quem somos quando apagamos a luz do nosso quarto e estamos apenas com nosso eu interior. A discussão sobre gênero vai bem além do sexo como ato, ou da sexualidade como exercício de uma personalidade. Eu não sou apenas o André com um pênis, assim como a minha mãe não é apenas aquela mulher com uma vagina. Eu e ela, e também você, além de todo mundo que faz essa colcha de retalhos complexa e paradoxa chamada sociedade, é um tesouro de possibilidades.

Privar qualquer um de nós de exercer livremente essas incontáveis maneiras de lidar com as nossas próprias particularidades, isso sim é um pecado. E digo mais, um pecado que a humanidade vem fazendo consigo mesma há séculos, como frisei no meu texto. Mas um dia o juízo final vai chegar, se é que ele não começou. [assinaturaandre] [/texto] [/artigo]

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Edição #03
E fez-se a barba
Editorial

E fez-se a barba

Rafael Bacarolo

Não me canso de ler, seja em aplicativos, comunidades e grupos gays, que homem mesmo só se tiver barba. Por que, em pleno século XXI, minha masculinidade é definida por pelos no rosto?

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